A PARTIR DE 20 DE MARÇO DE 2016, OS TEXTOS DA COLUNA DO VIULA PASSARÃO A SER PUBLICADAS EM SITE PRÓPRIO

Por Sergio Viula

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A NOVA HOSPEDAGEM DOS TEXTOS QUE COSTUMAVAM SER PUBLICADOS AQUI PASSARÃO A SER POSTADOS EM:

 

VIULA ATEU – https://viulaateu.wordpress.com/

NÃO PERCA NENHUM ARTIGO. 😉 TODO DOMINGO, UM NOVO POST.

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Ateus cada vez mais resolvidos

Por Sergio Viula

ateu da paz

 

É muito bom ver que os ateus estão cada vez mais seguros em falar de suas convicções em público. Essa semana, estava eu dando uma prova oral para um grupo de estudantes da língua inglesa em nível pré-intermediário, quando numa determinada pergunta sobre tratamentos chamados de ‘medicina’ alternativa, ele falou sobre o efeito placebo, explicando por que não acreditava na eficácia daqueles tratamentos. Ao longo da fala, ele disse categórica e simpaticamente “sou ateu”. Quase tive um cabrito!!! hehehehe Sorri e disse: Que interessante, fulano. E quase completei: bem-vindo ao clube. Mas não podia criar distrações durante a prova, que é feita em dupla. Futuramente, falarei com ele sobre isso. Talvez, ele até já saiba. Muitos alunos meus me conhecem primeiro pelo Google… hehehehe Quem manda ser abusado e ficar dando a cara a tapa? Não tem jeito, sou dessas. ^^

Mas, não é a primeira vez que isso me acontece. Tempos atrás, dei aula para um grupo de jovens iniciantes, e um dos mais brilhantes alunos disse que era ateu. A turma entrou em erupção. Deixei que ele mesmo se defendesse. E só fechei a conversa com a ressalva de que devemos respeitar a diversidade humana e o direito à crença ou não crença. Esse aluno acabou se tornando um bom amigo e já trocamos muitas ideias.

Ser ateu, porém, não torna ninguém imediatamente justo e coerente. Existem ateus bastante idiotas por aí. Mas, dá prazer ver gente com alto nível de conhecimento, equilíbrio, abertura para o outro, mesmo quando este lhe parece diferente, dizendo “sou ateu” ou “sou ateia”, não gratuitamente, mas em momentos nos quais isso possa ser realmente relevante.

Fico bastante feliz também quando vejo pessoas que, conquanto tenham alguma crença no sobrenatural, não se deixam levar por fanatismo e manipulação. São defensoras de valores importantíssimos como liberdade, igualdade e fraternidade. Elas dizem um NÃO  retumbante à qualquer tipo de discriminação e juntam suas vozes às dos que lutam por inclusão e dignidade na diversidade, inclusive sexual e de gênero. Tenho o privilégio de conhecer algumas assim. Tenho orgulho de tê-las como amigas.

Mas, sem dúvida, uma das boas coisas do magistério é poder estar em contato com gente que te inspira e acrescenta coisas boas à tua bagagem existencial. Eles dizem que também crescem nessa interação e isso me deixa super feliz.

Essa semana, tive um caso desses numa aula de conversação. A turma sugeriu temas a serem discutidos naquela aula. Num dado momento, surgiu o papo sobre HIV, AIDS e doenças sexualmente transmissíveis. A discussão foi super produtiva, mas na hora que eu fui alinhavar a atividade antes de passar para outro assunto, dei o costumeiro feedback sobre o desempenho deles, mas decidi acrescentar uma fala minha também. Comentei  sobre como eu lidava com esses temas na educação dos meus filhos. Eles ficaram surpresos, primeiro por ouvirem que eu tinha filhos (e eu me divirto muito com isso). Depois, pela abertura com que os eduquei nesse sentido.

Uma aluna minha que estuda medicina ficou super feliz com o que eu acabara de falar, e não poupou elogios às minhas posturas – o que só reforçou para a turma toda a importância do diálogo franco, da prevenção por meio da camisinha, da testagem regular e – em caso de soropositividade – o acompanhamento médico. Também incluí a gravidez não planejada, especialmente na adolescência, por falta de prevenção, que, por sua vez, pode ser falta de informação, de diálogo de garantias de que não se vai ser expulso de casa por simplesmente carregar um punhado de camisinhas na mochila. Sem dúvida, foi uma aula produtiva, na qual a confiança de que se pode falar de tudo – desde que as posturas sejam sempre as mais respeitosas – só cresceu.

Viver de bem com o próprio corpo é fundamental. Não temer o corpo alheio, idem. Cuidar-se para seu próprio bem e  para o bem de quem a gente ama ou com quem a gente se diverte – tanto faz – dispensa qualquer justificativa. É simplesmente a coisa a se fazer, e ponto. Faça o mesmo sem medo de ser feliz!

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E não deixem de aproveitar todos os dias dessa semana para crescer mais um pouco em conhecimento. Que esses caras te inspirem. 😉

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Quando é que você vai ser feliz?

Por Sergio Viula

garoto pensando

Muita gente vive o tempo todo no mundo das hipóteses. São pessoas que dizem: “Se eu tivesse dinheiro, seria feliz”; “se eu tivesse um grande amor, seria feliz”; “se eu morasse em outro país, seria feliz”; “se eu tivesse saúde, seria feliz”; “se meus pais não fossem assim ou assado, eu seria feliz”; e por aí vai.

Porém, todas essas coisas não passam de desculpas que as pessoas dão a si mesmas e aos outros para tentarem justificar suas frustrações e a falta de vontade de transformá-las em força para realizarem as mudanças que poderiam viabilizar sua felicidade, tornando tudo mais leve e mais gostoso.

Em momentos como o que vivemos atualmente no Brasil, os sentimentos de frustração aumentam, seja por uma razão ou por outra. Uns ficam frustrados em terem governos que não desejam. Outros, em pensar que esses governos poderão ter fim antes do que esperavam. Essas frustrações vampirizam parte da energia que poderia ser investida na construção das condições necessárias à auto-realização. Como dizia Espinosa, as paixões tristes nos enfraquecem.

Considerem cuidadosamente o que digo, meus amigos e minhas amigas: há 500 anos, essa quimera chamada Brasil faz parte do mapa do mundo. Já foi colônia, vice-reino, império, república (desde 1889 até hoje), mas nunca foi o que a maioria esmagadora dos brasileiros esperava de um país que tem a ousadia de dizer-se “mãe gentil, pátria amada, Brasil”.

Como república, já vivemos em ditadura, abertura e democracia, tanto com voto indireto como com voto direto. Em 1988, nossa assembleia constituinte produziu umas Constituições mais avançadas do mundo. E ainda assim, o Brasil continua tratando os filhos desse solo de modo nada gentil. A podridão está em todas as esferas de poder, passando por todos os partidos (ou, para ser cauteloso nas generalizações: quase todos) e não há muito o que possamos fazer.

Dizem que não sabemos votar. Mas como votar bem quando as chapas são decididas pelos partidos? Os candidatos, dentre os quais somos obrigados a escolher um governante ou legislador, são praticamente da mesma fabricação. Seria mais fácil escolher um anjo do bem entre os seguintes candidatos: o Demônio, o Diabo, Satanás, o Capiroto, o Sete Pernas, o Unha Fendida, o Tinhoso. Alguém poderia dizer: “Mas todos esses nomes não se referem ao mesmo indivíduo?” Eu responderia: Sim, mas imaginemos que sejam candidatos diferentes com a mesma essência. Essa é uma metáfora do que somos obrigados a encarar no processo eleitoral brasileiro, na maioria dos casos. Então, como dizer que o povo não sabe votar? Talvez não saiba, mas nunca teremos certeza enquanto o quadro eleitoral for esse.

Na verdade, os palácios de onde se exerce o poder executivo, seja em nível federal, estadual ou municipal, tornaram-se escritórios para despachar de acordo com os interesses de seus verdadeiros patrões: as grandes empresas, entre elas as igrejas, é claro, mas não exclusivamente e nem principalmente. Empresas no campo do petróleo, da engenharia, do câmbio, da farmácia, dos transportes, entre outras. Estas são as mãos que controlam as marionetes – os políticos. E isso pode ir do presidente aos vereadores, que comportam-se como vaquinhas de presépio diante dos interesses dessas empresas, ganhando muito dinheiro para isso, e como testas-de-ferro quando a casa cai. Isso tem sido historicamente assim.

A diferença é que agora, vemos os ratos comendo-se uns aos outros, encurralados pela justiça. Delatam-se uns aos outros na esperança de escaparem mais cedo da cadeia ou não serem lançados nela. Mas aqui também existem muitos riscos, pois a delação sem prova material pode ser mera calúnia, e esta não deveria ser admitida no processo jurídico, uma vez que ela mesma também é crime.

Ao cultivarem esse clima de desalento geral, setores interessados em sabotar o projeto democrático, o sonho republicano, bem como qualquer possibilidade de se promover igualdade e bem-estar social, a partir do crescimento econômico e do fortalecimento das instituições republicanas e democráticas, podem acabar tirando vantagem desse quadro, facilitando o acesso de fascistas ao poder estatal. Isso seria uma catástrofe ainda maior, pois aí teriam eles poder para executarem suas agendas sanguinárias.

O ponto central é: precisamos tomar cuidado com essas manobras sem deixarmos de investigar aquelas outras coisas, sejam quem forem os possíveis envolvidos: Dilma, Lula, Aécio, Cunha, Calheiros, etc.

Enquanto vemos o circo – em seu pior sentido – desfilando verdadeiros shows de horror na mídia, governadores como Alckmin ainda não explicaram a máfia das merendas. Pezão ainda não pagou os atrasados do funcionalismo. Pior ainda, esse senhor que (des)governa o Rio de Janeiro está endividando o estado através de empréstimos milionários. Há que se ver que comissões podem estar sendo repassadas para cada empréstimo realizado. Lembram-se que foram fechados os buracos por onde os ratos eram alimentados com financiamento de campanhas por empresas privadas? As ratazanas cavarão outros. Então, duvido muito que esse “endividamento” seja algo fortuito.

Por essas e outras, o tema dessa coluna é: Quando você vai ser feliz? Porque se você está pensando em ser feliz só no dia em que o Brasil se livrar dos roedores que devoram suas riquezas, você provavelmente vai morrer sem saber o que é felicidade. É preciso que junto com a luta por justiça e igualdade, aprendamos a construir nossa própria felicidade sem dependermos diretamente de quem ou do que quer que seja. Não importa se é uma condição específica, ou uma pessoa da família a quem você se submete (refletida ou irrefletidamente), ou mesmo um governante que você considera um crápula, mas que terá que suportar até o final de seu mandato – você nunca será plenamente feliz se condicionar sua realização pessoal e suas alegrias mais profundas a essas pessoas ou circunstâncias. É preciso cultivar uma autonomia que não despreza o outro, mas que também não o supervaloriza, seja para o bem ou para o mal.

O Brasil tem mais de 500 anos. Você provavelmente não viver nem 100. Alguns não chegarão sequer aos 30 ou 40. Como é que você pode adiar sua felicidade? Mortais não têm tempo a perder. Quanto ainda você vai esperar para ir atrás do que deseja? Mas lembre-se: dificilmente, a felicidade pode ser construída por meios injustos. Não se engane.

Ressalto mais uma vez: não adianta dizer que os outros impedem sua felicidade. Se isso acontece, é porque você permite que eles o façam. Então, no final das contas, é você mesmo que se sabota. Livre-se desse padrão de pensamento-comportamento e construa sua própria felicidade. Cabe a você descobrir como realizar a sua. Não existem cartilhas. E por que não começar agora mesmo? Tudo o que temos é esse átimo. Aproveite-o ao máximo.

 

O tempo e o senso comum

Por Sergio Viula

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Depois de trocar umas ideias com um amigo a respeito do tempo e sua suposta ação sobre sobre nós, achei interessante escrever a coluna de hoje com essa temática. Não pretendo dizer o que é o tempo. Filósofos e cientistas já tentaram fazê-lo e não foram bem-sucedidos. O que pretendo fazer é abordar alguns pensamentos do senso comum a respeito do tempo e ‘seu poder’.

O amor vem com o tempo

Quando o amor acontece, ele não pergunta que dia é hoje e nem que horas são. Ele simplesmente acontece e não oferece a menor explicação para isso. A ideia de que a intimidade que alimenta o amor precisa de um período relativamente definido para ser considerada suficiente não corresponde ao que testemunhamos nessa rede de relações a que chamamos de realidade. Pessoas juntas há anos podem ser duas ilustres desconhecidas em muitos sentidos, enquanto outras se deleitam em desfiar seus mais profundos sentimentos e pensamentos, suas mais preciosas memórias, ou seus mais queridos planos para o futuro em tempo recorde.

Não é improvável que você possa trocar mais intimidade com seu amado (ou sua amada) em poucos dias do que outras pessoas em meses e até anos. Talvez, você já tenha vivido em relacionamentos que também não desfrutaram da intimidade e confiança que você desfruta atualmente. Não é o tempo que determinará se haverá intimidade ou não. São as pessoas envolvidas que decidem se constroem simulacros de si mesmos para tentar agradar ao outro com uma realidade artificial ou se mostram suas verdadeiras cores (lembra da música True Colors?).

O que quero dizer é que se duas pessoas forem honestas entre si, elas provavelmente construirão um relacionamento satisfatório, independentemente do tempo que já conviveram. Diversas variáveis podem influenciar ou determinar o curso dessa relação, mas o tempo provavelmente não é uma delas.

É claro que através da convivência, o amor poderá se fortalecer e aprofundar, mas isso não depende de calendários – essa tentativa nossa de fragmentar e controlar uma abstração. O que favorecerá o aumento ou a redução da intimidade é a relação. É o modo como interagem quando estão próximos ou distantes. O tempo não é pai nem mãe de coisa alguma, muito menos do amor. Não é o tempo em si – se é que existe um ‘em si’ para o tempo – que determinará o sucesso ou o fracasso do que quer que seja.

O tempo corrói tudo

O poder de corrosão, desgaste, erosão, envelhecimento não é uma propriedade ou ação do tempo. Isso é outra ilusão do senso comum. São os corpos que agem uns sobre os outros, combinando-se ou não, que se fortalecem ou enfraquecem, modificando ou reforçando suas características a partir dessas relações.Em outras palavras, o tempo não tem o poder de corroer coisa alguma se as relações entre os corpos não desencadearem corrosão. E o contrário também pode ser dito: o tempo não pode impedir que a corrosão resultante dessas relações ocorra.

Por exemplo, o desgaste da montanha não é provocado pela “ação” do tempo. O tempo não age. Quem age é a chuva e o vento no sentido de interagir com a matéria da montanha e produzir o que chamamos de erosão. Contudo, a montanha também ‘obriga’ o vento a reduzir sua velocidade ou a mudar de curso pelo atrito que ele sofre ao passar por ela. Portanto, os dois se alteram de alguma forma. Não fossem essas e outras relações extrínsecas e intrínsecas às montanhas, elas  estariam ali eternamente sem sofrerem mudanças a despeito de quanto tempo tivesse ‘passado’. Interessante o que acabo de dizer, não? Dizemos que o tempo passa, como se ele fosse um rio que arrastasse tudo, mas o que parece ser a passagem do tempo é apenas nossa percepção das alterações que ocorrem em todos os elementos do cenário que nos cerca e em nós mesmos – alterações essas causadas pelas relações que se estabelecem continuamente em todos os níveis da existência e funcionamento dos corpos, sejam eles vivos ou não-vivos. Uma rede capilar de relações de poder entre os mais diversos elementos e fatores da natureza.

O tempo nos envelhece

Não mesmo. O envelhecimento é resultado das modificações que se dão a partir das interações entre os diversos elementos que compõem o nosso corpo, seja em nível micro ou macro, bem como as relações que ele mantém com outros elementos: luz, calor, frio, alimento, sono, micro-organismos, outros seres humanos, sedentarismo, tipo de trabalho realizado ao longo da vida, etc. É interessante notar que o envelhecimento não se dá igualmente para todos. Há pessoas mais velhas (que viveram mais tempo) que parecem mais novas do que pessoas bem mais jovens (que viveram menos tempo). O tempo não está no comando de nada aqui. Essas diferenças dizem respeito a cada corpo em sua constituição e funcionamento, bem como às relações que ele estabeleceu com outros corpos ao longo da vida.

O tempo cura tudo

O tempo não cura nada. Em se tratando de patologias, o que nos cura são os remédios, que ao entrarem em contato com o nosso organismo, comportam-se de maneira a restabelecer sua ordem anterior. Às vezes, o próprio corpo restabelece o equilíbrio por mecanismos próprios.

E quando a dor é emocional, como uma decepção, por exemplo, superamos o sofrimento quando chegamos à conclusão de que não vale mais a pena gastar energia psíquica com uma ofensa que nem deveria ser mais atualizada. O ressentimento atualiza a ofensa e sua dor, mas ele é obra de nosso próprio cérebro. Não podemos decidir como os outros nos tratarão, mas podemos decidir o que faremos daquilo que eles fazem ou fizeram conosco. E, de novo, não é o tempo que está agindo, mas nossa consciência, essa projeção do cérebro, que, por sua vez, adora trabalhar no “modo economia”, eliminando o desconforto e o desperdício de energia para poder se dedicar ao que realmente interessa: à manutenção e fortalecimento do corpo.

Mas a física não lida com noções de tempo?

Sim, mas isso pode ser considerado uma abstração. E o mais interessante é que foi um dos maiores físicos de todos os tempos que pensou a Teoria da Relatividade. Ela basicamente afirma que tempo é relativo, ou seja, não há universalismos que deem conta do tempo.

O tempo não é o mesmo em todos os lugares desse vasto universo. Se pudéssemos viajar por milhares de anos-luz, experimentaríamos o que chamamos de tempo de modos muito inusitados. Quando voltássemos, descobriríamos que o tempo da Terra não “passou” na mesma velocidade que o tempo dos planetas onde estivemos ao longo da jornada. E isso nos leva a outra questão: O tempo não é uma linha reta, sequenciada, como gostamos de pensar.A linearidade do tempo é mais uma ilusão dos sentidos.

Então, o tempo não tem a menor importância?

Apesar de ser relativo, não podemos dizer que o tempo não tenha importância. Vale considerar o pensamento de Kant sobre o tempo, que o via como uma intuição que, juntamente com a noção de espaço,  viabilizaria a percepção e o processamento dos dados que nos chegam pelos cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato.

Conclusão

O tempo não é um elemento mágico e nem exerce qualquer poder sobre os corpos. Não é um ente entre outros. Na verdade, são os corpos, vivos ou não, que interagem, ganhando ou perdendo força, podendo, inclusive, sofrer e provocar modificações, até mesmo ao ponto de não serem mais reconhecidos em sua constituição inicial. E sendo mortais como somos, não me parece uma boa ideia desperdiçarmos oportunidades de encontros que possam aumentar nossa potência. Em outras palavras, quero estar em contato com aquilo e aqueles com quem possamos estabelecer relações que me fortaleçam e expandam minha potência (alguns chamam de poder) em todos os sentidos, numa perspectiva ética da felicidade. O contrário disso pode ser danoso e até fatal.

Coisas que eu ouço…

Por Sergio Viula

 

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Charada – Jim Carey no filme do Batman

 

Viver em sociedade é sempre um desafio. Você ouve de tudo. Claro que os outros podem dizer a mesma coisa a seu respeito. Mas nem tudo o que a gente ouve é ruim. Tem muita coisa divertida, interessante, inteligente. Por isso, esse domingo quero colocar algumas delas aqui na coluna.

PRIMEIRA PERGUNTA

Um amigo por causa do meu atual namoro: Sergio, você só gosta de namorar gente mais nova?

Eu: Não, eu gosto de namorar gente, desde que seja do sexo masculino. Já fui casado com mulher e antes dela tive uma outra namorada, mas gosto de homem. Já namorei caras mais velhos, um dos mais novos tinha sete anos a mais que eu e o mais velho tinha quase 20 anos a mais. E estou falando da minha fase adulta. Hoje, meu namorado é bem mais jovem que eu, mas poderia ser da mesma idade ou mais velho, como outros que eu já tive. Por que não? De 18 a 80, tudo é possível! ^^ Não é uma questão de idade, mas de química, cabeça, honestidade, etc. E quando vai além de uma boa transa e vira amor de fato, não tem explicação: a pessoa torna-se indispensável. É o que estou sentindo agora em reciprocidade.

SEGUNDA PERGUNTA

Uma aluna. Ela olha meio surpresa para a minha mão, depois de um tempão já convivendo comigo, e pergunta: Professor, você não era casado?

Eu, rindo: Sim, era. Mas me divorciei já te tempo (quase dois anos já, minha gente!). Não fica triste, o feriado de carnaval me proporcionou um lindo encontro com o amor e parece que vai longe (a turma toda riu, inclusive ela).

TERCEIRA PERGUNTA

(na verdade, essa não foi uma pergunta, mas uma interação entre duas pessoas)

Uma mulher vinha conversando com um marinheiro, voltando de BH para o Rio, e começou a criticar jovens gays e lésbicas. O papo nem era esse de começo. Era só sobre a pegação do marinheiro durante o carnaval. A mulher  mesmo parecia doidinha para esfregar a proa dela no mastro dele. Mas o que interessa é o que respondeu o marinheiro: Eu já fui do tipo que não podia ver casalzinho gay que queria dar porrada e tudo. Amadureci com a vida. Hoje, eu penso que cada um pode fazer de si mesmo o que quiser. Isso é da conta de cada um e não dos outros. Além disso, se o meu vizinho não gosta de mulher, melhor para mim.

Eu, em pensamento: Chupa, mocreia homofóbica! Que bom que tem gente que ainda consegue mudar para melhor!!! Detalhe, tinha um casal de rapazes num banco mais adiante dormindo abraçadinhos. Lindos!

QUARTA PERGUNTA

Um amigo via Facebook: Sergio, você poderia me dizer como abordar a questão do livre arbítrio?

Eu: A pergunta é boa. Primeiro, eu diria que não acreditar em livre arbítrio não significa acreditar que nossos atos estão todos determinados a serem uma só coisa, isto é, sem a possibilidade de fazermos escolhas. Claro que as fazemos, mas dentro de um escopo de possibilidades. Para dizermos que nossos arbítrio é totalmente livre precisaríamos ser onipotentes. Por isso, se alguém pode ser perfeitamente responsabilizado pelo mal que há no mundo, esse é o deus dos teístas. Ele, sim, detentor de todo o poder e de todo saber, poderia ter feito tudo de outra maneira, quer dizer, de modo que o mal nunca se formasse ou que nunca se manifestasse (claro que estou falando sobre o que pensam os teístas, porque para mim isso não passa de imaginação). Se não o fez, ele não é livre de verdade. E se desejava que tudo fosse assim realmente, ele não é bom. Quanto a nós, temos contingências que não nos permitem fazer tudo e qualquer coisa, mas dentro do escopo de nossas possibilidades, podemos fazer coisas diferentes. Por exemplo, não podemos escolher não escolher, porque isso também já é uma escolha. Mas podemos fazer escolhas diferentes dentro de um número de possibilidades. A título de exemplificação, posso dizer que se ouço um insulto, posso devolvê-lo, posso bater no ofensor, posso matar o ofensor, posso ignorar e seguir adiante, posso processar o ofensor, ou posso até abençoar o ofensor (Jesus disse para fazermos essa última… Kkkk). Todas essas são possibilidades dentre as quais eu posso escolher. Por isso, posso ser considerado responsável pelo que fizer em função da ofensa e do ofensor em questão. Claro que fatores como temperamento, educação, força, o contexto  vão influenciar minha decisão sobre que ação tomar, mas não vão determiná-la irremediavelmente numa direção. Pessoas pacatas matam e pessoas coléricas perdoam. Brigas quando os dois estão a sós podem não terminar em violência física, enquanto brigas à luz dia e no meio de uma multidão podem virar caso de polícia. Fazemos escolhas, mas nunca livres de contingências intrínsecas e extrínsecas a nós mesmos. Isso sem contar os casos que envolvem doença mental, entorpecimento por drogas, etc. A própria justiça considera atenuantes em certas circunstâncias, porque determinados fatores podem alterar o juízo do acusado, interferindo no seu arbítrio, que se fosse realmente livre não seria passível de coerção por fator algum.

QUINTA PERGUNTA

(em função de uma matéria que saiu o The Guardian)

Um amigo: Sergio, você ganha dinheiro com essas entrevistas para a mídia?

Eu: Não. Geralmente, entrevistadores não pagam cachê a seus entrevistados. A motivação para falar  o que falo e, de certa forma, me expor como eu faço é uma só: promover avanços no pensamento dos que forem alcançados por aqueles conteúdos, especialmente no que diz respeito à diversidade sexual e procurar construir um sociedade mais inclusiva, porque plural ela já é, só que ainda está longe de ser igualitária. Já foi pior, mas ainda falta muito, especialmente no que diz respeito às pessoas transexuais.

A matéria do The Guardian pode ser encontrada aqui, inclusive com um link para  resumo em português: http://www.foradoarmario.net/2016/02/the-guardian-faz-materia-sobre-cura-gay.html

Fim das perguntas por hoje, mas quem quiser pode enviar perguntas para futuras postagens por inbox: https://www.facebook.com/sergio.viula. É possível que numa outra postagem eu traga outras.

Desejo um ótimo final de domingo para todos e todas!

 

 

Vida louca, vida breve

Por Sergio Viula

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Antes de tudo, quero pedir desculpas por não ter publicado nos últimos dois domingos, mas muita coisa aconteceu nessas duas semanas e não dei conta de tudo. Agradeço aos que sentiram falta e procuraram saber se estava tudo bem.  🙂

Fora de controle

A maioria de nós adora a sensação de estar no controle das coisas, mas, no fundo, isso não passa de mera ilusão. E quando não acreditamos que temos o domínio, tendemos a atribuir a condução de nossas vidas a deuses ou outros seres supostamente superiores. Esse é o teor da frase de para-choque de caminhão que diz: “eu dirijo, mas Deus me guia.” O fato é que nem nós nem deus algum está no controle do que quer que seja. A vida humana é breve, cheia de altos e baixos, cercada de riscos, e sempre passível de ser encerrada sem qualquer aviso prévio.

Isso, porém, não deve ser razão para desespero ou desmotivação. Pelo contrário, se podemos ter nossas vidas interrompidas a qualquer momento, eis aí mais um motivo para vivermos ainda mais intensamente cada momento disponível. E isso sem perder a tranquilidade de quem sabe que quando não há solução para uma ameaça à existência, não haverá oração ou  pensamento positivo que nos valha.

Felizmente, graças ao desenvolvimento do conhecimento científico, já fomos capazes de coisas extraordinárias, ainda que nem sempre nos demos conta de sua grandeza. A prevenção ou cura de uma (nada) simples diarreia em crianças através do soro caseiro, já salvou bilhões da morte e é um bom exemplo disso. Existem outros muito mais complexos, mas esse mostra que as soluções para grandes problemas podem ser simples, mas nem sempre fáceis de serem encontradas. E mesmo com toda nossa ciência e tecnologia, um dia a morte chegará para nós também, com ou sem aviso prévio. E é aí que me lembro de uma canção de Cazuza: “Vida louca, vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve…”

No final, ele diz: “Tô cansado de tanta babaquice, tanta caretice, dessa eterna falta do que falar. Vida louca vida, vida breve,  já que eu não posso te levar, quero que você me leve..”

E é exatamente nessa “vibe” que me encontro. Na verdade, já faz algum tempo que venho vivendo assim. Viver o que há para ser vivido sem prejudicar ninguém, mas sem deixar que outros me digam como devo viver. Esses dias, disse a um amigo que decidi deixar de dançar a música alheia e tocar a minha própria. E é bem isso.

Dois pesos – a babaquice de muitos humanos

Falar de Cazuza e dessa música é lembrar de seu drama com o vírus da imunodeficiência adquirida. E quando o vírus HIV começou a infectar pessoas nos EUA, muita gente pensou e disse as maiores asneiras. De “castigo de Deus” e “praga gay” a “sinal do fim do mundo”, a estupidez típica dos desesperados ou maliciosos reinava, inclusive entre aqueles que deviam primar pela exatidão dos dados antes de espalhar superstições e boatos que imediatamente tornariam as vidas de muitos indivíduos infectados com o vírus uma experiência insuportável no momento em que mais precisavam de apoio.

Na verdade, tratava-se apenas de um microrganismo sem qualquer ideologia embutida em seu DNA, mas logo se formaram ao redor dele os mais estapafúrdios discursos. Assim como o HIV, o Ebola também fez seu estrago fatal em muitos casos, mas foi controlado rapidamente. Agora o caos está sendo promovido pelo vírus Zika, que desafia os cientistas e apavora as grávidas por estar aparentemente associado à microcefalia em fetos. No entanto, não houve uma só manchete que atribuísse os males causados pelo vírus Zika a algum castigo divino contra a “obstinação humana em procriar”, apesar da superpopulação de 9 bilhões de “parasitas humanos” que causam todo tipo de malefícios ao planeta. Pelo contrário, Deus foi convenientemente deixado fora disso, apesar da desgraça que vem se abatendo sobre esses pobres fetos e essas gestantes. Mas, eu acho que é uma boa ideia colocá-lo em foco, porque a coisa fica bem feia para o lado de Deus quando lemos que Jesus teria dito: “Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de vosso Pai.” (Mateus 10:29) Um asse era uma moeda romana de bronze de pouco valor. Então, a lógica é que se dois passarinhos valem tão pouco e Deus supostamente cuida deles, ele certamente cuidará do ser humano com muito mais diligência.

Ora, se esse é o caso, por que a microcefalia em fetos causada por um estúpido vírus, afinal de contas? Será que Deus quer que essas crianças fiquem prejudicadas pelo resto de suas vidas? Alguns dirão: “De modo algum!” Então, porque ele não impede que isso aconteça? Por que ele – todo-poderoso como dizem que é – não impede que o vírus continue existindo ou simplesmente demita o mosquito da função de vetor? Vocês já sabem a resposta, mesmo que se recusem a dizê-la: Porque não há um deus no controle de nada disso.

Ah, sim, só para garantir que ninguém deixe de entender meu ponto aqui, quero deixar claro algumas coias:

1. HIV, Ebola e Zika vêm todos do mesmo lugar: da floresta.

2. Seres ditos sobrenaturais não provocam, não impedem e não curam doenças desencadeadas por esses vírus. Nossa esperança está no trabalho dos cientistas, assim como se deu com a prevenção ou cura de várias doenças: a paralisia infantil, as hepatites A e B, o sarampo, e assim por diante.

3. Esses e outros microrganismos que nos causam danos não servem a qualquer propósito mais elevado, assim como nós não servimos a nenhum propósito mais elevado para a vida das vacas quando comemos um bife.

Olhando para tudo isso, é inacreditável que muita gente ainda renuncie a vida em troca de uma recompensa que nunca virá, ou porque tem medo de pegar alguma doença, ou porque acredita que pode sofrer algum dano. Ora, renunciar a vida é o dano. Quando você é mortal, descartar ao que você não tem condições de recuperar é uma tremenda estupidez. O melhor nome que me vem à mente para isso é  DESPERDÍCIO. Eu poderia dar outros bem mais agressivos, mas não temos tempo para isso, não é verdade? 😉

Então, se o grande barato da vida é viver, o que você ainda está fazendo aí, criança? Vá viver, se aventurar, inventar, criar, curtir o que você gosta de fazer, porque um dos meus mais queridos poetas-cantores já disse que a vida é louca, que a vida é breve. 😉  Mas, isso não quer dizer que você não pode ou não não deve tomar  as precauções possíveis. O que isso quer dizer é que de um jeito ou de outro, você vai parar um dia. Então, viva! E para sua inspiração ou só para matar a saudade, encerro esse post com Cazuza.

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

Por Sergio Viula

satanás

Recorte do Saltério de Winchester, uma pintura da Idade Média

Compartilho hoje um excelente documentário da BBC sobre as representações do Diabo, introduzidas e modificadas ao longo do tempo no imaginário popular por artistas que compuseram alguns dos mais incríveis mosaicos, pinturas e textos na Europa.

O Diabo, como o pensam hoje as massas, não foi sempre imaginado do mesmo jeito. E mesmo nas escrituras cristãs, não existe uma descrição clara de sua criação e queda. O que o cristão mediano supõe ser um relato de sua criação e queda são originalmente passagens que falam da Babilônia e do rei de Tiro (respectivamente, Isaías 14:11-23 e Ezequiel 28:11-19). Portanto, para início de conversa, não existe qualquer passagem bíblica clara e exclusivamente dedicada a descrever a origem e a suposta queda de satanás. apesar de existirem citações sobre satanás, diabo e demônios, como veremos adiante.

Ao que parece, a igreja cristã precisava desesperadamente de um bode expiatório para explicar a origem do mal, e satanás era a opção mais conveniente. Dizer que Deus criou o mal seria colocar em dúvida a qualidade de seu caráter. Isso, porém, não resolve o problema, porque se Deus é onisciente, ele sabia o que aconteceria se criasse o tal anjo. E se Deus é onipotente (o que inclui dizer que é livre para fazer o que deseja), poderia nem ter criado esse querubim que viria a ser o diabo, para início de conversa.

De qualquer modo, a caracterização de Satanás como um poderoso rival de Deus servia (e serve) bem ao propósito de controlar as massas através do terror. À figura do diabo, está associada a ideia de inferno como um lugar ou estado de sofrimento eterno, bem como a ideia de pecado, seja como um ato de rebelião contra Deus ou como um estado de corrupção e decadência. A tríade diabo-pecado-inferno rendeu extraordinariamente mais poder, dinheiro e grandeza ao clero católico e protestante, do que a ideia de um Jesus meigo, bondoso e acolhedor.

Só para se ter uma ideia de como a centralidade de Satanás no discurso de pastores e padres hoje passa longe do lugar que ele ocupava nas escrituras cristãs, vale a pena tomarmos alguns números relacionados aos termos que se referem ao Diabo, bem como aos termos que se referem a Jeová, Jesus ou ao Espírito Santo. O termo “Deus” foi deixado de lado por poder se referir tanto ao Deus dos judeus e dos cristãos como aos Deuses dos gentios e dos pagãos. O nome de Jeová, porém, foi usado nessa pesquisa, porque era o mais usado para se referir a Deus no Velho Testamento.A palavra Senhor também foi incluída nessa busca, porque ela era usada para se referir a Deus judaico-cristão, mas não aos Deuses gentílicos ou pagãos pelos escritores da Bíblia.  A busca foi feita através do site Bíblia Online, que utiliza a tradução de João Ferreira de Almeida – a preferida pelos protestantes no Brasil. E isso foi o que encontrei:

A palavra diabo aparece 20 vezes no Velho Testamento e 135 no Novo Testamento (total 155).

A palavra satanás aparece 15 vezes no Velho Testamento e 73 no Novo Testamento (total 88).

A palavra demônio aparece 04 vezes no Velho Testamento e 104 no Novo Testamento (total: 108).

O termo “espírito imundo” se referindo aos demônios aparece somente no Novo Testamento – 25 vezes (total: 25).

O termo “espírito maligno” (ou espírito mau) aparece 09 vezes no  Velho Testamento e 08 vezes no Novo Testamento (total: 17).

O nome de Jeová é mencionado 5.817 vezes no Velho Testamento e nenhuma no Novo Testamento (Total 5.817).

O termo Senhor, atribuído a Deus, aparece 6.932 vezes no Velho Testamento e 954 vezes no Novo Testamento, atribuído a Deus, a Jesus ou ao Espírito Santo (total: 7.886)

O nome de Jesus é mencionado 1438 vezes no Novo Testamento (total: 1438).

A palavra Cristo é mencionada 570 vezes no Novo Testamento (total: 570).

O termo Espírito Santo aparece 03 vezes no Velho Testamento e 98 vezes no Novo Testamento (total: 101).

O termo Espírito de Deus aparece 22 vezes no Velho Testamento e 20 vezes no Novo Testamento (total: 42).

MORAL DA HISTÓRIA:

  1. Os temos que se referem ao “inimigo” de Deus totalizam 393 ocorrências;
  2. As palavras que se referem a Jeová, a Jesus  ou ao Espírito Santo totalizam 15.854 ocorrências.

Isto quer dizer que os termos referentes a Jeová, Jesus e o Espírito Santo  ocorrem 40 vezes mais frequentemente do que termos referentes a Satanás e aos demônios. No entanto, a igrejas têm uma fascinação pelo diabo que parece torná-lo uma figura muito mais presente em seus cultos, pregações, artigos e representações do que jamais imaginaram os autores bíblicos nos 66 livros que compõem a Bíblia protestante ou nos 73 livros que figuram na Bíblia católica. Ah, sim, porque os cristãos não têm consenso sequer sobre quais livros devem compor a Bíblia!

E por que será que isso acontece? Por que Satanás é tão popular na boca desses pregadores? Duas hipóteses são as seguintes:

  1. Porque o Diabo na boca dos pastores e padres é reconhecidamente um excelente instrumento de controle do povo pelo medo – o que significa governar seus corpos, suas carteiras, seus votos e seus pensamentos. Os crédulos serão contra tudo aquilo que o pastor e o padre lhes dizem ser do Diabo e serão a favor de tudo daquilo que o pastor diz ser de Deus.
  2. E também porque quanto pior for Satanás na pregação desses líderes religiosos, mais indispensáveis serão eles. Os “ungidos” serão vistos como verdadeiros heróis na fictícia luta contra o diabo. Mas nada disso sem um custo ($$$) elevadíssimo, “absolutamente justificado” pela “nobreza” da função que exercem.

E será que o diabo existe mesmo? Sim, ele existe tanto quanto a Cuca e o Saci Pererê. Quero dizer que o Diabo judaico-cristão existe de modo semelhante ao das míticas figuras do folclore brasileiro, as quais também infligiam medo sobre as mentes ingênuas dos antigos moradores do interior do nosso país. O Diabo e seus demônios – figuras míticas do judaísmo e do cristianismo – também infligem pavor sobre as mentes dos crédulos, mas são tão imaginários quanto os personagens do nosso folclore.

Mas, sabe o que é pior? Os crédulos dirão que iniciativas como a de escrever esse texto são obra do Capiroto com o objetivo de enganar os néscios. Dirão também que – se possível fosse – enganariam até os escolhidos. É fácil perceber onde isso vai dar. Para provar que é um escolhido, o ‘cabra’ tem que rejeitar qualquer questionamento sobre a validade de suas crenças. Caso contrário, ele colaborará com Satanás. Assim, está garantido o ofício e os ganhos dos que se alimentam das tesourarias desse desperdício de espaço e de tempo a que chamamos igreja, exceto por aquelas que são verdadeiras obras de arte e que poderiam ser transformadas em peças de museu muito bem preservadas e sem a menor relevância, senão a de preservar uma parte de nossa história e da arte produzida nesse período. Mas, isso só seria possível se as pessoas fossem mais céticas do que costumam ser. O problema é que crer parece mais fácil do que pensar. Deslumbrar-se é mais confortável do que analisar criticamente o que se vê.  

Mas o que é que vemos, senão as obras dos próprios homens, já que Deus mesmo nunca deu as caras? Ah, mas os teólogos terão mil motivos para esse ocultamento… Sim, os teólogos, essas estranhas criaturas que pensam o impensável, dizem o indizível e descrevem o invisível. Não são por isso mesmo ainda mais extraordinárias? Chegam a ser mais incríveis do que o Deus a quem supõem conhecer. Mas, eu me pergunto quantos deles creem realmente em tudo o que dizem.  Ninguém sabe… NINGUÉM mesmo. 

Documentário completo BBC
Como o Diabo Tem Seus Chifres: Um Conto Diabólico (Legendado HD Completo)

Sinopse: O Historiador e crítico de arte, Alastair Sooke, revela como a imagem do Diabo foi criada por artistas da Idade Média. Ele explora a forma como, nos séculos entre o nascimento de Cristo e o Renascimento, as interpretações visuais do Diabo evoluiu, com a personificação do mal que aparecem em diferentes formas – tentador, tirano, e anjo rebelde. Alastair mostra como artistas usaram a imaginação para dar forma a Satanás, cuja descrição está ausente da Bíblia.

 

Explorando um pouco da arte mais notável na Europa, ele conta as histórias por trás dessa arte e examina os textos religiosos e pensamento que inspirou e influenciou os artistas. O resultado é um retrato rico e único de como a arte e a religião se uniram para definir as imagens do bem e do mal.

Existe ateu na hora da morte?

 

não há ateu num avião caindo

Parece ser ‘patrimônio’ do senso comum a ideia de que todo ateu, ao primeiro sinal de grave crise, tal como doença ou morte, passa a acreditar, quase que imediatamente, na existência de algo para além da vida. E para ‘provar’ isso, os que têm alguma crença, especialmente aqueles que precisam desesperadamente de confirmação para suas ideias, acreditam que a suposta conversão de um ateu (muitas vezes mera especulação de crentes), seja a demonstração última de que crer é a coisa mais racional a se fazer, mesmo que a existência de qualquer realidade metafísica jamais tenha sido mínima e satisfatoriamente demonstrada. Tentativas foram feitas, mas todas elas fracassaram. Não  me surpreendo que existam ateus, mas que ainda existam crentes. Faço questão de dizer que isso não tem nada a ver com sinceridade ou falsidade na prática da religião. Nem a safadeza de pastores ladrões e estupradores nem a admirável piedade de Desmond Tutu, por exemplo, fazem qualquer diferença para o argumento de que crenças religiosas são pura imaginação carregada de fortes emoções. Resumindo: o mais sincero crente não torna nenhuma de suas crenças mais verdadeiras.

E por que será que temos a impressão de que ateus geralmente se convertem no leito da doença ou da morte?

Uma das razões é que a mídia geralmente destaca qualquer sinal de pietismo religioso, mas apaga, ignora, silencia o discurso ateu e a morte dos inconversos. Não se precisa de muito esforço para perceber que a imprensa raramente dá espaço ao discurso ateu, mas está repleta de discursos religiosos, seja de pregadores profissionais ou de artistas e pessoas comuns.

Claro que aqueles que nunca acreditaram no sobrenatural podem se render às pressões sociais, muitas vezes exercidas em momentos de maior vulnerabilidade emocional e revestidas de palavras solidárias. Mas, eu poderia apostar que quando ateus morrem rejeitando qualquer sacramento, oração ou apelo à conversão, os religiosos que testemunharam seu fim não divulgam isso, porque sentem-se derrotados e/ou desesperados só em pensar que seu parente ou amigo pode ter ido para o inferno por causa disso. Isso quando não dizem que ele se arrependeu e creu, ainda que não haja qualquer evidência disso, como nos casos de morte depois de longos períodos em estado vegetativo. Como o falecido ateu não pode voltar para dizer o que realmente aconteceu, prevalece o silenciamento de sua descrença ou a lenda de sua conversão.

Pessoalmente, espero que no momento da minha morte (se não for resultado de um acidente que me tome de supetão), não haja um crente de qualquer matiz (católico, evangélico, espírita, etc.) pentelhando meu juízo. Espero poder simplesmente desaparecer graciosamente. E caso eu seja tomado por um acidente, catástrofe natural ou por uma fulminante parada cardíaca, sejam dignos e não inventem lendas urbanas de caráter supersticioso a meu respeito. Aceitem que dói menos: o ateu morreu. Ponto final.

Ponto final para mim, mas não para os elementos que compõem meu corpo, assim como acontece a qualquer outro organismo no planeta.

Meu corpo se decomporá ao nível das partículas mais elementares e provavelmente será reaproveitado pela natureza para a formação de novos de organismos da mesma maneira que ele mesmo se formou e se desenvolveu a partir dos elementos que já foram de outros corpos, vivos ou não vivos.

Mas e a consciência?

Não vejo razão para não crer que ela seja uma projeção do corpo, isto é, uma produção dessa fantástica fábrica de sensações e pensamentos chamada cérebro. Gosto da metáfora da TV. Mesmo que ela não seja perfeita – nenhuma metáfora o é -, ela ajuda a entender o que quero dizer. A metáfora é a seguinte: se o televisor fosse meu corpo, a imagem dele seria minha consciência. Uma vez pifada a TV, a imagem desaparece. Uma vez morto o corpo, cessam todas as suas expressões, porque cessam os processos na base que produz o que chamamos de consciência, inclusive a autoconsciência. O medo da morte e a invenção de supostas vidas depois dela são resultado dessa consciência, mas não sobrevivem à cessação da atividade cerebral.

E por que me parece mais sensato pensar assim? Porque não há qualquer evidência do contrário. Milagres, sonhos, revelações, comunicação mediúnica, projeção astral, etc. não são provas do contrário. Só reforçam a minha tese, pois continuam sendo resultado de processos cerebrais que um dia deixarão de produzir a mesma consciência que acredita ter sido gerada por uma superior a si mesma. O argumento espiritualista, no sentido mais amplo do termo, é circular: Porque há vida após a morte, as pessoas têm experiências inexplicáveis. E as pessoas têm experiências inexplicáveis porque  há vida após a morte. Só que tudo isso não demonstra coisa alguma a respeito dessa tal vida após a morte. Só revela de que capacidades extraordinárias, especialmente no campo da imaginação, o cérebro é capaz.

Não admira que nossa imaginação seja tão povoada por ideias oriundas de crenças religiosas. Nascemos numa sociedade mergulhada em crenças cristãs e nossa mente continua encharcada de conceitos oriundos destas, mesmo que deixemos os templos. E isso explica parcialmente por que os ateus muitas vezes se referem às crenças cristãs, apesar de existirem tantas outras. Por isso, a reiterada referência a esses produtos historicamente cristalizados (os textos sagrados, as doutrinas, os ritos, os templos) a partir da fluida imaginação humana.

Um dos ateus que eu mais admiro é José Saramago, autor português, que foi perguntado muitas vezes sobre seu ateísmo e nunca se acanhou em responder direta e francamente a essas provocações argumentativas. Morreu sem nunca se curvar a qualquer apelo religioso. Nunca se converteu a deus algum. Em 18/06/10, Saramago deu seu último suspiro. Seu falecimento se deu em seu próprio quarto em sua bela casa nas Ilhas Canárias, depois de uma vida de produção literária exuberante. Foram 87 anos! E nem a doença ou a morte roubaram-lhe a lucidez que caracterizou sua vida.

Vale a pena ver o que Saramago disse nessa entrevista.

Graças à tecnologia das artes gráficas e das telecomunicações, podemos ter o que deus algum jamais poderia nos dar: sua eternização. Saramago continuará conosco através de seus livros e vídeos. Só não lhe dirijam preces. Ele não estará em lugar algum para ouvi-las. 😉 Deixo vocês com Saramago em vídeo e aqui me despeço por hoje. Bom domingo!

 

 

 

Hoje, eu não queria dizer nada.

Por Sergio Viula

não quero dizer nada - aasa

Relutei muito em escrever o texto dessa coluna hoje. Na verdade, gosto de pensar no tema antes de escrever a respeito dele. Não que eu não tenha algo a dizer, mas falta a vontade de dizê-lo. E eu mesmo não sei por quê. Talvez, porque já tem muita gente dizendo muita coisa o tempo todo em todo lugar. Acho que estou com saudade do silêncio. Talvez, porque eu mesmo esteja um pouco cansado de dizer o que penso sobre tantas coisas.

Ando meio desanimado com o ser humano de um modo geral. Pode ser que esse cansaço seja comigo mesmo no final das contas, sei lá. Vejo tanta incompreensão, intolerância, discussão sem sentido e sem qualquer objetivo mais nobre. Vejo tanta gente boa sendo injustiçada, enquanto tanta gente mesquinha passa incólume. Mas isso acontece desde que o mundo é mundo. Por que isso me afetou hoje, não sei. Acho que não foi hoje. Esse sentimento já vem me acompanhando há um tempinho, mas varia de intensidade. Tanto assim que há pouco mais de duas ou três semanas, eu saí de todos os grupos ateístas e LGBT dos quais fazia parte. Um total de mais de 40. Por quê? Cansaço. Ninguém me fez nada direta ou pessoalmente. Simplesmente, cansei de certas discussões. Não ouvir certas coisas mantém as pessoas que eu (acho que) conheço em posições mais altas no meu ranking valorativo. Ah, antes que eu me esqueça: o mesmo deve acontecer comigo: quando falo, caio no conceito de alguns e subo no conceito de outros. Mas, o que isso quer mesmo dizer, afinal? ^^

Essa semana, assisti um vídeo no Facebook em que Muhammad Ali dizia tanta coisa verdadeira sobre o modo como os negros eram tratados nos EUA que eu quase dei um curtir no vídeo. Mas, no final do vídeo, ele disse que foi por uma injustiça dessas que ele se tornou muçulmano. Tipo, depois de ser campeão mundial pelos EUA, uma garçonete se recusou a lhe vender um cachorro quente, porque o estabelecimento para o qual ela trabalhava não servia negros. Isso me revolta é claro, mas a pergunta que me veio à mente foi: Cara, por que não você se tornou logo ateu? Ou por que não se voltou para a religião dos seus ancestrais? De que maneira, o islamismo, um misto de judaísmo, cristianismo e crenças populares que circulavam na Arábia do tempo de Maomé pode ser uma alternativa melhor?  Como escolher uma religião que foi pretexto para outros invasores dominarem o norte da África, assim como o foi o cristianismo? Homens africanos degolados, mulheres africanas estupradas e feitas de escravas, crianças separadas de seus pais com finalidades sexuais e de trabalho forçado!!! Como isso pode ser mais emancipador do que aquilo?

Daí, vi muita gente curtindo e compartilhando, provavelmente porque concordaram com o que ele falou sobre racismo, mas não perceberam a sutileza com que ele estava, na verdade, divulgando o islamismo ao dar esse ‘testemunho’ de conversão.

Fiquei pensando no crescimento do Islã no Brasil e na possibilidade desses muçulmanos nascidos aqui, com todos os direitos de cidadão brasileiro garantidos, elegerem deputados e senadores dentre os líderes de suas comunidades religiosas, gente comprometida com o islamismo. Dinheiro para as campanhas não lhes falta. Só precisam de eleitores, mas se o islamismo vier mesmo a ser uma das três maiores religiões do Brasil em 15 ou 20 anos, isso não seria mais empecilho.

Que tragédia seria isso! Além da bancada fanática de católicos e evangélicos que já amargamos, poderíamos ter representantes fanáticos do Islã com toda sua misoginia, homofobia, ódio às artes, ao secularismo e ao laicismo, ódio aos ateus, aos religiosos que não sejam muçulmanos e a tudo o que nos parece inofensivo, mas que lhes parece blasfemo.

Países com democracias bem mais maduras que a nossa resistem a essas influências, mas não sei se nós conseguiríamos fazer isso, uma vez que mal resistimos aos atentados fundamentalistas evangélicos e católicos contra a laicidade do Estado brasileiro. Imaginem, então, se essa marolinha virar onda de verdade.

Além disso, acabei de assistir o canal Nostalgia (Youtube) falando sobre a vida, a carreira e a morte de Michael Jackson – um dos artistas que eu mais amei (e ainda amo!) ao longo da minha breve vida. Não pude deixar de me emocionar com o talento, mas também me entristeci novamente com o sofrimento imposto sobre ele por uma mídia ansiosa por ganhar dinheiro, custe o que custar aos infelizes que ela pega para judas. Ele também enfrentou muito sofrimento por causa do vitiligo (confirmado, inclusive por autópsia). Teve também o acidente que quase o matou, enquanto ele gravava um comercial para a Pepsi. Sem falar no inferno que foi ter um pai como o dele. Com toda sua docilidade e aparente fragilidade, Michael Jackson superou tudo isso e tornou-se um dos maiores ícones do pop, mas não só isso: ele também foi um dos maiores filantropos entre as celebridades de todos os tempos, doando fortunas para 62 organizações beneficentes, principalmente aquelas voltadas para o bem-estar das crianças.

Rever a história de Michael Jackson me trouxe de volta a ideia de que  seres humanos incríveis podem ter vidas muito dolorosas, mesmo obtendo sucesso em suas carreiras e finanças. E tudo isso por causa da mesquinhez de outros seres humanos, incapazes dos mesmos feitos mas muito competentes na “arte” da fofoca, da chantagem e da sabotagem.

Como seria bom que cada um cuidasse apenas de sua própria vida! Melhor ainda se cada um valorizasse e fizesse bom uso do que tem, enquanto procura realizar novos sonhos, em vez de ficar contando cada níquel que o vizinho faz ou quão feliz ele parece ser.

Mas, pior do que o outro sabotando  a vida da gente, é a autossabotagem. Como seria bom que cada um fizesse o que bem entendesse de sua própria vida sem se importar com a aprovação ou reprovação do outro, desde que a realização de seu desejo não prejudicasse terceiros. Terrível coisa é viver pensando em agradar plateias não pagantes e com quociente intelectual e emocional abaixo da mediocridade.

Hoje mesmo conversei com um rapaz que me disse ter passado anos de sua vida tentando ser algo que não era por medo de parecer o que os outros poderiam reprovar. Eis aí uma das mais terríveis maneiras de alguém se autossabotar. Existem muitas outras.

Viver já dá muito trabalho. Ser feliz e prolongar essa felicidade, idem. Agora, tentar viver para agradar os outros é insuportável e nunca se traduzirá em felicidade de fato.

Como é que Muhammad Ali, Michael Jackson e esse rapaz cujo nome eu mantenho no anonimato vieram parar aqui, eu não sei… Talvez, porque todos três sofreram mais por causa do que os outros falaram deles ou para eles (ou até do que eles imaginaram que diriam) do que por uma limitação natural. Incrível como o social nos afeta e até nos modela, seja para melhor ou para pior, para mais ou para menos. Felizmente, podemos participar ativamente nesses processos e nos recusarmos a nos submetermos a essas circunstâncias, pessoas ou sistemas.

Bem, para quem não queria dizer nada, acho que já falei até demais. Desculpem a interrupção abrupta, mas vocês podem pegar o que acabaram de ler e fazer algo ou nada com tudo isso. O que sei é que vou me recolher aos meus pensamentos novamente. Tenham todos um ótimo final de domingo nesse 10/01/16 e uma semana com mais alegrias.

 

Listen to your heart!

Por Sergio Viula

listen to your heart

Primeiro domingo do ano e primeiro texto da Coluna do Viula em 2016. Acho que é um bom momento para pensar na vida. E falando em viver, não há coisa melhor que viver o que se quiser viver, como se desejar viver. E não custa lembrar: o único limite inegociável é o respeito aos mesmos direitos na pessoa do outro.

Estamos em pleno século XXI e ainda tem muita gente que não faz o que deseja por mera coerção social. O pior é que, uma vez internalizadas, essas coibições resultam numa série de efeitos colaterais, especialmente psíquicos,  que vão da raiva à depressão, podendo ser somatizados, ou seja, transformados em doenças físicas também. Sem contar o barulho que toma as redes sociais e outros círculos quando essa gente mal resolvida cisma de vociferar todo seu ódio por aí. Quando isso acontece, acabamos conhecendo o lado feio da força (risos). Não digo (lado) negro (da força), porque negro é lindo! Tenho me surpreendido com pessoas que eu nunca pensaria serem tão egoístas e desumanas.

Fiz um teste essa semana. Nunca havia publicado qualquer foto minha sem roupa por aí. Não acho que seja adequado mostrar genitálias em publicações abertas nas redes sociais. E mesmo nas publicações de grupos fechados, sempre há a possibilidade de vazamento. Como tenho, vários compromissos que exigem algum decoro, nunca me permiti publicar ou enviar por chat  fotos assim. Mas, meu decoro é só mesmo o necessário. Nada de obsessões com etiquetas sociais excessivas e opressivas.

Mas, no último dia do ano, acordei com fogo extra no coro. E decidi fazer um teste: publiquei uma foto nu, mas sem qualquer exagero. Nada de pênis ou bunda aparecendo. Acreditem, houve quem dissesse que a foto poderia virar um desenho ou uma pintura. Fiquei lisonjeado. Não sou mais jovem (esse povo entre 20 e 30 anos). Já estou curtindo meu 46º ano de vida. Então, todo esse frisson acabou sendo um carinho gostoso e saudável no ego.

Quando eu pensei que já tinha atingido meu orgasmo midiático, recebi uma mãozinha extra de um(a) conservador(a). O moralista de plantão, fiscal do furico alheio, achou por bem fazer uma denúncia anônima contra a foto, esperando que o Facebook a removesse. O que ele(a) não esperava era que a rede do Zuckerberg lhe desse uma baita bordoada no meio da lata.

Sim, porque o Facebook respondeu que a foto não viola os padrões da comunidade. Publiquei a resposta deles em print e tirei um delicioso sarro com a cara do(a) idiota. O clímax dessa punheta foi essa frase que eu soltei no meio do meu mais subversivo prazer:

Essa foto NÃO VIOLA. Essa foto VIULA. (risos)

Incrível como as pessoas nem ligam quando veem corpos trucidados, mutilados, boiando em enchentes – corpos atravessados por tragédias naturais ou por violências que vão de um mero assalto até um crime por homofobia ou transfobia, por exemplo.

Já vi fotos de extremo mal gosto publicadas no Facebook, mas nunca consideradas impróprias. Coisas como mulheres esfregando a vagina na cara de homens em bailes funk e coisas assim. Sou totalmente a favor da liberdade para que os bailes funcionem e que cada um faça o que achar melhor de seu próprio corpo, desde que não viole o corpo do outro. Mas,  não deixa de ser interessante ver a hipocrisia de alguns moralistas; o incômodo que a felicidade alheia pode causar a essas “frágeis” criaturas de gosto duvidoso. Fico me perguntando como o bem-estar de alguém, inclusive o de estar bem consigo mesmo, pode incomodar tanto os descontentes, frustrados e reprimidos, como eu disse lá no início?

Antes que alguém me pergunte: Mas cadê a foto, Sergio Viula? Aí, vai um print da publicação.

sergio viula nu

Alguém pode estar se perguntando: E por que falar nisso aqui? Entre outras coisas, porque esse episódio ilustra bem dois princípios que eu adoto para a vida:

  1. Faça tudo o que você desejar, desde que isso não viole o direito de ninguém;
  2. Não tente impedir que as pessoas façam aquilo que desejarem se isso não viola o seu direito.

E digo a vocês, queridos leitores: um amigo já havia me dito que talvez o Facebook me bloqueasse por causa dessa foto. Ele estava preocupado, porque gosta muito de ler minhas postagens e pensou que eu pudesse ficar impedido de fazê-las. Minha resposta carinhosa foi que se o Facebook fizesse isso, eu daria uma de loka e  alopraria geral, publicando mais e mais fotos e postagens ousadas assim, mas sempre na mesma linha de bom gosto, até que eles suspendessem minha conta. Eu ia querer ver até onde iria tudo isso. Mas, como eu disse, o Facebook deu um lindo coió na recalcada (essa pessoa desocupada e infeliz… kkkk) que fez a denúncia. E como não poderia deixar de ser, saí linda e faceira desse embate.  E pelos comentários que recebi dos amigos, tudo isso acabou sendo extremamente inspirador para a maioria deles (depois de ler esse post, clique na foto e veja os comentários). Eu também acho que a ousadia com bom nível é sempre inspiradorAMPULHETA.pnga. Tem muita gente que segue essa linha e me enleva.

E é por essas e outras coisas que o título desse post é inspirado pela música de mesmo nome, cantada por Roxette: Listen to your heart (Ouça seu coração). Roxete canta literalmente o seguinte: Ouça seu coração antes que você lhe diga adeus.

Sim, meus amigos e amigas, porque cada dia que você não faz o que deseja, isto é, não vive como quer ou não é plenamente você mesmo(a), é um dia a menos para fazer tudo isso daí para frente. Nossos lindos corpos são como ampulhetas ambulantes. A areia continua caindo, mas não há quem possa nos virar ao contrário para que tenhamos todo aquele tempo de novo.

Penso que o equilíbrio pode ser resumido numa frase. E foi essa frase que eu coloquei como foto de capa na virada do ano:

“Resolução de ano novo: Viver intensamente, mas sem pressa.”

Explico: a pressa é fruto da angústia diante dos prazos apertados, e ela mesma, por sua vez, gera mais angústia ainda, porque geralmente é “inimiga da perfeição”. E vou mais longe: a pressa é inimiga da SATISFAÇÃO. Comer com pressa, amar com pressa, viajar com pressa, enfim, fazer qualquer coisa apressadamente não satisfaz. Parece que sempre fica faltando alguma coisa; algo se perde pelo caminho. Viver intensamente, mas sem pressa – eis uma boa maneira de se conduzir na vida.

Se tem uma coisa que ateus, agnósticos e outros livres pensadores ‘deveriam’ poder fazer melhor que ninguém, é viver sem medo e sem culpa de serem felizes. Curiosamente, nem sempre é assim. Muitos ainda vivem sob os ecos das vozes do além, imaginadas com tanta força e carregadas de tanta emoção enquanto valorizavam a religiosidade que agora renegam,  que, sem que eles percebam, acabam reprimindo ou estragando seus mais inocentes prazeres. Isso para não falar nas coerções impostas pelas voz do outro e pelo olhar do outro, sempre temidos, sempre considerados como de suma importância. Ah, a reputação! Ela tem seu valor, mas, se excessivamente valorizada, ela se transforma em gaiola.

Por isso, considero de suma importância que todos saibam usar convenientemente o botão do foda-se. Ele é extremamente útil na hora de se lidar com gente recalcada, reprimida, mal resolvida, moralista, conservadora, fundamentalista, despeitada, invejosa, eternamente insatisfeita com tudo, seja lá o que for isso, principalmente quando querem contaminar os outros com essas ziquiziras psíquicas e existenciais. Ligar esse botão “mágico” dá menos trabalho e é uma delícia! Experiência própria, meus lindos e minhas lindas!

Então, para não prender você demais aqui, encerro esse post com um Feliz 2016! E que seja um tempo feliz, especialmente porque você está de bem com seu corpo (porque o corpo é você) e com os demais corpos à sua volta. Porque, se você estiver de bem consigo mesmo, provavelmente viverá em paz com os outros. É o que eu sempre digo: Gente feliz não enche o saco. (risos)

Para inspirar seu domingo e sugerir um bom lema para cada dia de 2016, compartilho a linda música de Roxette, Listen to your heart .

NO DOMINGO PASSADO, EU PUBLIQUEI UMA RETROSPECTIVA ATEÍSTA AQUI NA COLUNA. SE VOCÊ NÃO TIVER VISTO, BASTA ACESSAR:

Retrospectiva ateísta 2015: https://aasaoficial.wordpress.com/2015/12/28/retrospectiva-ateista-2015/

NO BLOG FORA DO ARMÁRIO TAMBÉM TEVE, MAS O ENFOQUE FOI LGBT. CONFIRA, CLICANDO NA FOTO ABAIXO.

retrospectiva fora do armário.png

RETROSPECTIVA FORA DO ARMÁRIO 2015: 

http://www.foradoarmario.net/2015/12/retrospectiva-fora-do-armario-2015.html

 Ah, sabe o Mario?

Ele mandou feliz ano novo… rsrsrs

aasa mario