EU NÃO CREIO EM RELIGIÕES, EU CREIO EM DEUS

deus-conceito

Por Jacqueline K

Nos debates acerca de deuses, religiões e ateísmo, é comum me deparar com pessoas que se declaram não religiosas porém crentes em um deus, que seria diferente daquele descrito pela religião (no Brasil, sempre que se fala em deus, todos inferimos que é do deus bíblico que se está falando, já que é o mais disseminado aqui, por essas bandas).

A pergunta que sempre faço para essas pessoas é: se o deus em que você crê não é o deus bíblico nem o de nenhuma outra religião, como você conheceu ou descobriu esse deus?
As respostas a essa pergunta diferem em palavras, mas não diferem muito na essência:
a) Eu sei que Deus não faria o que a Bíblia diz que ele fez;
b) As religiões deturparam Deus, ele não é nada daquilo que elas dizem;
c) Eu não creio em um deus, mas em uma força maior;
d) Eu sinto que ele existe;
e) Todas as respostas anteriores(!)
O que essas respostas têm em comum? Todas partem do mesmo princípio (embora quem pense assim não perceba), e esse princípio é: “eu sei o que Deus é, como ele é, o que faz e como pensa e todas as religiões estão erradas”.
Resumindo: a pessoa que diz não crer em nenhum deus de nenhuma religião, mas crê em um deus ou força maior simplesmente CRIOU esse deus ou força maior em sua cabeça.

Todos os conceitos de deus que temos nas sociedades modernas têm origem ou estão atrelados a uma religião.
O que ocorre é que um indivíduo, não tendo se sentido devidamente satisfeito com esses conceitos de deus que lhe são oferecidos pelas religiões, decide, ele mesmo CRIAR o seu deus em sua cabeça, dando-lhe os atributos, poderes, qualidades, quereres e comportamentos que mais se adequam ao que essa pessoa considera dignos de um ser divino superior.

A segunda pergunta que faço a essas pessoas é: mas, então, esse deus verdadeiro, que jamais foi conhecido por religião ou pessoa alguma no mundo inteiro só se revelou para você? Apenas você compreendeu a verdadeira essência de deus?
Nesse ponto, geralmente a resposta é meio nebulosa, algo evasivo, incerto, emocional ou pouco crítica: “eu sinto esse deus, eu acho que deus é isso e aquilo, é nisso que eu creio”.
Ou seja, a pessoa cria uma ideia de um deus só para ela, qualifica-o como quer, descreve-o como quer, sente-o como sente e passa a crer que ele é real e que ela é a única pessoa no mundo que compreendeu esse deus.
E não está errada, afinal, sendo esse deus uma criação dela, só ela o compreenderá, é claro!

Quando tais pessoas não criam um deus completamente diferente de todos os conceitos de deuses descritos nos livros das religiões, dá-se o que eu chamo de reedição seletiva: a pessoa parte do modelo do deus cristão e o reedita, cortando e colando aqui e ali, até que esse deus se pareça mais com o que ela considera ideal para um deus, então ela passa a crer que é assim que deus é, do jeitinho que ela o reeditou:
Deus mandou matar, estuprar, torturar? Corta e joga fora.
Deus disse que amava a todos? Mantém e se apega a isso.
Deus é vingativo, cruel e sanguinário? Corta e joga fora.
Deus é justo, bom e misericordioso? Mantém e se apega a isso.
“Deus não discrimina negros, mulheres, homossexuais, deficientes físicos. Deus não mata ninguém. Deus não castiga ninguém. Deus não criou o mal. Deus não é um ser como uma pessoa, é algo além da nossa compreensão. Deus é o motivo de tudo. Deus é a natureza e a vida. Deus não é aquilo, aquilo e aquilo outro. Deus é assim, assim e assim, COMO EU PENSO E SINTO que ele é.”

Parece surreal, inacreditável, imaginação minha que alguém crie uma ideia e creia nessa ideia como sendo a única real, mas se não acreditam, façam o teste com alguém que diz não crer nos deuses das religiões, mas crer em um deus diferenciado… e me contem depois.

Nunca me canso de repetir, em praticamente todos os meus artigos, para que a abrangência desse fato seja lembrada sempre: a espiritualidade, o misticismo, o sentimento do divino e os conceitos sobrenaturais professados pelas religiões são parte da bagagem cultural de todos os seres humanos nascidos e educados em sociedades cuja população é de maioria religiosa.
Todos nessa sociedade, professando ou não a crença da maioria, estão sujeitos à sua influência no seu modo de pensar e entender o mundo.

Não é possível viver em uma sociedade sem sofrer sua influência cultural e nossa mentalidade é fruto também, e muito, dessa influência; negá-la apenas a reforça em nós, uma vez que não sendo reconhecida, não haverá motivos para lutar contra ela.
E isso vale para todas as ideias de origem mística e religiosa, ou defendidas pelas religiões, não só para a ideia da existência de um deus ou força maior que criou tudo, que está cuidando de nós ou que tem um propósito para nós, no final de tudo.

A influência do misticismo e da religião na nossa mentalidade se dá em âmbitos que nem sequer suspeitaremos, caso não paremos para analisar o que pensamos que são nossas conclusões lógicas e não percebemos que podem ser ideias que nos foram implantadas principalmente pelo Cristianismo; tais como a vida existindo em algumas células aglutinadas porém sem cérebro, na cavidade intrauterina, e a ideia de que retirá-las de lá é errado; ou a ideia de que existem orientações sexuais ‘anormais’ e ‘erradas’, pois há um modelo ‘certo’; a sensação de que há algo de negativo em mulheres fazendo sexo o tempo todo, na hora em que quiserem e com quem quiserem e por isso elas estão ‘erradas’, já que não seguem o modelo ‘certo’; a ideia de que o ser humano é naturalmente mal ou propenso ao mal, estando sempre ‘errado’ e por isso o mundo está do jeito que está; e muitas outras.

Todas essas concepções são, em sua essência, em maior ou menor medida, defendidas por religiões e pela ideia de que a natureza e o ser humano não são frutos aleatórios de eventos aleatórios, mas que obedecem a uma ordem maior, regidos por um modelo preexistente do que é certo e errado, devendo, por isso, seguir certas regras de conduta e pensamento.
É esse o grande mal das religiões, da crença em um deus ou força maior e do pensar místico do mundo.

Ora, não há ordem, regra ou propósito algum na natureza nem na vida humana, senão aqueles que damos à nossa vida.
Não há nenhum motivo racional para se ser contra o aborto, para considerar orientações sexuais diversas da heterossexualidade como anormais ou erradas, para determinar o que é certo e o que é errado no comportamento sexual das mulheres, nem há motivo racional algum para que o ser humano seja considerado propenso ao mal.

Somos todos seres naturais regidos por leis naturais, e nenhuma delas comporta os conceitos de certo e errado.
O que nos dá esses conceitos é a nossa racionalidade.

Nosso poder de raciocínio nos dá a capacidade de olhar para outro ser humano e perceber que ele é igual a nós em tudo e por tudo e que, por isso, tem os mesmos direitos que nós; é a nossa racionalidade que nos diz que não devemos matar, roubar, torturar, estuprar, discriminar, violentar outro ser humano seja de que forma for, pois ele é igualzinho a nós.

A ideia de que existe uma ordem e um modelo de certo e errado a que devemos seguir que não seja o de igualdade total de direitos entre os seres humanos não é natural nem ética.
É religiosa.

Libertando-nos da ideia de um deus, de um propósito externo a nós para nossa vida, de uma ordem maior e de um modelo preexistente do que é certo ou errado abrimos o caminho para uma sociedade igualitária, empática e solidária, sem amarra alguma que não seja a nossa ética racional.

Anúncios

Deixe seu comentário ou sugira o assunto do seu interesse para futuras publicações!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s