O que é necessário para se ser ateu?

Por Jacqueline K

Ateus não precisam ser cientistas, não precisam ser de esquerda, não precisam ser feministas, defensores dos direitos dos animais, doadores de órgãos, sangue ou ainda ser humanistas.

Não, realmente, ateus não precisam ser nada disso.

A palavra “precisar” indicaria pré-requisitos para se ser ateu e determinaria o ateísmo como algo mais do que a simples não crença em um ou mais deuses.

Que é o que o ateísmo é, todos estamos carecas de saber, não é mesmo?

Então, por que é necessário tantas vezes que repitamos o conceito de ateísmo, mesmo para ateus e não só para religiosos?

Por que tantos ateus e mais ainda religiosos teimam em expandir o conceito da não crença em um ou mais deuses? E determinar ou apontar o que seria um “ateu de verdade”?

O que confunde muita gente, na minha opinião, é que muitos dos ateus são, por opção, cientistas, de esquerda, feministas, defensores dos direitos dos animais e humanistas igualitários.

(Não nos esqueçamos de que muitos religiosos também são tudo isso, mas vamos lá, sigamos sobre os ateus).

A pergunta do primeiro parágrafo já foi respondida, ok.

Deixem-me formular algumas outras que talvez nos ajudem a entender o porquê do conceito de ateísmo ser confundido ou expandido assim:

Por que alguém que não crê que um livro é a palavra de uma divindade seguiria o que este livro diz, mesmo que seja algo anti-ético, imoral e até desumano? Muito mais coerente seria não segui-lo, não é?

Por que esse descrente desse livro e de toda a mitologia ao redor dele defenderia o modo de pensar expresso ali, ainda que seja um modo de pensar da Idade do Bronze, de um tempo histórico anterior aos grandes avanços das ciências, moldado por mentes desaparelhadas para compreender o corpo e o cérebro humanos e seus funcionamentos?

Muito mais produtivo seria questionar esse modo de pensar, diante de uma fonte dessas, concordam?

Por que uma pessoa que não acredita que existe um ser superpoderoso e invisível em algum lugar a observando e julgando todas as suas ações e pensamentos do ponto de vista de uma sociedade ainda em formação, viveria e pensaria de acordo com as regras risíveis, os conceitos pseudo-científicos e os preconceitos terríveis desse mesmo ser invisível, em detrimento do uso de seu poder de raciocínio?

Não seria, digam-me vocês, muito mais racional permanecer cético também sobre a validade dessas regras e preconceitos? E não só sobre a existência de quem os teria formulado?

Chega de perguntas, quero tentar promover aqui algumas reflexões sobre todos os preconceitos que perpetuamos em nós (ateus) e ao nosso redor, os quais muitas vezes defendemos com uma certeza e um afã dignos de um fanático:

Que tal essa: Existem ateus que, uma vez libertos da crença no Deus judaico-cristão, desenvolvem um pensamento contrário aos ditames desse deus, já que vivem em uma sociedade cristã e percebem, através do uso de sua razão, que não faz sentido algum seguir as ideias inverídicas de um personagem como aquele.

E mais uma: A nossa sociedade, por ser de maioria cristã, está indissoluvelmente atrelada à ideologia imoral, racista, machista, homofóbica e autoritária da Bíblia em todos os nossos vários segmentos sociais, como famílias, escolas, ambientes de trabalho, produção cultural, decisões políticas e em tudo mais. Muitos ateus ainda não se libertaram desta influência condicionante e não percebem que trazem em si uma das piores facetas da religião cristã.

Ou essa aqui: Os tabus sexuais, a homofobia, os preconceitos de etnia, as desigualdades de direitos entre os gêneros, a desconfiança com o saber científico, a desvalorização dos portadores de necessidades especiais e a visão de que os animais existem para servir à espécie humana são ideias defendidas pelo livro sagrado do Cristianismo e fazem parte da bagagem cultural de todo cidadão brasileiro, já que estamos inseridos nessa sociedade contaminada por essas ideias bíblicas.

Muitos de nós percebemos isso e nos tornamos ou tentamos nos tornar pessoas melhores. O que passa pela rejeição do pensamento religioso.

Diante dessas perguntas e dessas reflexões, não há surpresa alguma, para mim, que nós ateus sejamos confundidos com humanistas, dentre outras coisas.

Não é que seja preciso, indispensável, exigido ao ateu ser cientista, de esquerda, feminista, defensor dos direitos dos animais ou humanista, ou outra coisa qualquer. Não, não, não.

É que faz todo o sentido do mundo, na minha sincera e esperançosa opinião, ser ateu e aomesmo tempo despertar para os direitos humanos de igualdade, solidariedade e empatia.

Afinal, se não cremos no deus judaico-cristão (e em nenhum outro), por que faríamos como “Deus” e pensaríamos o mundo, a política, a Ciência, o sexo, o aborto, os direitos humanos, as mulheres e os homens, os heterossexuais, gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros, os negros, os índios, as pessoas em geral e os animais, tudo, tudo, tudo sob uma perspectiva sectária, segregacionista, autoritária e imoral? E não sob a perspectiva humanista?

Vocês são ateus e não creem em deuses.

Não creem no Deus Pai, no Deus Filho, ou no Espírito Santo.

Vocês não precisam ser humanistas, meus amores.

Mas eu torço para que vocês se rebelem.

E escolham ser.

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