Escravos de Deus

escarvos de deusPor JacquelineK

Não é novidade nem para ateus nem para cristãos, nem para mais ninguém: Deus não condena a escravidão em nenhum momento; muito pelo contrário, com a maior naturalidade do mundo dita suas regras para senhores e escravos, sem nunca chegar a se horrorizar com a aberração que é um ser humano possuir outro (ambos por ele criados, certo?), jamais qualificando-a como pecado.

Há os teólogos que afirmam esperançosamente que tais regras “amenizavam” o tratamento dado aos escravos, há os que dizem que “eram outros tempos e precisa-se levar em conta o contexto” e há os que simplesmente fingem que “Deus age por caminhos misteriosos”, quando está explicitamente exposto na Bíblia. Não, não há mistério algum nessa questão. E não vou citar versículos. LEIAM A BÍBLIA!

E quanto a Cristo? Tampouco condena a escravidão, nem antes nem depois de ser solicitado a curar o servo de um centurião em Cafarnaum. Perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado ao exaltar a fé do mesmo e conceder-lhe o milagre da cura de seu escravo; ou seja: podendo ensinar-lhe que todos os seres humanos são igualmente filhos de Deus e que a escravidão é algo indigno e terrível, optou por premiar a fé do escravista com seus poderes!

Quanta benevolência e amor ao próximo, não? Próximo, aqui, leia-se o centurião, não o escravo; pois, tanto para Deus Pai como para Jesus, há próximos mais próximos que outros: o centurião merece ser salvo de seu prejuízo financeiro da perda de um bem (outro ser humano) pois crê em Jesus. O escravo? Merece continuar escravo, ora essa! Nenhum amor ao próximo para ele.

Sem falar em Paulo (o grande organizador do Cristianismo, a pedido de Jesus), que veio em suas epístolas com aquela odiosa orientação aos escravos para que obedecessem aos seus senhores… por temor ao Senhor! “Temam a Deus, escravos, por isso SIRVAM AOS SEUS SENHORES!”. O que equivale a dizer que Deus os castigaria caso fossem escravos desobedientes…

Lindo, não é mesmo…? Perfeitamente condizente com o pensamento e o status quo da época, dirão os defensores da perfeição de Deus e da culpa dos homens pecadores que deturparam a Palavra Divina.

O problema de se levar em conta o contexto histórico em que a Bíblia foi escrita e assim interpretá-la de forma mais politicamente correta (e os religiosos “se esquecem” convenientemente disso) é que a Bíblia é, alegadamente, a Palavra de Deus. Deus é imutável, certo? Criador de tudo… Onisciente do passado, do presente e do futuro, jamais limitado pelos contextos históricos, sociais, econômicos e o que seja!

E mais desabonador que isso: o próprio Deus é quem permite e dá o aval para tais contextos em que a escravidão é vista como natural.

Deus se posiciona sobre os juros, sobre a alimentação, sobre as doenças, sobre os rituais, sobre o adultério, sobre o roubo e o dano à propriedade privada, sobre as roupas adequadas, e até sobre o comportamento sexual adequado entre dois adultos!

Qualifica como pecado mortal uma infinidade de miudezas, comportamentos, pensamentos, crenças, práticas e… pasmem! TODAS ELAS estão devidamente DENTRO DO CONTEXTO HISTÓRICO DA ÉPOCA.

Mas, então, por que, no que tange ao apoio divino à escravidão, Deus simplesmente se deixa limitar pelo tal contexto?! Não faz sentido, não é coerente, não é justo nem divino.

Nunca, jamais, em tempo algum, um Deus poderia ter permitido a escravidão, tê-la regido, avalizado, premiado e ainda assim contar com o amor irrestrito dos seres humanos, escondendo-se sob o “contexto”, o “mistério divino”, a “interpretação falha do ser humano”. Nunca.

Assim como Deus não condena o estupro, a pedofilia, as desigualdades sociais, a dominação de um povo pelo outro (“dai a César o que é de César” – disse Jesus, e ainda há os que o têm na conta de um revolucionário social! Humpf!), Deus também se abstém de ser um Deus de todos, um Deus de toda a humanidade, escolhendo a princípio um só povo e ordenando a matança dos demais; depois, descaradamente envia seu filho para ensinar que “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho Unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”; e, para completar o carismo de pau, dá aos apóstolos e seguidores de seu filho a missão de anunciar a Boa Nova: Cristo ressuscitou! Creia ou morra!

É uma “Boa Nova” ameaçadora, autoritária e claramente cruel.

E ainda continua pregando que escravos devem permanecer escravos…

Que Boa Nova é essa em que injustiças e crimes continuam a ser defendidas e ensinadas pelos ensinamentos bíblicos, tanto no Velho quanto no Novo Testamento, em que não há menção alguma de condenação eterna para os escravistas, homofóbicos, estupradores, pedófilos, racistas?

É uma “Boa Nova” que mantém o status quo, que não desfaz os erros e crimes humanos das elites nem dos dominados, não desfaz os equívocos do malfadado contexto nem liberta os oprimidos desse contexto. E isso permite que líderes religiosos e seguidores apoiem-se nela para manter os escravos calados, submissos e odebientes e os criminosos, livres, salvos e respaldados pela Palavra de Deus, sim, senhor.

E quanto à Igreja Católica? O Papa João Paulo II pediu desculpas pelos crimes e pela cumplicidade da ICAR aos sistemas escravistas, pediu desculpas pelos escravos que a ICAR possuiu, torturou e matou.

Bem… Não realmente; ele pediu desculpas “pelos erros dos filhos da Igreja Católica que se afastaram do espírito de Cristo e seu Evangelho”. Justificou-se com a velha história do contexto histórico e do pecado dos homens, como se a aprovação da escravidão não viesse diretamente do seu Deus.

Como se a Bíblia não permitisse-a, como se a interpretação da Bíblia tivesse sido equivocada e “não, não… é claro que nós erramos e que nem Deus, nem a Bíblia, nem Jesus, nem Paulo estavam apoiando a escravidão. Você precisa entender que o mundo era diferente e que os homens são falhos…”

Bem, a resposta é NÃO. Não há o que interpretar de forma benevolente nessa questão; não há contexto que valide um deus condenar o sexo homoafetivo e não condenar a escravidão. Não há nenhuma justificativa, pois lembre-se: TUDO que está escrito na Bíblia foi escrito sob a inspiração divina, logo, não há lugar para erros como esses.

TODAS as religiões abrâmicas estabelecem, através da Bíblia, não só que escravizar outro ser humano não é pecado, nem condenável, nem merece sequer menção desfavorável, como ainda ensinam que escravistas merecem milagres, homofóbicos ganharão o Paraíso, machistas estão certíssimos e estupradores e pedófilos são incentivados, nunca penalizados, desde que não haja perda financeira para os escravistas, o pai da estuprada ou para as religiões (indenizações por danos irreparáveis às vítimas dos padres pedófilos).

Repito: Não citarei versículos. Estamos todos carecas de saber de tudo isso.

A Bíblia é o Livro Sagrado de um deus. Como seguir, conhecer, defender, respeitar e amar um deus cujo livro você não leu? Para não crer no deus bíblico não é necessário nenhum argumento, nenhuma tese de Mestrado nem nenhuma mágoa ou revolta contra este personagem fictício.

Basta ler sua dita Palavra e confrontar as afirmações das religiões e de seus defensores de que tudo de ruim no mundo é falha humana, de que Deus não tem culpa de nada e de que uma coisa é o contexto histórico e outra coisa é o Plano de Deus.

Lendo-se a Bíblia num exercício de lógica, levando a sério como nenhum religioso jamais levou a suposição de que ela é a Palavra de Deus, qualquer um se defronta com a total impossibilidade de existir um deus como aquele lá descrito.

Não há como um deus agir daquela forma, falar daquela forma, promover crimes hediondos como aqueles e omitir-se de ser o que alega ser: um deus todo poderoso, criador de tudo e com um propósito final benevolente de salvação eterna para toda a humanidade.

Leia os links:

Sobre Deus não condenando a escravidão, não classificando-a como pecado, nem sequer orientando para não escravizarmos as pessoas e também sobre Deus ordenando a captura de meninas virgens para servirem de “esposas” para os homens de seu povo:
https://www.bibliaonline.com.br/
Sobre Jesus em Cafarnaum, premiando a fé de um escravista e evitando seu prejuízo financeiro:
http://www.rmesquita.com.br/sete.htm
Sobre Paulo, os escravos e a obediência aos senhores:
http://bibliaportugues.com/1_corinthians/7-22.htm
Sobre o pedido de perdão da ICAR, pelos crimes e erros de seus filhos, e não dela mesma ou do próprio Deus ao se omitir no assunto ou ao citá-lo como algo natural, sem horror algum:
http://www.veritatis.com.br/…/7178-sobre-os-pedidos-de-perd…
Sobre a atuação da ICAR referente à escravidão colonial:
http://arquivo.geledes.org.br/…/1807-1452-55-quando-portuga…
Sobre interesses econômicos disfarçados de religião, no que tange à aprovação da ICAR à escravidão no Período Colonial:
http://www.revistadehistoria.com.br/secao/…/o-injustificavel
Sobre as ordens religiosas e a escravidão negra no Brasil e as justificativas para a escravidão:
http://www.cerescaico.ufrn.br/…/st_t…/pdf_15/robson_st15.pdf
Sobre as Bulas papais que autorizam a escravidão e o assassinato dos infiéis:
http://pt.scribd.com/doc/149717554/bULAS-PAPAIS#scribd

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