Geração Y: ateísmo, sexualidade, autodeterminação

Por Sergio Viula
generation y not

Uma brincadeira com palavras. Em inglês a letra Y é pronunciada como Why, usado para perguntar “Por que isso ou aquilo?”. Daí, “Y not?” soa como “Why not?”, que, por sua vez, significa “Por que não?” – o que caracteriza bem a geração Y, aparentemente mais desconfiada do que é dogmaticamente ou tradicionalmente determinado. Esse jogo de palavras entre Y/Why não tem equivalente em português.

Pesquisa traça perfil da geração Y:
http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2015/11/pesquisa-inedita-traca-o-perfil-do-jovem-brasileiro-da-geracao-y.html

Geração Y: ateísmo, sexualidade, autodeterminação

A geração entre 18 e 34 anos, essa que nasceu toda conectada pela Internet, foi pesquisada pela PUC-RS no quesito religião, sexualidade, planos para a vida. Os resultados foram surpreendentes e, do meu ponto de vista, extremamente estimulantes:

Entre os jovens solteiros nessa faixa etária, os números referentes à religião são os seguintes:

34% são católicos

15% são evangélicos

6,7% -têm fé, mas sem religião

25,5%  não acreditam em deus

18,5% – outras religiões

O destaque da matéria feita pelo Fantástico foi para o ateísmo, uma vez que pesquisas feitas por outras instituições com a população,de modo geral, sempre encontraram percentuais de, no máximo, 10%, e geralmente misturando ateus e não-religiosos (o que não significa a mesma coisa). A PUC-RS separou as duas categorias e encontrou 25% de ateus entre essa população de 18 a 34 anos. Os não religiosos, mas com fé, são quase 7%.

A matéria do Fantástico, publicada também no site G1, vai mais longe e apresenta o jovem Lucas, que foi católico até aos 15 anos, cuja família ainda é toda católica. Fica muito nítido que ele é discriminado por ser ateu. A mãe chega a dizer que se arrepende de ter deixado ele viajar para o exterior como se isso fosse  causa de seu ateísmo. A maioria dos ateus brasileiros nunca viajou para outro país. Essa é uma relação de causa e efeito que parece sugerir uma tentativa de responder aquela velha e ridícula frase: “Onde foi que eu errei?”. Por si só, essa frase já revela a pretensão e presunção do indivíduo em relação à sua influência sobre a vida alheia e as coisas ao redor. Quem se pergunta isso geralmente não percebe que está se revelando uma pessoa extremamente controladora e frustrada porque alguma coisa escapou ao seu controle. No caso de Lucas, felizmente ele não se intimidou com essas e outras atitudes da família.

Mas, voltando ao crescimento do número de ateus nessa geração, é fantástico ver isso e perceber quão rapidamente essa e outras mudanças vão se processando.

Por exemplo, os ateus, que viviam, muitas vezes, apavorados em seus armários, escondidos da própria família e amigos, estão ficando cada vez mais assertivos e vivendo cada vez mais abertamente em relação à sua NÃO CRENÇA em deuses, pós-mundos, vidas pós-túmulo, anjos, demônios, espíritos, mentores espirituais, etc.

O próprio G1 havia publicado uma matéria com Daniel Sottomaior, presidente da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (ATEA), em junho de 2013, na qual ele chamava atenção para a discriminação e perseguição, às quais os ateus eram submetidos em casa, na escola, no trabalho e em outros ambientes nos quais conviviam com pessoas religiosas.

A denúncia era perfeitamente válida e correta – e ainda o é em grande medida. O Brasil é imenso e as relações de força que se estabelecem entre o indivíduo e sua família e sociedade mais imediatas nem sempre são favoráveis a uma vida autônoma, na qual a autodeterminação possa falar mais alto que as coerções sociais. Mas, felizmente, isso está mudando em alguma medida: a ignorância está perdendo terreno para o conhecimento, a doutrina está perdendo para o pensamento crítico, a tradição engessadora está sucumbindo diante das inesgotáveis possibilidades que a criatividade humana é capaz de produzir, quando associada ao conhecimento e à liberdade. A manipulação dos “ungidos do Senhor” e seus congêneres  não vai durar para sempre. Cada vez mais pessoas têm percebido  o que está realmente em jogo quando se trata de crença religiosa e religião institucionalizada. E todos os dias, muitos abandonam essas vãs esperanças e esses falsos consolos.

Em relação à sexualidade dessa mesma faixa etária de jovens solteiros, os números encontrados na pesquisa também foram surpreendentes, porque revelam que as pessoas estão cada vez mais resolvidas em relação a quem são e o que desejam:

33% dos homens entrevistados se declararam homossexuais ou bissexuais

24,4% das mulheres entrevistadas, idem.

Isso é bem mais do que os 10% que tradicionalmente são atribuídos às populações em geral desde as pesquisas de Alfred Kinsey.

O destaque nessa parte da matéria foi para Fernando, que é um jovem gay. O enfoque foi sobre a assunção de sua homossexualidade e a reação de sua família, assim como seu relacionamento com Caio. Da família, quem falou com a jornalista foi sua mãe, Dna. Elza, e seu irmão. Este último contou à entrevistadora como foi que falou com o pai e qual foi sua reação quando soube que Fernando havia dito à mãe que era gay. O pai se emocionou, mas respondeu que isso não mudaria nada em seu amor pelo filho.

Fernando está de bem com a família e namora Caio. É nítida sua felicidade por poder conviver com o namorado e com a família sem restrições. Os dois pretendem se casar quando estiverem estabilizados financeiramente. E essa parece ser a tendência entre os jovens que pretendem ter filhos também. Mais de 60% dos jovens entrevistados revelaram desejar ter um ou dois filhos. 77% destes só querem ser pais ou mães depois que atingirem estabilidade financeira, e o casal formado por Caio e Fernando está entre eles.

Felizmente, a principal conclusão a que chegou a pesquisa é que a nova geração não quer caixinhas. Eles não abrem mão de fazerem as coisas de seu próprio jeito, de desenvolverem sua própria subjetividade, em vez de esconderem as diferenças como o fizeram muitas pessoas de outras gerações antes deles.

Outra coisa que chama atenção é a quantidade de jovens que ainda moram com a família, mas nem todos o fazem para desfrutar de vida mansa. Tatiana, por exemplo, é uma jovem que mora com a família, mas está é formada só por mulheres: a mãe, a avó e a tia. Ao todo, quatro mulheres na mesma casa, e Tatiana é a principal fonte de renda. Nenhuma das outras três tem salário ou pensão e só podem ajudar fazendo doces para vender.

Fico pensando no que será que essas quatro mulheres pensariam do tal Estatuto da Família que uma comissão infestada de fundamentalistas na Câmara dos Deputados, sob o comando do (mais cagado que pau de galinheiro) Eduardo Cunha, pretende encaminhar ao plenário da Câmara. Não há qualquer “macho” na família de Tatiana para fazer o papel de pai ou de marido, mas elas continuam sendo uma família com todas as letras. A absurdidade desse Estatuto da Família parido pela bancada fundamentalista é apenas mais uma tática de cortina de fumaça do catinguento do Cunha para distrair a opinião pública para longe do que realmente interessa: a investigação de suas pilantragens. Mas, como eu já disse em outro texto dessa coluna: Obscurantistas perdem!  Esse absurdo não vai passar. Confira a postagem depois de ler esta.  😉

Ah, e por falar em números, um amigo chamado Pedro Lemos está fazendo uma pesquisa entre ateus que terá seus resultados divulgados na página  Sou ateu, e daí? no Facebook. Mais de 200 pessoas já responderam a pesquisa, inclusive eu. Para acessar a pesquisa e respondê-la (gastei só dois minutos fazendo isso), basta acessar esse link:

PESQUISA: https://docs.google.com/forms/d/1m4CzMBZO-UUMmxrYXReyu4lWUaMyeluGIqra16Jqebs/viewform?c=0&w=1

Continuemos a usar os meios possíveis para denunciar os mecanismos de criação ou manutenção de segregação, seja por gênero, orientação sexual, raça, classe, religião e não religião, ou qualquer outro.

Continuemos a denunciar as falácias que a religião propaga para manter as pessoas sob seu domínio e controlar seus corpos. E isso inclui suas mentes, é claro, produção desses mesmos corpos.

Continuemos a defender o pleno direito à autodeterminação e à condução autônoma da própria vida na medida em que cada ser humano conseguir vivenciá-las sem a menor ressalva, exceto o limite do abuso das mesmas liberdades no outro.

E deixo aqui um convite para quem é de São Paulo e adjacências. É para esse mês de novembro de 2015. Estarei lá no dia 22 de novembro, às 9:00. ENTRADA FRANCA. Inscrições aqui: http://www.ssexbbox.com/programacao-1a-conferencia-international-ssex-bbox-mix-brasil-de-sao-paulo-2/

Saiba mais nesse vídeo:

https://www.youtube.com/watch?v=mZ-rFRxfMKQ

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