Sobre pastores e lobos: Delator que acusou Cunha também fez repasses ($$$) à Assembleia de Deus

Por Sergio Viula

pastor ladrão

O Diário de Pernambuco, em sua página sobre política em 31/07/15, publicou uma matéria sobre a Operação Lava Jato, informando que o lobista e delator Júlio Camargo repassou 125 mil reais para a igreja evangélica Assembleia de Deus Ministério Madureira (uma das maiores do Brasil), em sua filial Campinas (SP).

680x510xad-madureira-680x510

Esse ministério da Assembleia de Deus tem igrejas espalhadas por todo o Brasil, apesar de sua sede ser em Madureira, bairro da cidade do Rio de Janeiro.É bom lembrar que os ministérios concorrem entre si quando interessa e se unem quando interessa. Sempre um jogo de interesses.

A descoberta, segundo o jornal, foi graças à quebra de sigilo bancário da empresa Treviso, utilizada por Julio Camargo para repassar propinas no esquema de corrupção na Petrobrás revelado pela Lava Jato . Nem o pastor da igreja nem a defesa de Camargo quiseram dar explicações sobre o repasse, que teria sido feito entre 2008 e 2014.

Isso mostra que o delator, que disse à Justiça ter sido pressionado pelo presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) a pagar propina de CINCO MILHÕES DE DÓLARES, também repassou dinheiro para essa igreja simpática ao deputado expoente da bancada evangélica.

A maioria dos meus leitores sabe que eu já fui pastor. E por isso, obviamente, fui assediado por candidatos evangélicos e por outros que nem evangélicos eram, mas queriam usar o sistema para se elegerem. SEMPRE disse NÃO a todas essas abordagens, inclusive uma de uma pessoa da Igreja Universal do Reino de Deus que me procurou uma vez em gabinete para me perguntar O QUE EU QUERIA ($$$) para deixar que fizessem campanha para um candidato deles na igreja que eu conduzia. Minha resposta foi um sereno “NADA, porque eu não faço campanha para políticos na igreja. Os membros dessa igreja votam em quem acharem melhor.” A pessoa ficou embaraçada e agradeceu pela minha atenção, saindo logo em seguida. Corruptos não rejeitariam uma “oportunidade” como essa.

Mais que isso ainda: nunca acreditei que candidato crente seria melhor do que candidato não crente. Pelo contrário, sempre achei que crentes, especialmente pastores, com mandato político só trariam ignomínia sobre a igreja e sobre o nome de Cristo. Se já se deslumbravam com o poder dos púlpitos, imaginem com o poder legislativo ou executivo. Não precisava ser vidente para saber disso.

Minha visão sempre foi a de que ser pastor era superior a qualquer mandado político, e que se alguém era chamado por Cristo para o ministério, não era chamado para nada mais. Podia até trabalhar em paralelo para se manter, como foi meu caso, exceto por um ano em que fiz trabalho missionário voluntário e fui apoiado por um grupo de irmãos que acreditavam naquele trabalho. De resto, nunca tive salário, não por falta de oferta da parte das igrejas, mas por convicção. Ajuda de custo para as atividades eclesiásticas, sim, mas até isso por muito pouco tempo, porque meu objetivo não era ganhar dinheiro, por mais incrível que isso possa parecer. Era ingenuidade mesmo, crença de fato, mas por isso mesmo meu trabalho era ainda mais intenso e frutífero para as igrejas.

Naquela época, eu acreditava que a prioridade da igreja era pregar as boas novas a toda criatura. Por isso, quando via um pastor querendo ser candidato, desconfiava que isso não vinha de um compromisso sério de fazer o bem, mas de uma estratégia pessoal para se dar bem ($$$).

Hoje, percebo que até mesmo o compromisso que as igrejas têm com obras missionárias está a serviço da ampliação do “eleitorado” a ser explorado por esses mesmos pastores facínoras. Claro que muitos crentes não percebem isso. No tempo em que eu era crente, também não percebia.

Deixei a igreja faz tempo. Já se vão praticamente 12 anos. Não sinto a menor saudade. Conheço pastores tão sérios hoje como eu fui sério enquanto pastoreava. Gente abnegada, dedicada, estudiosa, caridosa e bem intencionada, mas isso não muda o fato de que – caso creiam mesmo naquelas fábulas religiosas escritas na Bíblia – estão perdendo tempo.

Os crentes que fazem campanha para esses calhordas ou embarcam no discurso mentiroso desses parasitas são, no mínimo, tolos. Também é possível que haja muitos entre esses crentes ingênuos que não são nada inocentes. Talvez apoiem tudo isso, sabendo exatamente o que fazem, porque pretendem aproveitar das migalha$ nada modestas que caem das mesas dos corruptores.

Essa historia de “irmão vota em irmão” só serve para atestar a tolice de quem diz e faz isso.

Infelizmente, mesmo as pessoas honestas, ao colaborarem com esses ministérios, prestam um desserviço à humanidade, porque fortalecem as bases desses canalhas. Silenciar não é suficiente. É preciso denunciar. Os pastores sérios em sua fé e ministério podem tentar neutralizar os efeitos do veneno dessas víboras denunciando esses canalhas sem qualquer remorso. Expurguem esse fermento para que, talvez, apenas talvez, a igreja venha a ser massa nova. Pensar que deixar esses caras lá é um mal menor é puro engano. É como pensar que ignorar um câncer no corpo será mais benéfico do que combatê-lo. Agora, se esse câncer carcomesse só a igreja, isso seria um problema só dela. Ela poderia decidir ignora-lo, disposta a pagar o preço dessa ignorância. Só que não: trata-se do tecido social, político e econômico de um país inteiro. Trata-se de dinheiro público. Trata-se de empresas que empregam milhões de pessoas que dependem desses empregos para viver. Trata-se de recursos que deveriam servir para atender a população em suas necessidades básicas de educação, saúde, moradia, etc. Quem cala é conivente. É parte do esquema, mesmo que acredite ter se esquivado dele.

E espanta (ou não) ver um pastor dizendo que crente não tem que se meter com pastor ladrão, tem que ficar quietinho. E logo quem? Silas Malafaia. Vejam a transcrição feita pelo site Gospel+:

“Fico vendo caras que nem tiraram a fralda, que chegaram agora no Evangelho… julgando pastor… ‘Quem é esse cara?’ Ilustríssimos desconhecidos recalcados. Com dor de cotovelo do sucesso dos outros. Uma meia dúzia de idiotas, imbecis, travestidos de crente – porque essa gente não é crente. Quem calunia pastor e fala da Igreja não pode ser crente. Vou dar um conselho pra você: fica longe de participar de divisão, de calúnia, de difamação de pastor. Fica longe disso. Quer arrumar problema pra tua vida? Entra nisso. Quem é que toca no ungido do Senhor e fica impune? Ungido do Senhor é problema do Senhor, não teu. Teu pastor é ladrão? É pilantra? Você não está gostando? Sai de lá e vai pra outra igreja. Não se mete nisso não, porque não é da tua conta. Cai fora. Vai embora […] Só não arruma problema. Não toca em ungido… Rapaz, aprenda isso: eu já vi gente morrer por causa disso, meu irmão”, polemiza Malafaia.

O esquema é simples: igrejas elegem candidatos comprometidos em favorecê-las (leia-se repassar verbas de corrupção e facilitar outros trâmites); o candidato eleito, macomunado com o pastor, usa o eleitorado daquela congregação para se eleger; depois, os dois repartem os despojos da corrupção e da canalhice, enquanto a igreja acredita que está fazendo um tremendo serviço para Deus alimentando esses porcos devoradores de homens. E para desviar a atenção, esses canalhas com mandato falam contra os direitos das pessoas LGBT, pregam a redução da maioridade penal como solução miraculosa para o problema da violência, fazem boicote à novelas (ficção incomoda mais do que a sórdida realidade em que eles mesmos estão inseridos), perseguem empresas que veiculam propagandas inclusivas, especialmente quando se trata da diversidade sexual, demonizam os planos nacional, estaduais e municipais de educação que pretendem promover inclusão e combater bullying, inclusive por orientação sexual e gênero, e por aí vai.

TUDO CORTINA DE FUMAÇA para poderem continuar roubando sem perderem a pose de “salvadores da família tradicional”, quando a maior de suas tradições é viver às custas dos otários que os apoiam e aplaudem compulsivamente.

aderbal babilônia

Aderbal, personagem de Babilônia, é um político corrupto eleito pela tradicional família brasileira e religiosa.

Aliás, a novela que eles tanto caluniam é a mesma que os denuncia como nenhuma antes teve a ousadia de fazer. Parabéns à novela Babilônia, veiculada pela Rede Globo nesse ano de 2015.

E tem gente se candidatando com o bordão “isso é falta de Deus no coração”, cada vez que um ladrão de galinhas é pego pela polícia, mas são homens aplaudidos como “servos de Deus”  por tolos e espertalhões que assaltam toda a nação.

Se a polícia investigar certinho, ela vai descobrir muito mais por aí.

Anúncios

Deixe seu comentário ou sugira o assunto do seu interesse para futuras publicações!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s