BULLYING – A ti sou grato.

Bullying – A “ti” sou grato.

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Por Lucas Belarmino

Desde pequeno fui simpatizante dos oprimidos. Você ser feio, ter espinhas, ser careca, cabeludo, muito magro, muito gordo ou de qualquer forma não encaixar no padrão utópico o faz vítima. Lembro-me que só não eram vítima os aliados do grupo. Por exemplo, se o motivo de tirar sarro era referente à minha magreza, percebia que no grupo que zoava aliava-se cada vez mais outros magrelos visando não serem zoados, mas zoar. Eu nunca fui assim, nunca quis fazer parte de um grupo que oprimia e discriminava, portanto eu sofri e muito (o suficiente para que meus pais me mudassem de escola).

Mais tarde, ainda sendo zoado, decidi começar musculação. Peguei gosto e com 17 anos passei de lacraia (apelido comum na época) para (homem-bomba). A intenção da musculação não era de fugir as opressões, mas teria percebido ali que funcionava. Os grupos que zombavam de mim passavam a tentar uma “aliança”. Puxavam assunto, queriam saber o que eu estava fazendo para ficar “grande” e se minha força realmente era diferenciada. Percebi naquele momento como o Ser humano era egoísta e que fazia parte de sua natureza formar grupos (hoje eu sei o quanto isto está ligado à questões de sobrevivência).

Pois bem, àqueles que caçoavam de mim agora buscavam alguma aliança, mas não conseguiam. Certo dia, no colégio presbiteriano, era o intervalo das aulas e fui ao pátio. Uni-me aos amigos de sempre (os oprimidos, eu era destaque meio a eles naquele momento, não parecia ser parte do grupo) e percebi que se aproximava o grupo do fundão, aqueles que gostavam de sacanear sem escrúpulos. Aproximaram-se e começaram a caçoar de um amigo chamando-o de “curupira”, este amigo não ficou quieto e respondeu a altura. O valentão, portanto, na intenção de mostrar ao seu grupo que era corajoso, como se estivesse participando de uma prova de aceitação para sua sustentabilidade social, partiu para agressão. Como sempre, nosso grupo apanhava, mas naquele momento havia me cansado. Levantei e mandei que soltasse meu amigo, caso contrário deveria lidar comigo. Acho que todos sabem o resultado disto, não?

O valentão jamais retrocederia, pois aquilo valia seu ego, ele sabia zoar, mas não ser zoado. Claro, o valentão soltou meu amigo e partiu para me atacar. Nunca havia me envolvido em brigas, mas naquele momento sabia que ou correspondia ou de nada valeria o ato heróico. Não tive coragem para socá-lo, mas o agarrei e sem querer o derrubei, caindo por de cima de seu corpo e pausando ao gesto de socá-lo no rosto segurando em seu pescoço, dei-lhe a chance que todo herói dá. A moralidade do herói resume-se naquela chance fundamentada à empatia e compaixão.

Naquele momento, recordo-me do rosto do vilão encostado ao chão olhando nos meus olhos em pavor, não pela aceitação do seu grupo, mas por não ser tratado como ele aos outros tratava. Ajudei-o a levantar. Sem olhar para trás ele se retirou já sendo vaiado por seu próprio grupo de “amigos” que berravam – “Apanhou, apanhou, para o NERD, apanhou!”

O restante de meus dias naquele colégio foi marcado pelo pacifismo oriundo daquela atitude e do telefone sem fio que chegava aos demais estudantes como uma agressão ao opressor. Cada estudante contava o ato não como foste, mas como queria que tivesse sido.

Deixei aquele colégio com muitos amigos de verdade, nunca me aproximei dos “bullymistas”. Noutro colégio, já remanejado com grupos – Nerds, valentões, mulherengos, etc – já cheguei me enturmando com o grupo oprimido. A partir do histórico e das conseqüências, de imediato fui o defensor dos oprimidos. As situações foram diversas. Certa vez, o rapaz da torcida mancha verde, que se vangloriava das brigas marcadas pela internet, chamou meu amigo de microfone, devido seu porte físico e cabelo volumoso, o meu amigo sentiu-se ofendido (eu só intervinha se houvesse chateação) e respondeu caçoando do vilão. A cena foi à mesma, o valentão levantando e enfrentando a mim. Este mesmo gostava de fazer graça de um amigo meu, por ser homossexual, mas já não tinha coragem de fazer na minha frente.

Ser um oprimido me trouxe, claro, algumas complicações. Acredito que hoje superei todas. A última foi minha obsessão pela musculação. Cheguei ao físico de competição e fiz tudo para chegar. Era um sonho travestido de um mal causado na infância. Um mal que me fazia acreditar que o porte físico era responsável pela emanação de poder e conduto de respeito.

O esporte é maravilhoso. Ainda é o esporte que mais exige disciplina, “entrega”, abdicação, em meu ponto de vista. Enquanto estava no esporte não chamava aquilo de obsessão, mas era claro, que quando ia sair na rua tinha que treinar para me sentir “inchado”. Fazia flexões no banheiro de casa, saia à rua para me mostrar e queria entrar nos lugares e ser o centro da atenção, tudo isto que pode ser coligado ao ego. A musculação por ego parte da premissa de um dia ter sido oprimido e simboliza a ilusão de poder. A genuína musculação é bela, é empolgante, é o maior dos esforços e a mais difícil das escolhas de estilo de vida.

Aqui, somente a história do bullying em minha vida, apesar das complicações, fez-me um militante contra o preconceito e contra qualquer opressão. Sempre serei um soldado da liberdade, qualquer que seja.

Grato por isto.

Lucas Belarmino

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