Meu jeito ateísta de ser

Por Sergio Viula

atheist

Muita gente me pergunta como é viver como ateu, como enfrentar a vida sendo ateu, como se viver fosse sempre um fardo. Não é. A vida, na maior parte do tempo, é fascinante. Ela só parece insuportável quando a dor ganha o primeiro plano e o domina. Infelizmente, o sofrimento nos assalta aqui e ali, a uns mais e outros menos, mas a todos em alguma medida. Não posso deixar de pensar que muito do nosso sofrimento é fruto da nossa adoecida imaginação. Nesse sentido, o ateísmo pode fazer muito bem à saúde, especialmente mental.

Coisas que deixam as pessoas doentes:

1. Medo de Deus;

2. Medo do Diabo;

3. Culpa por coisas absolutamente saudáveis: desde o que se come ou o que se veste até como ou com quem se trepa;

4. A ideia de que existe uma alma/  espírito que sobrevive à morte do corpo;

5. A ideia de que o celeste é melhor que o terrestre, que o espírito é melhor que o corpo, que deus é melhor que os homens, etc;

6. A ideia de que se está sempre em falta perante um deus, espírito ou lei universal;

7. A ideia de que deus. deuses, espíritos ou alguma lei universal é que determina o bem e o mal que nos atinge ou que dependemos dele(s) para viver bem, apesar de nunca conseguirmos isso plenamente;

8. A ideia de que o corpo tem que ser reduzido, subjugado, desprezado, não satisfeito para que algum deus ou mentor espiritual fique feliz e não exerça seu poder punitivo;

9. Pensar que todos merecem respeito DESDE QUE façam aquilo que eu aprendi a acreditar que seja A VERDADE;

10. Acreditar que um ou mais livros ou tradições orais possa me dar as respostas certas para quaisquer perguntas que eu possa conceber. E por aí vai…

Porque sou ateu, além de viver livre disso tudo, sou livre para viver tudo o que me torna mais forte, mais feliz. E vivo livre de tudo isso mesmo, porque nem todos os que se dizem ateus conseguem se livrar desses fantasmas na prática, digo, no mais intimo de seu ser. A maioria nega tudo isso de boca, mas uma boa parte vive como se algumas dessas coisas ainda fossem verdade. Por isso, caem tão facilmente na lábia de conservadores moralistas, nem sempre abertamente religiosos.

Sou um ateu que, ao sair da religião, sacudiu até a poeira que dela se agarrava às sandálias, e por isso, não meço minhas ações a partir de parâmetros religiosos ou moralistas, como se o bem e o mal estivessem detalhadamente traduzidos em escritos de qualquer espécie.

Minha máxima é simples: tudo é lícito, desde que não viole os direitos básicos de ninguém, inclusive os meus. Isso quer dizer que não deixarei se viver como considero legítimo, porque desagrada a essa ou àquela pessoa. E não espera que ela faça isso também. Por outro lado, não farei o que o viole seus direitos básicos e não tolerarei que o façam comigo. O que passar disso pode ser discutido, desde que a argumentação seja racional, razoável e priorize a liberdade, a dignidade e a felicidade humanas, sempre considerando as consequências imediatas e de longo prazo que nossas ações possam desencadear, seja para nós mesmos como seres humanos, seja para outros seres vivos.

Isso significa que os direitos universais dos seres humanos, como os denominamos, desdobram-se em direitos para outros seres vivos e em zelo pelo ambiente que todos compartilhamos nesse lindo e assustador planeta que chamamos de lar.

Em suma, podemos ser e fazer o que quisermos, desde que não violemos os direitos alheios. Não se confunda direitos alheios com opiniões alheias. 😉

E por isso apoio todas as iniciativas que viabilizem e garantam todos os modos de ser e de viver, indiscriminadamente. Por isso, não suporto fascismos, fundamentalismos, racismo, xenofobia, misoginia, androfobia, LGBTfobia e outros sentimentos ou atitudes que reduzem o outro, a partir de visões viciadas (e nada realistas) da realidade que nos circunda.

Meu jeito ateísta de ser me emancipa da religião, da crença em deuses, da expectativa de castigos e recompensas pós-morte, da dependência de um provedor celestial ou o que o valha, mas também me emancipa de todos esses preconceitos gerados e paridos pelo mesmo ventre que gerou e pariu as estruturas carcomidas que as diversas religiões insistem em sustentar, cada uma a seu modo: a ignorância.

E toda essa ignorância se torna mais grave quando o ignorante ignora que ignora. E, infelizmente, alguns sentimentos religiosos estão tão profundamente arraigados nas mentes da maioria das pessoas que será preciso muita honestidade, boa vontade e destemor para que essas pessoas livrem a si mesmas desses fardos opressores.

Seria interessante vermos mais ateus como George Carlin, Richard Dawkins, José Saramago, Woody Allen, James Randi, Drauzio Varella. E me refiro ao Brasil. Ateus de meia tigela não fazem mais pela emancipação humana do que um fanático religioso. Pelo contrário, religiosos como Desdemond Tutu são infinitamente melhores do que muitos ateus, existencialmente falando, só para citar um.

Não consigo imaginar os ateus citados acima dando crédito a esses fascistas que alguns ateus costumam incensar nas redes sociais no Brasil.

Meu jeito ateísta de ser não tolera a intolerância. E me refiro especialmente àquela intolerância que se volta contra a liberdade, a dignidade e a felicidade humanas.

Mas que ninguém pense que eu perco o sono por causa de quem insiste em viver na ignorância. Pelo contrário, vivo tudo o que posso viver, enquanto ouço o choro e o ranger de dentes daqueles que se enfurecem diante da emancipação humana, porque a minha vida é só essa, e provavelmente já vai pela metade. Não tenho tempo a perder agradando os desagradáveis de plantão. Enquanto isso, a emancipação humana vai avançando, apesar do barulho dos descontentes.

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