Retrospectiva ateísta 2015

Por Sergio Viula

retrospectiva 2015

O texto da coluna devia ter sido publicado ontem, mas devido a uma viagem para João Pessoa, PB, que me tomou uma semana, acabei não conseguindo escrever. De qualquer modo, essa postagem deveria ter sido a última do ano. Então, decidi escrevê-la hoje, mesmo que com atraso de um dia.

Penso que vale a pena fazermos uma retrospectiva desse ano de 2015. E para isso, pontuarei algumas notícias, mas também experiências minhas ao longo desse ano.

Uma das mais relevantes foi o I Congresso Anual de Ateus, realizado pelo AAUSA na UFFRJ (Universidade Rural), no dia 08 de fevereiro de 2015. Foram momentos marcantes e muito inspiradores. Ateus, ateias e simpatizantes encontraram-se passaram um dia inteiro discutindo temas relevantes para esse segmento:

http://www.foradoarmario.net/search?q=universidade+rural#!/2015/01/1-caaerj-congresso-anual-de-ateus-do_20.html

Outro evento especial, também realizado pelo AAUSA e parceiros, foi um encontro para discutir o Estado laico, a educação para a diversidade, inclusive sexual  e de gênero, e a influência da religião. Tive o privilégio de participar de uma mesa com diversos queridos e também pude assisti ar brilhantes falas por professores convidados.

http://www.foradoarmario.net/search?q=universidade+rural#!/2015/09/veja-como-foi-o-evento-promovido-pelo.html

Uma pesquisa da PUC do Rio Grande do Sul, ainda que contestada em sua metodologia, deu grande visibilidade aos ateus, especialmente depois de um cobertura feita pelo Fantástico. Tratava-se da Geração Y, que, segundo os pesquisadores é muito mais aberta para a diversidade e conta com grande número de ateus e agnósticos:

http://www.foradoarmario.net/search?q=universidade+rural#!/2015/09/veja-como-foi-o-evento-promovido-pelo.html

As ofensas proferidas por Datena em seu programa “Cidade Alerta” na Rede Bandeirantes foram levadas ao tribunal pela ATEA (Associação Brasileia de Ateus e Agnósticos) em 2013, mas a sentença saiu este ano. A Rede Bandeirantes foi condenada. Você poderá saber mais sobre esse processo e a sentença aqui:

http://www.cartacapital.com.br/blogs/midiatico/apos-ofensa-a-ateus-band-tera-de-exibir-campanha-liberdade-religiosa-9813.html

Ateus foram perseguidos e mortos por ousarem questionar as afirmações de fundamentalistas islâmicos em diversos lugares do Oriente Médio e da Ásia. A África também contabilizou seus crimes. Cito um país africano e um asiático: Egito e Bangladesh. E escrevi sobre esses casos aqui também: (1) O que aprendemos com o jovem egípcio preso por ser ateu e defender uma abordagem científica para com a vida? | Coluna do Viula no Site do AASA – 13/09/15: https://aasaoficial.wordpress.com/2015/09/13/o-que-aprendemos-com-o-jovem-egipcio-preso-por-ser-ateu-e-defender-uma-abordagem-cientifica-para-com-a-vida/ (2) Mortos por não crerem e ousarem questionar – 20/09/15: https://aasaoficial.wordpress.com/2015/09/20/mortos-por-nao-crerem-e-ousarem-questionar/ | Coluna do Viula no Site do AASA – 20/09/15.

Até o site religioso Gospel Prime reproduziu notícia do Instituto Gallup sobre o crescimento de ateus no mundo: “O instituto Gallup Internacional realizou uma entrevista em 57 países referente às crenças religiosas e constatou que o número de pessoas que se consideram religiosas caiu quase dez pontos percentuais. Pela pesquisa, em 2005 77% das pessoas nesses países eram religiosas, em 2011 esse número representa 68% enquanto que o número de ateus passou de 3% para 13% no mesmo período.” https://noticias.gospelprime.com.br/ateismo-cresce-mundo-aponta-pesquisa/

A pesquisa feita pelo Gallup também revelou que Israel está entre os países menos religiosos do mundo. Os três monoteísmos tremem… (risos):

http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/israel-e-um-dos-paises-menos-religiosos-do-mundo-diz-estudo

O Pew Reseacrch Center, em outra pesquisa, encontrou que a “proporção de norte-americanos que dizem estar ‘absolutamente certos’ de que Deus existe caiu drasticamente de 71% para menos de dois terços – informou o centro de pesquisas Pew Research Center nesta terça-feira.” Isso equivale a 63%, exatamente.

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/11/numero-de-americanos-certos-sobre-deus-cai-para-63.html

Entre as más notícias, tivemos a do falecimento de Sam Simon, co-criador de Os Simpsons, ateu e filantropo. Vai fazer falta por aqui.

http://www.paulopes.com.br/2015/03/morre-o-co-criador-dos-simpson-filantropo-e-ateu-militante.html

Voltando aos trabalhos da Coluna do Viula, uma fan page foi criada no Facebook, dedicada às postagens dessa coluna. A inauguração foi no dia 06/09/15 e uma postagem recapitulando os textos publicados anteriormente foi publicada. Quem não quiser perder mais nenhuma postagem pode curtir a fan page e ficar por dentro. Basta acessar esse link:  https://www.facebook.com/colunadoviula/

Como vemos, 2015 foi um ano agitado para os ateus no mundo. Alguns avanços foram feitos. Algumas perdas também foram sofridas, mas estamos protagonizando debates e trocas de ideias como nunca antes.

Para não alongar muito esse post, desejo a todos os meus leitores e leitoras um excelente reveillón e um 2016 repleto de conhecimento genuíno, bons sentimentos, experiências que acrescentem – e até transformem – ao que puder ser aprimorado, muito amor e muito prazer, com saúde e paz. Sabemos que desejar não transforma nada disso em realidade, mas pode servir de incentivo a que você mesmo(a) faça acontecer.

Forte abraço a todos e todas.

Sergio Viula

 

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Você é dono dos seus pensamentos?

cérebro preso a dogmas

Por Sergio Viula

É amplamente conhecido o ódio dos fundamentalistas muçulmanos contra qualquer sinal de diversidade ou de discordância das normas arbitrariamente estabelecidas por odiadores que viveram antes deles, principalmente autoridades políticas e religiosas.

Mas, atenção: Ninguém nasce num mundo “virgem” em termos de normas. Não existe uma sociedade sequer, na qual um indivíduo possa nascer sem que esteja sujeito a normas que o constrangem e o modelam em sua mais íntima subjetividade.

Antes mesmo do primeiro choro do recém-nascido, uma série de normas já estão operando para “enformá-lo” tão-logo ele chegue ao mundo. Essas normas envolvem gênero, sexualidade, crenças, classe social, etnia, nacionalidade, e determinarão muito do pensamento e comportamento desse indivíduo futuramente.

Por isso, não basta que se retire um fanático muçulmano, vítima de extremismos, ainda mais extremos do que o seu próprio, da região em que vivia, para que esse refugiado ou imigrante se livre do sistema de coerções que restringiam e continuam restringindo seu pensamento e comportamento.

Isso é o que temos visto da parte de refugiados muçulmanos homofóbicos, os quais, trazendo toda a bagagem de preconceitos que acumularam em sua terra de origem, ameaçam, torturam e até matam seus conterrâneos homossexuais com base nos mesmos pressupostos esposados pelos grupos extremistas, dos quais eles também fugiram: o Estado Islâmico, o Boko Haram, a Al Qaeda, entre outros.

Na Suécia, dois jovens marroquinos mataram um cidadão homossexual, mas além do espancamento que resultou em morte, eles o insultaram com xingamentos homofóbicos o tempo todo. Por fim, enrolaram uma cobra morta no pescoço da vítima. Não escaparam, porque um dos jovens teve seu DNA identificado graças a resquícios de seu sangue na cobra – símbolo do mal personificado para judeus, cristãos e muçulmanos. Um vídeo com as cenas do espancamento foi recuperado pelos investigadores suecos, mesmo depois de apagado, e a cena do crime pôde ser vista em detalhes.

Além desse episódio na Suécia, a Holanda tem se preocupado com o sofrimento dos refugiados sírios que são gays. Eles têm sido submetidos a todo o tipo de constrangimento e risco de morte entre seus patrícios, igualmente refugiados. Tanto assim que esse mês (dez/15), o Ministro da Justiça holandês, Klaas Djikoff, decidiu criar uma ala separada para os refugiados que venham a sofrer assédio homofóbico ou que voluntariamente se identifiquem como gays ao serem recebidos nos espaços de recolhimento. Inicialmenre, o ministro hesitou em criar esse espaço, porque considerava que essa seria uma forma de segregação com base em orientação sexual. Porém, levando em consideração o risco real para a vida dessas pessoas, ele não viu outra alternativa.

Em julho desse ano, um jovem iraquiano contou à BBC (http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150723_ei_homossexuais_tg) como escapou de ser entregue pelo próprio pai ao Estado Islâmico. O pai estava ciente do destino dos homens gays entregues aos milicianos extremistas. Ele sabia que o filho provavelmente seria atirado de um prédio, sob a excitada aprovação da multidão, mas mesmo assim pretendia fazê-lo. O rapaz conseguiu escapar a tempo.

Tragicamenre, é justamente esse o tipo de multidão que emigra para outros países, tentando escapar do ISIS e outros grupos. Suas mentes deformadas pela homofobia – continuamente alimentada pelas crenças e normas estabelecidas ao longo de séculos de doutrinação religiosa naquelas sociedades – vai com eles, obviamente. Vale lembrar que muitas dessas pessoas consideram a si mesmas como fiéis e amáveis seguidoras de Alá e de seu profeta. A noção que têm de si mesmas e das outras pessoas é patologicamente distorcida pelos sistemas de coerção baseados em crenças e discursos que elas mesmas consideram como sagrados, apesar de violarem qualquer noção de direitos humanos.

Sensível a essa terrível realidade que os refugiados LGBT tem enfrentado, mesmo quando chegam a terras consideradas mais seguras que seus países de origem, foi que o presidente Barack  Obama decidiu priorizar o recebimento dos refugiados com esse recorte identitário que fogem da morte na Síria. A decisão foi anunciada pela Casa Branca no último dia 09.

Mas por que trago essas notícias hoje? Entre outras coisas, para que reflitamos sobre o sofrimento que essas pessoas estão vivenciando, mesmo depois de chegarem a destinos onde acreditavam que teriam paz e alguma chance de começar uma nova vida.

Isso nos diz muito sobre os males que os discursos religiosos podem causar aos seres humanos, mas, muito mais do que isso, gostaria de chamar a atenção dos meus queridos leitores e das minhas queridas leitoras para o fato de que nós também estamos sujeitos a sistemas de coerção, que, de modo semelhante àqueles, modelam nosso pensamento de muitas maneiras, assim como o pensamento das pessoas que nos rodeiam – o que pode nos dar a falsa sensação de que não podemos estar errados. Afinal, muita gente pensa do mesmo jeito e é impossível que tanta gente esteja enganada. #sóquenão. Podemos estar absolutamente enganados. E para piorar, podemos estar sendo reforçados em nosso engano por pessoas tão enganadas quanto nós mesmos. Como quebrar essa corrente de equívocos, então?

Felizmente, apesar das múltiplas influências e interações que ajudaram a constituir nossa subjetividade, podemos pensar o pensamento. Não é fácil, mas é possível. E como o modo como nos vemos e vemos os outros, e a maneira como agimos no mundo, tem muito a ver com o que pensamos a partir de pressupostos já cristalizados em nossa cultura, antes mesmo que pudéssemos problematizá-los, devemos nos esforçar sinceramente por reconhecer e compreender o modus operandi dessa rede de coerções.

Ao nos darmos conta de como essas coisas se interconectam e nos constituem, poderemos reconstruir os caminhos que nos trouxeram aqui. É preciso que identifiquemos o que não é racional, razoável e justificável a partir de uma ética que inclua o máximo de empatia possível, a fim de mudarmos o que for preciso para que nos tornemos seres humanos mais abertos, livres e felizes e para que sejamos proativos na produção das condições de existência que permitirão que outros também o sejam.

Infelizmente, a desconversão, a apostasia, ou seja lá como queiram chamar o abandono da fé por alguém que ainda há pouco era crente, não é suficiente para garantir que o indivíduo fará uma completa travessia para fora das caixinhas mentais que lhe foram impostas ou daquelas que ele abraçou irrefletidamente, a partir das interações sociais que vivenciou desde que nasceu. Por isso, ainda existem tantos ateus que reproduzem preconceitos engendrados pelas crenças e pelas instituições religiosas – e não me refiro apenas à homofobia e seus derivados.

De qualquer modo, ver um ou outro ateu usando termos como “gayzista”, por exemplo, para desmerecer a luta das pessoas LGBT por direitos iguais é algo que me causa profundo estranhamento. Primeiro, porque o termo foi cunhado por fanáticos do movimento neo-pentecostal americano que venderam essa ideia para extremistas evangélicos no Brasil, como foi o caso de Julio Severo, que através de seus canais na internet, serviu de interface entre os pastores extremistas e caça-níqueis  americanos e brasileiros do ignóbil quilate de Silas Malafaia, Marco Feliciano e outros. Note bem o que estou dizendo: EU, SERGIO VIULA, já ouço  Júlio Severo usando esse termo há anos. Há uns 14 anos!!! De repente, o mais fake de todos os fakes de filósofo, o insuportável Otávio de Carvalho, começou a usar o termo também. Bastou isso para que alguns ateus (não mais inteligentes do que essa turma de ignorantes) achassem o termo engraçadinho e começassem a usá-lo para fins de piada e para desmerecer o que realmente está em jogo: as justas demandas das pessoas LGBT por direitos iguais, bem como a liberação da sociedade das mesmas amarras que atam todos esses fundamentalistas (e, digo-o com vergonha alheia, alguns ateus ignorantes também) num amontoado de esquizofrênicas inutilidades contemporâneas.

Além do total nonsense do termo gayzista, ele justapõe dois substantivos historicamente antagônicos – gay e nazista.

Gays foram torturados, mortos e esquecidos nas cadeias, mesmo depois do final do Holocausto nazista, graças ao parágrafo 145 do Código Penal da Alemanha, sendo os homossexuais e transgêneros de vários tipos o único grupo que sofreu dupla violência: a dos campos de concentração e a da não compensação pelo governo alemão do pós-guerra.

A justaposição dos dois termos (gay e nazista) está longe de ser inocente. Ela foi pensada, através da cunhagem  do híbrido gayzista, dar a entender que existe esse (outro) absurdo semântico, a “ditadura gay”.

Quando você quiser mostrar claramente a altura, a largura e a profundidade da sua ignorância e má-fé, use interno gayzista na presença de gente que não faz uso desse termo e nem advoga a ridícula ideia de ditadura gay. Você será imediatamente reconhecido como membro do nada seleto grupo dos completos idiotas.

Ironias à parte,  não use esses termos para se referir à comunidade LGBT e sua luta. Não seja conivente com os que trabalham na mesma lógica do ISIS, dos nazistas, dos fundamentalistas cristãos e dos judeus ultraortodoxos, só para citar alguns. Todos eles estão presos à mesma matriz de crenças e de moralidade abraâmica. Liberte-se disso o quanto antes.

É por isso que eu já disse reiteradas vezes que penso o seguinte: nenhum ser humano, principalmente se for cético, agnóstico ou ateu, deveria se contentar em simplesmente não adotar um credo religioso. Para além disso, cada um desses seres humanos deveria fazer um trabalho sério de desconstrução de conceitos e preconceitos. Mas isso apenas para abrir espaço para a construção de conceitos e valores que não admitam – sob qualquer hipótese – a restrição das liberdades humanas, seja no campo do pensamento ou da expressão de si mesmo. E por expressão, refiro-me às expressões identitárias, bem como às expressões de ideias e de afetos. E associemos a isso o direito legítimo à autorrealização, seja ela qual for, desde que não viole os direitos fundamentais das outras pessoas.

Simplificando: O fato de um sírio, iraquiano ou iraniano ser gay, e se realizar como ser humano enquanto tal, não viola o direito de qualquer muçulmano, cristão, judeu, hindu, budista, ou religioso de qualquer outra filiação, muito menos de ateus e agnósticos.

Por outro lado, o ódio homofóbico de qualquer uma dessas pessoas viola direta e gravemente os direitos das pessoas homossexuais, bissexuais e trans, inclusive o mais essencial deles, que é o direito à vida. Isso, por si só, já deveria fazer qualquer ser humano inteligente e desprovido de má-fé, ou que não sofra de alguma psico/sociopatia, a abandonar qualquer pragmática anti-LGBT.

O que não podemos admitir, sob hipótese alguma, é que o ódio LGBTfóbico que caracteriza certas sociedades do Oriente Médio, da África e da Ásia venha a lançar raízes em países que se tornaram o sonho imigratório dessas pessoas exatamente por funcionarem sobre bases mais humanistas e secularistas.

Por isso mesmo, refaço aqui a pergunta do título: Você é dono dos seus pensamentos? Ou será que os pensamentos que você tão obstinadamente considera seus são, na verdade, o resultado de uma espécie de contínua “colonização”, resultante de sua inserção nessa rede discursiva altamente complexa e profundamente influente que o rodeia e perpassa desde o primeiro contato dos seus pulmões com o oxigênio do ambiente em que você nasceu? Lembre-se que nossa sociedade foi doutrinada sob bases muito semelhantes às do islamismo: as bases dos monoteísmos judaico e cristão são essencialmente as mesmas. Na verdade, o islamismo é uma combinação de judaísmo e cristianismo com crenças correntes no tempo de Maomé e seus sucessores.

Se isso o consola, temos sido (todos) colonizados por essas ideias em alguma medida. Mas não confunda consolo com resignação. Não parece ser uma atitude correta resignar-se diante do simples fato de que você não é o único. Lembre-se que você pode reavaliar, refletir, expor-se a outras maneiras de ver e de pensar as mesmas coisas. Você pode realizar profundas mudanças em seu modo de pensar, falar e agir, mesmo que leve muito tempo nesse processo. Mas, que sejam mudanças para garantir mais liberdade, mais abertura para a diversidade de sujeitos com igualdade de direitos, para a assumir e usufruir o próprio corpo, de modos cada vez menos sujeitados às arbitrariedades de gente que vive de mal com o mundo e consigo mesma.

Que você e eu atinjamos uma abertura maior para o pensamento racional, razoável, acompanhado daquela compaixão que nos resguarda de fazermos o que não gostaríamos que fizessem conosco ou nos livra de nos omitirmos  naquilo que gostaríamos que outros agissem, caso fôssemos nós na berlinda.

Em uma frase: Não podemos admitir nada menos que as condições de existência que garantam um lugar seguro ao sol para todos, todas e todxs!

Boa semana!

Sergio Viula

 

 

Medo de descrer?

Por Sergio viula

medo de descrer

Tenho conversado com vários amigos sobre religião e ateísmo ultimamente. Algumas pessoas me contataram pela primeira vez nesta e na semana passada com o objetivo de solicitar algum esclarecimento ou conselho em matéria de fé e ateísmo. Confesso que não gosto da ideia de dar conselhos. Prefiro pensar que estamos trocando ideias, porque muitas das perguntas que esses amigos e colegas recém-chegados me fazem acabam me levando a pensar em certos aspectos da vida que eu ainda não tinha verbalizado do modo como acabo fazendo a cada interação. O crescimento vem em mão dupla.

Essas pessoas costumam me perguntar sobre certos aspectos de suas crenças e por que considero absolutamente dispensável ao bem viver qualquer tipo de fé em deus, deusa, deuses ou deusas. Nesse pacote, também viajam para bem longe de mim superstições como espíritos, anjos, demônios, vidas pós-mundanas, reencarnação, carma, etc.

Interessante notar que muitos nem acreditam completamente em tais coisas, mas ainda temem as consequências do descrer. Essa semana tive a oportunidade de conversar com três pessoas com essa mesma linha de raciocínio.

É curioso também que muitos acreditem que sem deus ou leis divinamente reveladas, os homens se perderiam e tudo viraria desordem e “barbárie”. Essa ideia não sobrevive à mais superficial passada d’olhos sobre realidade ao nosso redor. Não se precisa nem recorrer à história, ainda que ela possa nos fornecer inesgotáveis exemplos do que “homens de deus” foram capazes de fazer contra a humanidade.

Na verdade, basta olharmos em volta para percebermos que não é por falta de fé que as pessoas cometem os crimes mais hediondos: tortura, estupro, assassinato, corrupção envolvendo dinheiro público e de empresas privadas ou de capital misto – só para citar alguns. Muito pelo contrário, muitas vezes, o pretexto é justamente essa fé.

Mas, não nos apressemos, pois não podemos dizer que a fé transforma homens honestos em bandidos. Esse homens dificilmente foram honestos algum dia. E se pareciam ser, talvez estivessem mentindo para si mesmos – a pior das desonestidades. A maioria não buscou a igreja ou o sacerdócio/ministério pastoral à toa. De fato, o que choca é que essa mesma fé também não os tenha transformado. Nada mudou em seu mau caráter. Pelo contrário, o palavrório religioso serve para distrair os trouxas, enquanto aplicam diversos tipos de golpe..A Câmara dos Deputados está cheia de (maus) exemplos.

Mas dificilmente erraríamos ao afirmar que enquanto muitos desses bandidos estavam desprovidos de um elemento mobilizador que fosse capaz de catalisar seus mais sórdidos sentimentos e colocá-los em movimento, eles continuavam em “modo incubação”, até que encontraram na fé a motivação que tanto desejavam, e na congregação religiosa, o senso de pertença capaz de conferir às maiores atrocidades uma aura de “normalidade” ou de “senso comum” – que só parece comum mesmo, porque os membros da denominação religiosa, seja ela qual for, vivem num ambiente emocionalmente sobrecarregado de paixões de tristeza e de morte, que, por estarem associadas a ideais de virtude nas pregações e liturgias, impedem que eles façam qualquer movimento racional para fora dessa caixa de ressonância fundamentalista, extremista, totalizante e totalitarista – seja de fabricação judaica, cristã ou islâmica (para ficar só nos três maiores monoteísmos). Existem outras.

Portanto, nem a fé nem a falta dela torna alguém necessariamente bom ou mau. Tenho vários amigos que creem e são pessoas maravilhosas, assim como tenho amigos que não creem e são igualmente fantásticos. Por outro lado, conheço gente que afirma ter fé, mas é mais diabólica que o mitológico Satanás, e gente que diz que é ateia, mas fala e age como os crentes mais fundamentalistas do pedaço, achando que são melhores do que esses fanáticos apenas porque não repetem versículos bíblicos. Porém, tomam todo o cuidado para preservarem os mesmos “frames” – ou esquemas de pensamento e julgamento sobre certo e errado – que qualquer idiotinha extremista utiliza.

Além de causarem problemas para muita gente que não tem a menor intenção de viver de acordo com as lendas religiosas registradas nos livros “sagrados” de cada sistema de crenças ou com tradições preservadas pela transmissão oral, essas agremiações e suas pregações/doutrinas levam o indivíduo a se tornar dependente de uma fé coercitiva, baseada em preceitos inegociáveis, deixando de viver muitas alegrias e tentando justificar sua melancolia, frustração e até mesmo ira, por não conseguir se realizar plenamente por causa do auto-patrulhamento e do patrulhamento de outros que professam a mesma fé e pertencem à mesma agremiação.

Às vezes, até os que não têm qualquer ligação com aquele ambiente e os discursos que circulam nele tornam-se o “outro” em função do qual, o crente (qualquer que seja sua crença) precisa se comportar como um exemplo de piedade e abnegação, mesmo quando isso não passa de verniz. E olhem que estou pensando nos crentes que levam a religião a sério, porque a maioria nem se dá o trabalho de envernizar a cara de pau que canta (nem sempre) lindamente na igreja, mas depois faz todo tipo de falcatrua na praça, trai o cônjuge com gente da própria igreja ou da vizinhança, sem dar a menor importância ao escândalo que pode estar sendo semeado com isso tudo. Ah, e como brotam tais escândalos! Eles vicejam como capim e trepadeiras e prevalecem sobre as tentativas de ocultamento de padres, pastores, rabinos, imãs, etc. Sem contar o que faz o povão que os segue, é claro.

Se tem uma coisa que as religiões institucionalizadas, especialmente as que trabalham com técnicas de manipulação mental, odeiam quase tanto quanto odeiam o ateísmo, são conceitos como o de individualidade, subjetividade e autonomia. Por isso, falam tanto na importância do rebanho, da reunião, da submissão a uma suposta “autoridade especialmente designada por deus”.

Só que tudo isso é muito perigoso, pois é por meio dessas técnicas de controle e muitas outras aparentemente inofensivas que multidões inteiras são enredadas no engano e perdem tempo, dinheiro, amigos, contato com os parentes que não compartilham do mesmo sistema de crenças, e por aí vai. E o medo de descrer é o maior aliado do silenciamento (que não resolução de modo algum) das dúvidas que ousaram emergir de regiões aparentemente inacessíveis da própria pisque.

Estimulado pelos contatos que tenho recebido ao longo desse ano, mas especialmente pelos das últimas semanas, achei que poderia ser interessante sugerir alguns vídeos nos quais falo especificamente sobre religião e ateísmo, focando em alguns dos principais aspectos desses temas. Não vou listar muitos, porque isso seria contraproducente, mas os leitores interessados poderão “navegar” no meu canal do YouTube e “pescar” outros. 🙂

Os que eu gostaria de sugerir para esse momento são os seguintes:

A imortalidade da alma: https://www.youtube.com/watch?v=Sg1GOmZ8VWY

Possessão demoníaca: https://www.youtube.com/watch?v=IaSZB2Bar8w

Apocalipse, o sucesso de um fracasso: https://www.youtube.com/watch?v=vzn5Esmx8f4

Mês da Bíblia – um ateu na Igreja Reformada Ecumênica. São duas partes:

Vídeo 1: https://www.youtube.com/watch?v=syNjNwevyGM

Vídeo 2: https://www.youtube.com/watch?v=H01aKMMfHJo

Se gostar, dê um curtir nos vídeos e compartilhe-os com os amigos.

A todos e todas, um ótimo domingo e uma linda semana.

De teísta a ateu, sem deixar um só elo daquelas correntes inteiro

Por Sergio Viula

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Sinto-me privilegiado por poder conversar com tanta gente através dos meus canais nas redes sociais (www.facebook.com/sergio.viula) e no meu blog (www.foradoarmario.net). Graças a essas tecnologias, muitas pessoas entram em contato querendo desabafar sobre sua transição do teísmo para o ateísmo. Elas falam sobre seus questionamentos e receios e sobre dúvidas em relação a certos aspectos da religião ou mesmo do ateísmo. Sempre cresço com essas interações. Essa semana, mais de uma pessoa trocou ideias comigo sobre esses temas através do chat do Facebook. Porém, uma das conversas mais extraordinárias que tive foi com Israel Russo, organizador de O Mundo de Is. Essa conversa foi dividida em dois dias e entrou pela madrugada.

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Israel Russo (Is)

Israel é um jovem amazonense cuja sensibilidade e inteligência são admiráveis. Ávido leitor, ele devora as letras que falam sobre ateísmo, ciência, entre outros temas. Já trocamos muitas figurinhas pelas redes sociais. Essa semana, ele decidiu fazer uma entrevista comigo, via chat do Facebook, mas não para pedir orientação ou desabafar, como os casos aos quais me referi antes. O que ele tinha em mente buscar era mais informações sobre minha visão a respeito do ateísmo, das religiões e da vida de um modo geral. Sua intenção era publicar essa conversa no Mundo de Is – o que ele acaba de fazer.

Apesar das respostas condensadas ao máximo, a entrevista não é curta. Também não posso dizer que seja superficial. Procuramos colocar nela o essencial, com linguagem bem acessível e com exemplos de fácil compreensão.

Portanto, o texto da Coluna do Viula deste domingo vai ser simplesmente um convite. E esse convite é para que você, querido leitor ou querida leitora, dê uma passadinha no Mundo de Is e leia a entrevista na íntegra. Se curtir o conteúdo, compartilhe, para que mais gente tenha acesso a essas informações. Talvez, muitos dos que costumam ler essa coluna não imaginem (talvez, sim) que tipos de dramas passam as pessoas que ainda não conseguiram livrar suas mentes definitivamente das cadeias religiosas com as quais se acostumaram a conviver. Espero que essa entrevista colabore para a travessia de muitos para fora das masmorras dos dogmas religiosos e para a superação de seus efeitos colaterais, mesmo que seja apenas com mais uma gotinha de ceticismo.

VEJA A ENTREVISTA AQUI:

IS ENTREVISTA SERGIO VIULA

Leia esse texto como se fosse um bate-papo entre amigos.

Bom domingo e boa semana para todos e todas!

ATEU: Cansado, sim. Vencido, nunca.

Por Sergio Viula

 

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Figura encontrada no Blog de Danilo Pinheiro

 

Ser ateu num país como o Brasil não é fácil, mas existem lugares bem piores. Em alguns locais, o simples ato de alguém assumir publicamente que não tem crença é suficiente para desencadear um linchamento à luz do dia sem qualquer obstrução por parte das autoridades locais. Em alguns casos, as próprias autoridades o incitam. Contudo, existem algumas coisas muito chatas que ateus podem enfrentar numa certa terra que tem palmeiras onde canta o sabiá.

Um dos momentos mais complicados pelos quais passa um descrente é o de “sair do armário ateu” para sua própria família. Assumir-se incrédulo para quem lhe ensinou algum credo ou rito desde cedo não costuma ser uma jornada tranquila. As pessoas podem ir das lágrimas ao ataque de fúria, seguidos de chantagem e outras violências.

Outra coisa chata é que quase todos os ritos de passagem em nossa sociedade incluem algum grau de religiosidade. Não basta dar nome ao curumim, é preciso batizá-lo, como no caso dos católicos, ou apresentá-lo ao “Senhor”, como fazem  os evangélicos, ou circuncidá-lo como fazem os judeus, e por aí vai. Depois disso, existem outros ritos. Alguns designados para marcar o começo da adolescência (crisma, bar mitzvah, etc), celebrar o casamento, a bênção sobre a casa nova e outros objetos valiosos. Do nascimento à morte, sempre tem ritual. Não basta enterrar o defunto, é preciso rezar, cantar ou batucar, dependendo da religião da família. Afinal, nada mais badalado que um funeral, especialmente quando o indivíduo é famoso em sua comunidade, seja lá qual for a sua classe social.

Mas enquanto vivo for, o ateu sofrerá pressões para se explicar cada vez que diz não crer em deus ou em seres sobrenaturais. Até mesmo no leito de morte, o ateu será importunado.Tudo para garantir que ele se arrependa, mesmo que seja somente no último momento. Se o infeliz do moribundo, incapaz de falar ou gesticular, fizer o menor movimento com a pálpebra, um desses reflexos meramente mecânicos sem qualquer significado especial, haverá certamente um ou mais crentes aos brados no domingo seguinte, dizendo que o ateu se converteu antes de dar o último suspiro. Sério que vocês acreditam nisso mesmo?

Aliás, não só se enganam aí, como também não percebem que os momentos que antecedem a morte são provavelmente aqueles nos quais a maioria dos seres humanos (não todos, felizmente) mais jura acreditar em alguma coisa sobrenatural sem estar convicta de coisa alguma.

Não bastasse todo esse palavrório sobre deuses, anjos, espíritos, e congêneres para alimentar o mais profundo tédio de um ateu, já cansado de tanta bobagem, ainda é preciso encarar o fato de que a maioria das pessoas se sente especial demais para apenas nascer, envelhecer e morrer (reproduzir-se é absolutamente desnecessário diante da atual superpopulação mundial), devendo haver algo preparado especialmente para elas depois da morte. Isso é pior que porre de vinho barato: absolutamente insuportável.

Poderia até ser divertido se não fosse trágico. Afinal, como alguém tão importante poderia simplesmente deixar de existir, não é mesmo? Alguém que nunca fez a menor falta no universo em eras incompreensivelmente longas, de repente, torna-se indispensável depois de umas poucas décadas de vida – isso, se viver tanto.

E não basta uma única existência para pentelhar o mundo, é preciso sobreviver à própria morte e voltar (reencarnação), ou miraculosamente levantar-se do túmulo no mesmo corpo, estando livre de qualquer imperfeição (ressurreição).

Pelo menos, no budismo, o cabra não volta para sempre, porque em algum momento, depois de muitas reencarnações, o infeliz será absorvido pelo Nirvana – o nada. Também no hinduísmo, ele deixa de reencarnar quando se torna um com o Brahma – nada a ver com a cerveja que tu bebe depois do expediente, ateu pinguço… kkkk.

É muita pretensão que um indivíduo acredite que o universo não funcionará adequadamente sem que algo dele sobreviva ao “paletó de madeira”  em algum tipo de existência pós-mundana.

É deprimente ver tanta gente que não vive tudo o que há para viver porque acha que precisa sacrificar prazeres que não causam dano algum ao semelhante para conquistarem recompensas pós-mundanas. E isso vai do simples fato de não ter uma religião ao inofensivo e solitário prazer de se masturbar durante um reconfortante banho no final do dia. Porém, existem consequências bem mais graves dessa crenças, tais como: os casos dos homens-bomba, que levam a jihad às últimas consequências.

Mas é de importância fundamental que atentados fundamentalistas estão sendo feitos aqui mesmo no Brasil, como provavelmente aconteceu com o terreiro Axé Oyá Bagan, que foi incendiado.

Houve denúncia de intolerância religiosa e o Ministério Público está acompanhando o caso. Segundo o jornal O Globo, em setembro, dois outros terreiros foram incendiados no entorno. Todos três Brasília.

Com o crescimento do extremismo, especialmente o chamado fundamentalismo evangélico, as religiões minoritárias correm cada vez mais risco, assim como vários outros segmentos sociais contra os quais essa turba ignorante grita em seus microfones e programas de rádio, TV e internet.

O que me consola é que o número de ateus vem crescendo entre os jovens. Mas, veja como os crentes se ressentem disso:

Eu comemorava o crescimento do ateísmo entre jovens brasileiros na minha timeline lá no Facebook, quando um conhecido meu, que é crente, veio me perguntar o seguinte:

Conhecido crente: Mas… deixa ver se eu consigo entender tanto júbilo. O fato de haver mais jovens que se dizem ateus do que aqueles que se identificam como evangélicos, conforme a reportagem, deve ser comemorado? Por quê? Qual é a vantagem disso na vida daqueles que comemoram o fato? E no quê isso melhora a sociedade, as chamadas minorias e a situação do país? Alguém pode me explicar como se eu tivesse cinco anos, como dizia o advogado vivido por Denzel Washington no magnífico filme “Filadélfia”?

Sergio Viula: A vantagem é ter menos risco de ser manipulado a partir de neuroses relacionadas a amigos ou inimigos imaginários, ter pensamentos e corpos manipulados, desprezar os que não leem na sua cartilha dogmática, gastar fortunas para sustentar parasitas trabalhados óleo da unção, e por aí vai. Viver livre desses e outros entraves existenciais é numa puta vantagem no nível individual. Agora me aponta um problema em ser ateu que não esteja relacionado a alguma fábula, mito ou historieta?

Conhecido crente: Nenhum problema. De fato, ateus não costumam ter amarras ou motivações religiosas ou proselitistas em suas ações. Mas, excetuando-se idiotas interesseiros como Malafaia e Feliciano, quantos mais evangélicos merecem, de fato, a classificação de perseguidores ou opressores, Sergio Viula? Você conviveu no segmento tempo suficiente para conhecer a modo de ação dos evangélicos.
Sergio ViulaTodos os que os sustentam (diretamente) e os que mantém a circulação dos discursos que sejam menos do que reconhecimento da dignidade de todas as pessoas, inclusive gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, sem nenhum “mas, porém, todavia”. NENHUM. O mesmo valendo para as religiões afro, para o folclore brasileiro, inclusive nas escolas, etc. Malafaia e Feliciano são só a ponta caricata do iceberg. É bem o contrário: a exceção é que destoa de tudo isso e ainda tem a coragem de desafiar esses hipócritas. São raríssimos.
(Fim da conversa)
Mas não basta ficar fazendo chacota das crenças. É preciso desenvolver textos (falados ou escritos) que colaborem para o esclarecimento daqueles que estiverem dispostos a ouvir e ler o que temos a dizer.
Na semana passada, por exemplo, eu estive na 1ª Conferência Internacional do [SSEX BBOX] em São Paulo (veja aqui como foi o encerramento). A minha fala foi sobre “Sexualidade, Cultura e Religião”. Vocês já podem imaginar o “babado” (hehehe). Falei dos dois armários dos quais saí praticamente ao mesmo tempo, mas que eram coisas bem diferentes: o da homossexualidade e o do ateísmo. Pude discorrer bastante sobre questões religiosas e sobre minha postura ateísta diante da vida e de tudo o que me circunda. Foi extremante estimulante ver a boa recepção, mesmo por parte daqueles que têm algum tipo de fé. Essa fala foi feita no contexto da polarização do laicismo versus fundamentalismo religioso e diversas nuances entre um e outro.
E, como em todo grupo social, os que têm alguma crença são a maioria, mas no caso dos participantes da conferência, parece que o fundamentalismo religioso está passando longe.
Aliás, penso muito sinceramente que o fanatismo religioso fará mais pela expansão do pensamento ateísta no mundo do que qualquer argumentação racionalmente construída. Há de chegar o dia em que as alegadas verdades reveladas e totalizantes serão vistas como absolutamente ridículas.
Assim, sigamos em frente, mas sempre defendendo o direito tanto à crença como à não-crença, enquanto combatemos as ideias extremistas e fascistas, que, por definição, são totalizantes, absolutizantes, uniformizantes e insuportavelmente antagônicas a qualquer projeto de liberdade. E digo liberdade aqui, pensando no direito de todo indivíduo à expressão de suas subjetividades e à realização de si mesmo, conforme suas mais profundas aspirações.
Chega de coerção e sufocamento!
E se for para sonhar com mundos melhores, sonhemos e trabalhemos para fazer desse mundo um lugar menos insuportável – o que significa mais livre, leve e solto. 😉

SSEX BBOX: Um domingo qualquer

Por Sergio Viula

 

Sou meio doido mesmo. Além de tudo o que já tenho para fazer na minha vida, ainda arrumo tempo para encontros que misturam trabalho e prazer. Isso geralmente acontece em eventos ateus e LGBT – meus favoritos.

Agora mesmo, enquanto escrevo esse post, encontro-me em São Paulo para a 1a. Conferência Internacional [SSEX BBOX]. Trata-se de um projeto internacional e multifacetado que pensa, questiona, desconstrói e procura ampliar horizontes no campo da sexualidade e das identidades e performances de gênero, com foco na extinção das coerções que impedem as pessoas de viverem plenamente suas subjetividades.

As discussões são de alto nível e a circulação de discursos e vozes oriundas de diversos “lugares” de experiência são o grande “barato” do projeto e dessa conferência em particular.

O local escolhido foi o Centro Cultural São Paulo.

Hoje, eu participarei da mesa 15: Sexualidade, Cultura e Religiosidade. Vocês já podem.imaginar o que vem por aí. Hehehe

IMG-20151122-WA0006Tatiana Lionco e eu nis bastidores

IMG-20151122-WA0005Viviany Beleboni e eu nos bastidores

IMG_20151121_173329860              Buck Angel e eu no camarim

O que poderia ter sido um domingo qualquer tornou-se um dia especial mergulhado na diversidade, multiplicidade, pluralidade de identidades e desejos materializados nas vozes dessa gente valorosa que por a cara no sol e não tem medo de careta(s).

Pelo fim de toda caretice, toda babaquice. Pelo fim das coerções uniformizantes – essas que são ,ao mesmo tempo, mães e filhas dos fascismos de todas as nuances.

Seu corpo, sua vida. (Re)invente-se.

Dois vasos de plantas no lugar daquelas duas testemunhas de Jeová ali na porta, por favor.

Por Sergio Viula

bart e tjVocê pode clicar na foto para vê-la melhor e depois na seta de retorno para voltar ao post.

Numa universidade pública do Rio de Janeiro, duas testemunhas de Jeová  (TJ) costumam ficar do lado de fora do portão, de plantão, na calçada que conduz aos portões da instituição.

Vestidas com decoro, com cabelos e pele muito bem tratados, eles/elas se destacam daquelas “ovelhas” de igrejas pentecostais extremamente radicais que vivem com os cabelos mal cuidados, usando roupas que não combinariam nem com o botijão de gás aqui de casa, tão ruim é o tecido e a estampa. Sem contar que as TJ não têm nada contra desodorantes.

Pois bem, essas adoráveis TJ, às vezes, duas mulheres; às vezes, dois homens, ficam de pé, como se estivessem de plantão, por horas a fio, esperando que alguma pobre alma desgarrada de Jeová pare para conversar com elas e seja reconduzida ao $alão do Reino das Testemunhas de Jeová, a única organização chancelada por Jeová na terra. Tudo mais é apenas sistema de Satanás. Um beijinho no ombro do Charles T. Russell todas as que não sobreviverão ao armagedom: as evangélicas, católicas, espíritas, enfim, todas as outras agremiações religiosas.

Até aí, tudo bem. A rua é pública e as revistas (Sentinela e Despertai) geralmente apresentam capas que não ferem os códigos de decência, ainda que eu não as considere inofensivas de modo algum, especialmente nas mãos de crianças e adolescentes. O que, de fato, me incomodou (nada que me fizesse perder tempo discutindo com elas) foi ver outra dupla dessas adoráveis criaturas, candidatas ao paraíso terrestre, fazendo plantão dentro das dependências da universidade. As duas figuras pareciam espantadas e dificilmente teriam alguma chance de conversar com os alunos, sempre apressados ou geralmente já abarrotados de leituras complicadas demais para ainda perderem tempo tentando entender os delírios de Jeová e dessa turma.

O que me incomoda, portanto, é ver a incoerência retratada naquela cena: uma organização que abomina o conhecimento científico, que vive criticando o “presente século” (o que inclui o humanismo secular e seus semelhantes), sempre dizendo que Jeová há de destruir e renovar toda a terra para que seus queridinhos panfleteiros e vendedores de literatura sancionada pelo Corpo Governante possam habitar sem a “pentelhação” dessa gente que insiste em doar sangue como gesto de amor, por exemplo, infiltrada nas dependências de uma universidade que elas mesmas abominam… Como assim, produção?

Não pude deixar de pensar no quanto as universidades FELIZMENTE se afastaram do controle da religião sobre o que se define como verdadeiro ou falso, pelo menos nos países que compõem o que chamamos de Ocidente. Infelizmente, em países dominados por governos islâmicos, isso ainda não é verdade. Conhecimento ou dogma se misturam, prevalecendo este sobre aquele. Lembrem-se do caso do jovem egípcio que ousou questionar a “cientificidade” do discurso de um professor muçulmano. Caso não tenha lido, o post encontra-se aqui. Leia-o depois de terminar esse, por favor.

Mas pensemos nas universidades e sua trajetória.

As primeiras universidades surgiram no Oriente. Mas, as que foram fundadas no Ocidente foram fortemente estimuladas por  padres e monges. Em seguida, passaram a ser subvencionadas pelos estados-nação, obviamente, por motivos nacionalistas e imperialistas, mas foram ganhando cada vez mais autonomia e primando pelo conhecimento livre das amarras dogmáticas da religião, pelo menos em alguns lugares do mundo. O resultado foi a secularização das universidades, mesmo daquelas que ainda são administradas pela Igreja, como é o caso das Pontifícias Universidades Católicas. E isso foi um ganho extraordinário para a comunidade acadêmica, para a sociedade em geral e para o sistema político-econômico no qual elas se inserem e ao qual, de certo modo, mantém ou transformam. Infelizmente, isso não acontece em todo o mundo. Muitas universidades continuam sob o domínio de líderes religiosos, especialmente no “mundo islâmico”.

Para ver uma lista das dez mais antigas universidades do mundo, acesse esse link da revista Galileu. É muito curioso.

Por serem tão estratégicas, as universidades, públicas ou privadas , precisam manter-se livres de qualquer influência de extremistas, conservadores e fundamentalistas. Ela pode e deve ser um lugar de diálogo inter-religioso , bem como de humanismo, secularismo, laicismo, ateísmo e outras formas de livre pensamento, assim como um espaço para os debates que envolvem ética, política e sociedade, é claro. Mas, a universidade precisa ser refratária a tentativas de sabotadores que odeiam a ciência ou que desejam controlá-la com fins mesquinhos.

Tentativas de fazer a universidade se curvar aos dogmas dessa ou daquela religião e aos interesses obscuros de partidos políticos ou de grandes corporações, em detrimento do avanço em todas as áreas do conhecimento (lembrem-se das pesquisas com células-tronco), exceto aquelas que atendam a esse ou àquele setor – isso é algo que não podemos admitir jamais.

A universidade deve produzir conhecimento científico, tecnológico, filosófico, artístico, social, político, histórico, linguístico, enfim, contemplar e promover o progresso em todas as áreas das ciências exatas, humanas e biológicas, de modo a enriquecer a  experiência humana e facilitar a vida no planeta, desde as mais básicas atividades rotineiras até a realização dos mais ousados e sofisticados sonhos da humanidade, causando o menor impacto possível sobre ecossistemas, sejam os mais imediatamente associados a nós ou os mais remotos. Afinal, tudo está conectado de algum modo. Um recife que morre na Austrália pode afetar todo o planeta de diversas maneiras: temperatura, pureza e oxigenação dos oceanos, etc. A moral daquela velha anedota da borboleta que abanou as asas num lugar do planeta e causou um tsunami em outro é muito mais verdadeira do que se pode imaginar, apesar do tom jocoso da historieta.

Não se pode, por exemplo, tolerar “acidentes” como  o da empresa Samarco, ocorrido neste novembro de 2015 em Minas Gerais. Um sistema fluvial inteiro foi afetado e possivelmente destruído por elementos tóxicos de responsabilidade daquela empresa ligada à Companhia Vale do Rio Doce, que desde o governo de Fernando Henrique está sob o controle da iniciativa privada. Não é mais estatal. Já se fala em deputados envolvidos numa CPI para investigar o caso supostamente recebendo dois milhões de reais cada da parte da empresa. CPI é o cacete! Polícia federal e Ministério Público em cima dos responsáveis. E STF em cima dos deputados que tenham aceitado suborno, caso seja comprovado. Cientistas, governantes, juristas têm que unir forças para obrigar a empresa a realizar a completa recuperação do Rio Doce e do sistema abastecido por ele, assim como do solo afetado. Pessoas intoxicadas poderão viver em grave sofrimento daqui para frente. Novas gestações poderão ser gravemente afetadas pela exposição aos elementos tóxicos. O Ministério da Saúde precisa investigar o impacto disso sobre a saúde pública e prover o necessário para que a população se recupere ou acabe sofrendo novos danos.

Não se pode tolerar a poluição do ar, principalmente nos níveis alarmantes de São Paulo, Pequim, Cidade do México – só para citar três.

Não se pode tolerar o desmatamento e a consequente destruição de nossas fontes hídricas.

Não se pode tolerar a poluição do espaço sideral com restos de foguetes, satélites e outras bugigangas de “última geração”, algumas enviadas para lá há décadas sem qualquer preocupação dos responsáveis em recolher esse lixo espacial. Na verdade, é lixo humano. O espaço não o produziu. Aliás, vale lembrar que outros animais não produzem lixo. Só o bicho humano. Há, inclusive, o risco de que esses objetos entrem na atmosfera da terra e colidam com áreas habitadas, florestas, regiões agricultadas ou usadas para criação de gado.

Não se pode tolerar o envenenamento de vegetais e animais usados para o consumo, a partir de insumos químicos com o objetivo de fazê-los crescer mais rápido, ao custo da saúde de bilhões de pessoas.

Outrossim, há que se pensar modos mais justos e solidários de se criar esses animais para que não sofram a vida inteira. Gado de corte e aves, de um modo geral, são torturados desde o nascimento até o abate. Isso é injustificável, antiético, cruel. Não é o caso de proibir o consumo de gado ou aves de corte, mas de tratá-los o mais dignamente possível até que, eventualmente, venham a ser comida. Enquanto ele comida não for, são seres sensíveis que apresentam muitas das emoções que tanto prezamos ou queremos evitar. Além disso, nós também seremos pasto para outros seres vivos um dia, inclusive micróbios, mas não vivemos como se já estivéssemos sendo devorados. E talvez já estejamos.

Ressalto, porém, que se depender de Jeová e de sua turma, o que teremos é o velho “quanto pior, melhor”, que a maioria dos crentes adora, quando se trata do “mundo” e das “coisas do mundo”. Afinal, só assim, eles podem culpar o diabo, o ser humano e o mundo, dizendo que a solução está naquele obscuro livro de muitíssimas fábulas e crimes, mas sem qualquer acuidade científica. O que se pode esperar, do ponto de vista científico, de um livro que não diferencia um morcego de uma ave.

morcegoVocê pode clicar na foto para vê-la melhor e depois na seta de retorno para voltar ao post.

Assim, não sejamos ingênuos. O conhecimento que gera soluções faz surgir novos problemas que precisarão de mais conhecimento para que sejam resolvidos, e que também gerarão novos problemas. Desse ciclo, jamais escaparemos, mas é transformando o círculo em espiral que nos desenvolvemos. O importante é não adiarmos o que já sabemos e que podemos fazer agora mesmo, de modo que vivamos vidas mais saudáveis, longas, felizes e com o máximo de harmonia possível no convívio com outras pessoas e demais seres vivos ou não vivos ao nosso redor.

Países mais ateus do mundo: Basta dizer não creio?

 Por Sergio Viula

estatua-cristo

Foto: estátua de Cristo na Polônia é maior que a do Rio

O site Mundo Estranho, que pertence à Editora Abril, publicou uma matéria sobre o ateísmo no mundo, sob o título “Qual é o país mais ateu do mundo?” (http://mundoestranho.abril.com.br/materia/qual-e-o-pais-com-mais-ateus-no-mundo ). Copio abaixo um resumo apresentado pelo próprio site:

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Crer ou não crer? – Os números da religião e do ateísmo no mundo

Suécia: 85%

  • População: 8,9 milhões
  • Ateus: 7,6 milhões

Vietnã: 81%

  • População: 82,6 milhões
  • Ateus: 66,9 milhões

O budismo e o taoísmo, religiões comuns por lá, são vistos como uma tradição, e não crença.

Dinamarca: 80%

  • População: 5,4 milhões
  • Ateus: 4,3 milhões

Um levantamento da ONU aponta que países com boa taxa de alfabetização tendem a ser mais descrentes.

Noruega: 72%

  • População:4,5 milhões
  • Ateus: 3,2 milhões

Japão: 65%

  • População: 127 milhões
  • Ateus:82 milhões

Em 2008, o pesquisador britânico Richard Lynn concluiu que países com alto QI são mais ateus. É o caso da população japonesa, que mantém a média 105 – uma das mais altas já registradas.

República Tcheca: 61%

  • População: 10 milhões
  • Ateus: 6,2 milhões

Finlândia: 60%

  • População: 5,2 milhões
  • Ateus: 3,1 milhões

França: 54%

  • População: 60,4 milhões
  • Ateus: 32,6 milhões

Coreia do Sul: 52%

  • População: 48,5 milhões
  • Ateus: 25,2 milhões
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REFLEXÃO DE SERGIO VIULA
 
                    Vê-se pelo quadro que os países, conquanto apresentem maioria de ateus em sua população, não são necessariamente igualmente emancipados quanto às visões tradicionalmente sustentadas pelas religiões. Suas posturas diante de diversas questões que afetam a vida humana, seja em seu plano individual ou coletivo, variam entre o nada tradicional e o extremamente influenciado pela tradição. Os suecos, por exemplo, respeitam os direitos humanos e valorizam as liberdades civis num nível muito mais intenso e amplo que o Vietnã, por exemplo, onde a população vive sob intenso controle governamental, inclusive em temas de foro privado.
                    A França, por exemplo, enfrentou forte oposição da parcela católica de sua população quando decidiu regulamentar os casamento para todas as pessoas, independentemente do sexo dos cônjuges. Venceu a legislação inclusiva, justa, igualitária, mas foi preciso empenho da parte da presidência daquela república em manter-se fiel à laicidade que os franceses vêm construindo ao longo dos últimos séculos. Venceu o laicismo. Casamento igualitário aprovado.
                    O que quero dizer com isso, então? Quero dizer que é fantástico ver que a maioria dos países com maior número de ateus é a dos que apresentam níveis de educação e bem-estar social mais elevados.Porém, quero chamar atenção para o fato de que não basta ser ateu. Dependendo da sociedade em que o ateu vive, ele precisa ir além do não crer. Ele precisa assumir uma postura subversiva, revolucionária. Deixo claro que não me refiro ao uso de armas e facções paramilitares. SUBVERTER O QUE ESTÁ ESTABELECIDO COMO TRADIÇÃO OU VERDADE INQUESTIONÁVEL SEM O USO DE ARMAS. Nossa estratégia tem que ser a de construir e promover CONHECIMENTO e manter um compromisso incondicional com a TRANSFORMAÇÃO, não com a CONSERVAÇÃO do que tradicionalmente é pensado, dito e feito em sociedades dominadas por normatividades nascidas de religiões totalitárias e que pretende controlar e ditar o que se deve pensar e como se deve viver em todas as perspectivas que a existência pode comportar.
                    É preciso ser subversivo, reformador, transformador. Precisamos ser parteiras e parteiros de uma cosmovisão que suplante tudo que veio sendo reforçado com base numa visão judaico-cristã em nossa sociedade, seja em termos de valores morais, interpretações da realidade, relações de toda sorte entre seres humanos e entre estes e a natureza que os rodeia. Incluem-se aqui também os modos de subjetivação e a pluralidade das subjetividades, o Direito, a Política, a Economia, a produção de conhecimento, as relações internacionais, e por aí vai.
                    Gente que conserva o que a neurose judaico-cristã produziu, por mais que diga ser ateia, continua agindo como um crente, com a diferença de que não ora. Isso é muito pouco. Pode ser até melhor deixar que os religiosos continuem fazendo isso, porque ver ateus irrefletidamente repetindo tais discursos e comportamentos, sujeitados a uma mimética do absurdo, é lastimável. E isso para não dizer profundamente prejudicial para qualquer movimento ateu que se preze.
                    Ateu que assina embaixo de coisas ditas por fundamentalistas e conservadores contra qualquer tentativa de romper com as subjugações, ou seja, com as subalternidades sacralizadas de muitos modos é mais religioso do que pensa, mesmo que despreze a cabeça do cadáver, ainda conserva o corpo. Diz que despreza deuses e qualquer tentativa metafísica de explicar a realidade, mas prescreve ou preserva como verdadeiros e mandatórios pensamentos e comportamentos que não se sustentam sem aqueles mesmos deuses e aquela(s) mesma(s) metafísica(s) que historicamente assombra o pensamento humano.
                    Para não esticar muito, como é que eu poderia resumir o que quero dizer numa frase? Não poderia. Mas vou tentar:
“Seja ateu em todos os sentidos, caso contrário não faz sentido ser ateu.” (Sergio Viula)
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                    Gostaria de aproveitar a coluna de hoje para apresentar meu novo livro – agora, um romance: O homem que amava mendigos. 
 
                    A obra dialoga com diversas questões relacionadas à sexualidade, à afetividade e à vida em sociedade por ser humanos que divergem da normatividade que procura padronizar as subjetividades e individualidades humanas.
                    Visite a Fan Page do livro no Facebook e curta a página: https://www.facebook.com/O-homem-que-amava-mendigos-um-romance-por-Sergio-Viula-1029775257074026/
 
                    Se desejar ser direcionado para o site do Amazon para adquirir o livro, basta acessar esse link: http://www.amazon.com/homem-que-amava-mendigos-Portuguese-ebook/dp/B00RURKA06/ref=redir_mobile_desktop?ie=UTF8&fp=1&noEncodingTag=1&pc_redir=T1&redirectFromSS=1
                    Fico grato desde já pela visita à fan page. Cada “curtir” é um apoio a mais. Obrigado.
Bom domingo,
Sergio Viula
Vale lembrar que o Kindle é GRÁTIS!

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Do animismo ao ateísmo: a trajetória de quem morreu sem jamais ter existido de fato

Por Sergio Viula

deus morreu coluna do viula

Nota: Quando Nietzsche disse a célebre frase “Deus morreu”, ele não se referia especialmente a deus algum, nem mesmo ao quimérico deus cristão. Ele se referia à metafísica como sistema que tentava entender o mundo físico a partir do suprassensível: todo aquele conjunto de crenças em pós-mundos, supra-mundos, realidades para além do natural. Obviamente, foram no pacote essas pobres criaturas nascidas de nossa imaginação atormentada, às quais chamamos deuses. 

Vamos ao que interessa, então. 😉

O pensamento animístico tem povoado a mentalidade humana desde tempos imemoriais. E por animismo, quero dizer a ideia de que todos os seres têm alma, sejam pedras, árvores, animais ou seres humanos. Provavelmente, foi essa crença na “anima” (alma) que abriu espaço na imaginação humana para coisas como a manipulação dos elementos por meio de encantamentos. Surgem os feitiços, a magia.

Com o tempo, os humanos passaram a crer que essas almas ou espíritos teriam o poder de se deslocar pelo mundo sem a necessidade de um corpo. Novos personagens entram na economia da superstição humana: fantasmas, guardiões das florestas, espíritos de antepassados, seres sobrenaturais de diferentes espécies (duendes, gnomos, fadas, etc.). Tudo isso foi ganhando status de realidade na imaginação do amedrontado homo sapiens (eternamente órfão, querendo ou não), especialmente devido a sua falta de compreensão dos fenômenos naturais, principalmente aqueles mais imediatamente ligados a sua rotina: tempestades, secas, raios, doenças e coisas do gênero.

Daí ao surgimento dos deuses, bastou um pouco mais de imaginação. Foi só superdimensionar um ou mais desses supostos seres espirituais para que os deuses finalmente se estabelecessem no acervo imaginário humano. Diferentes grupos humanos atribuíram status de realidade a diferentes deuses. É bem provável que o estabelecimento desses deuses em conexão com  famílias, clãs e tribos tenha contribuído para a formação das identidades nacionais.

Graças ao princípio de economia que subjaz a muitas das nossas operações cerebrais, não demorou até que as pessoas começassem a imaginar que talvez não existissem tantos deuses, mas apenas um que acumulasse todo o poder. Alguns daqueles deuses nem eram lembrados ou devidamente cultuados, tantos eram eles.

Portanto, transferiram os departamentos que estavam sob o comando de vários deuses individualmente para um deus só. Todos os deuses, menos o grande sortudo, foram demitidos sem aviso prévio. A fortuna, a saúde, os raios, as chuvas, os rios, os mares, as colheitas, o gado, as guerras, os partos e demais aspectos da experiência humana, bem como os fenômenos que a afetam, passaram a ficar a cargo dessa quimera que veio a ser considerada o deus todo-poderoso, todo-sapiente e presente em toda parte ao mesmo tempo.

Mas, ninguém se engane. Deuses são criaturas difíceis de matar. Assim, os resquícios daquela imaginação mais primitiva persistiram na atual dulia (veneração aos anjos e santos, como classifica a Igreja Católica) e na hiperdulia (culto especial à Virgem Maria, acima de santos e anjos e logo abaixo da Trindade), só para citar dois exemplos. Basta notar que os santos continuam encarregados das mesmas tarefas das quais os deuses demitidos se ocupavam: São Judas Tadeu é o padroeiro dos aflitos e desesperados; Santo Expedito é o padroeiro das causas impossíveis; Santa Edwiges é a padroeira dos endividados; Santa Luzia é a padroeira dos olhos; Santa Cecília é a padroeira dos músicos ou da música sacra; e por aí vai.

Mas, não nos esqueçamos do culto à Virgem Maria, também encarregada de vários departamentos. Tem a N. Sra. das Cabeças, a N. Sra. da Conceição (concepção), a N. Sra. do Bom Parto, a N. Sra. da Boa Morte, a N. Sra. Desatadora dos Nós, enfim, são ilustres senhoras para todos os gostos e necessidades.

O que significam esses santos e esses diversos títulos de Maria, afinal? Significam que a mentalidade dos primitivos politeístas continua presente, a despeito do alegado monoteísmo judaico, cristão e muçulmano. Cada um a seu próprio modo manteve ou adaptou, sem medo de inchar a máquina administrativa celestial, os semi-deuses que serviam aos deuses antigos sob a forma de santos, anjos, arcanjos, querubins, serafins, diabo, demônios e outras criaturas afins. O catolicismo condensou todas as deusas-mães, tão comuns em tantas culturas antigas, na pessoa de Maria, a quem chamam sempre de rainha do céu, virgem perpétua, mãe santíssima, fazendo referência a sua suposta superioridade em relação a outras tantas mulheres que, assim como Maria, viveram dominadas por todo tipo de violência misógina num mundo onde o patriarcalismo e machismo faziam o que bem entendiam sem qualquer constrangimento.

Mas ao destronarem tantos deuses para entronizarem apenas um, os seres humanos fizeram um movimento extremamente perigoso para a sobrevivência de qualquer deus que permanecesse de pé, a despeito de todos os que já haviam caído: tornaram-se TEOCIDAS — e isso bem antes do Renascimento do século 17, do Esclarecimento do século 18, da Revolução Industrial do século 19 e da Revolução Científico-Tecnológica do século 20 que segue em pleno vapor nesses primeiros 15 anos do século 21.

Mas por que me referi a todos esses séculos, ou seja do 17 ao 21?

Porque nunca antes na história desse mundo (risos), houve tantos teocidas no planeta. Os primeiros foram os próprios religiosos. Eles mataram centenas, milhares até mesmo milhões de deuses através de suas guerras santas, inquisições, textos sagrados, cultos religiosos e sermões. Deixaram apenas um de pé, mas esse também foi derrubado, apesar de ainda ser invocado por milhões de sonâmbulos existenciais.

O que quero dizer é que aquele que se cultua hoje como deus todo-poderoso não passa de um cadáver (para usar uma expressão de Nietzsche). Esse deus a quem os abraâmicos pouparam em sua sanha teocida também foi mortalmente ferido e sangrou até a última gota de seu fantasmagórico sangue pelos últimos cinco séculos, aproximadamente. O que judeus, cristãos e muçulmanos fazem hoje é cultuar um morto. Deus não faz sentido. Toda tentativa de explicar a vida e assumir ou ditar comportamentos a partir da crença nele e em seu mundinho supra-terrestre é mera obstinação e saudosismo de um tempo em que a a classe sacerdotal tinha a última palavra sobre tudo. Todo culto religioso atual não passa de um evento social com alta lucratividade para a maioria de seus organizadores. Provavelmente, há pessoas que acreditam de fato e até organizam suas comunidades pensando em preservar o que consideram a verdade divina, mas essa suposta verdade divina não se justifica mais, especialmente  à luz dos conhecimentos acumulados e dos testemunhos da história.

O monoteísta devoto não é diferente de seus correlatos politeístas e animistas, que seguem cultuando deuses a quem os TEOCIDAS judeus, cristãos e muçulmanos assassinaram há muito tempo. Todos os cultuadores daqueles deuses cultuam cadáveres ainda mais velhos que o cadáver do deus abraâmico, também falecido há muito tempo. Aliás, foram os próprios abraâmicos que, ao matarem todos os outros deuses, acabaram envenenando o seu. Os desafios que estes colocaram diante dos cultuadores de outros deuses acabaram sendo arma uma carregada e engatilhada apontada para a cabeça de seu deus único e todo-poderoso. Foi uma questão de tempo até que ela fosse disparada, não importando quão rebuscado fosse o palavrório pseudo-filosófico ou pseudo-científico que esses mesmos abraâmicos usassem para salvar a vida de seu deus (vida que só era possível mesmo na imaginação dos que criam).

E por que ainda há quem carregue o cadáver de deus como se ele pudesse andar por conta própria?

Porque os seres humanos não são apenas racionais. Eles são passionais e misturaram muitos sentimentos ao culto à divindade. A adoração e a submissão mental à ideia de um deus são viciantes. Além disso, uma vez incorporado um hábito ou tradição, eles passam a controlar a pessoa, em vez do contrário. Basta ver quantos seres humanos cumprem ritos cujos significados eles desconhecem completamente. Contudo, se não os cumprem, sentem-se culpados ou ficam com medo de sofrerem consequências. O medo e a culpa são os grandes alicerces da crença religiosa, assim como dos ímpios sistemas e estruturas que dela advém.

Mas, observe bem: não é a crença em deus o maior problema. O maior de todos os problemas, a meu ver, é a crença na existência da alma e em sua imortalidade. Pouca diferença faria um deus que não tivesse o poder de punir ou recompensar eternamente uma alma que não pode morrer. Eis aí a grande sacada dos teólogos judeus, cristãos e muçulmanos: ameaçar a suposta alma dos fiéis (e dos infiéis que creem) com tormentos eternos ou tentar seduzi-la com prazeres eternos como meio de controlar os indivíduos. Por isso, ateus incomodam tanto – não podem ser controlados – e por isso, são tão perigosos – podem despertar outras consciências convenientemente dominadas se forem levados a sério.

Céu e inferno são as duas asas de um mesmo abutre. Você acabará devorado de qualquer modo, porque o único bem de fato que você possui, que é a vida aqui e agora, será diariamente sacrificado por uma ilusão até que não lhe reste mais um dia sequer e nem memória do que se foi.

Aliás, vale lembrar que outros sistemas de crença funcionam com a mesma lógica, inclusive a crença na reencarnação e em carmas. O abutre continua o mesmo: não fazer o que os mestres mandam acumula carma negativo e traz sofrimento, mas fazer fielmente o que eles ensinam compensará o carma acumulado de outras existências, aliviando o sofrimento. Se for bom o suficiente, poderá até se tornar um mentor, um guia de luz, um avatar, um com a divindade, dependendo da religião em questão. E isso vai do hinduísmo ao kardecismo, passando pelas mais diversas agremiações espiritualistas.

Por isso, a crença na imortalidade da alma é a maior ferramenta de mobilização de seres humanos. Ela é capaz de motivar pessoas relativamente inteligentes a darem a seus líderes aquilo que estes sempre ambicionaram: submissão e subserviência incondicionais, ou seja, poder.

Por isso, sugiro que você termine a leitura desse post assistindo meu vídeo sobre a imortalidade da alma e suas consequências nefastas. E que todos tenham uma boa semana, assim como uma vida sem cadáveres amarrados às costas, sejam eles de que deuses forem!

Bíblia: contradições internas e externas ao texto

Por Sergio Viula

bíblia

Hoje, compartilho uma palestra sobre as contradições da Bíblia, apresentada na Igreja Ecumênica Reformada em 16 de setembro de 2014. Ouça e tire suas próprias conclusões. ^^ A reflexão está dividida em dois vídeos. Comece pelo primeiro, logo abaixo desse parágrafo.

Vai ser uma espécie de Escola Bíblica Dominical (EBD), já que essa coluna é sempre escrita aos domingos e o tema dessa é a Bíblia, mas vai ser bem diferente do que os crentes costumam ouvir de seus professores de EBD.

Divirtam-se! 🙂