A formação da personalidade – Fé como terapia?

Por Lucas Berlarmino

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Em uma conversa com um amigo religioso debatíamos sobre qual era sua visão sobre oração – “Sempre fui explosivo. Todas as vezes que me ocorria algo que fosse contrario a vontade de Deus, que fosse a carne, a tentação tomando conta de mim, me punha a orar. Deixava assim o espírito santo tomar conta de mim. Era tomado pela calma. Se alguém me tirasse à seriedade, antigamente eu não pensava antes de agredir, mas hoje, oro, fico calmo e tenho a consciência de que faço a vontade de Deus. Em 100% das vezes isso me trás alegria. Oro todos os dias – para dormir, levantar, e assim permaneço calmo e em paz!”.

Tomado pela vontade incontrolável de explicar cientificamente o que todas as religiões chamam de paz de espírito, escreverei hoje sobre a formação da personalidade e porque a oração faz tão bem.

Para começar precisamos entender que a formação da personalidade se dá inicialmente logo que ocorre a fecundação. O feto já ira carregar em seu DNA características da personalidade do pai e da mãe.

Utilizarei de uma analogia para explicar. Imagine que culturalmente vivamos em uma sociedade selvagem. Suponhamos que em nossa tribo destaca- se em sucesso de reprodução aqueles que sobressaem- se em agressividade. Que dependemos de ser agressivo para sobreviver. Se nessa cultura nascer um filho que não carregue uma característica de personalidade selvagem, possivelmente não terá melhores chances de sobreviver.

Uma suposição para que entendamos que a herança de personalidade demanda ao favorecimento de características aleatórias em favorecimento de reprodução e sobrevivência, o que nos levaria ao gene da fé discutido em meu primeiro texto “Sobre a fé – Precisávamos? Precisamos?”( https://aasaoficial.wordpress.com/2014/11/13/sobre-a-fe-precisavamos-precisamos/comment-page-1/ ).

O lobo frontal do cérebro é o responsável pelo controle da personalidade. Sua formação só se da por completa na fase adulta, enquanto a fase não chega à personalidade pode ser mutável, influenciada de acordo com o ambiente e experiências até a fase da adolescência.

Aqui temos um grande problema a resolver. Uma criança possui diversas interrupções de sinapse, isso se dá pela neurogênese (formação de novos neurônios), ao mesmo tempo em que existe uma grande neuroplasticidade (capacidade do sistema nervoso de mudar, adaptar-se e moldar-se a nível estrutural), para que a criança forme memórias e aprenda.

Tudo isso gera uma personalidade um tanto quanto confusa. Crianças agirão de maneira diferente a acontecimentos rotineiros similares, por exemplo, ao se deparar com uma situação em que ficaria estressado, dessa vez dará risada.

Um estudo demonstrou que enquanto adultos conseguem identificar emoções alheias, os ABORRECENTES ou adolescentes, possuem uma grande dificuldade em identifica-las. Isso se dá, pois na fase da adolescência, a personalidade volta às conturbações da infância – falha de sinapse, distúrbios emocionais e a parte do cérebro responsável pela razão ainda não formada, impossibilitam a analise critica de emoções, como provou um trabalho realizado por Deborah Yurgelun-Todd, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. No estudo, todos os adultos analisaram corretamente as emoções exibidas em retratos de algumas faces a eles apresentadas. Entre os adolescentes, só a metade acertou. O resto viu tristeza onde, na verdade, a expressão era de medo. Ou seja, entre outras coisas, eles podem enxergar raiva ou desinteresse onde decididamente esses sentimentos não existem.

Quem de nós nunca julgou nossos pais quando adolescentes?

Não compreendendo que na verdade nosso ponto de vista é que podia estar errado. Nossa dificuldade em interpretar suas emoções nos levava a um pré- julgamento, que a meu ver, demonstra o fato de adolescentes buscarem abrigo em grupos que o aceitem, estando dispostos à má influencia somente por achar que os pais não o compreendem.

Voltemos agora ao assunto principal do dia – oração como terapia.

Temos agora um individuo na fase adulta. Seu lobo frontal já formado tornou sua personalidade imutável em longo prazo. Esse individuo desenvolveu uma personalidade “forte com características de explosão”.

No transito costuma fechar outros carros e ser o que nossa sociedade chama “sem educação”, porém quando é ele que está sendo fechado, perde a cabeça. Altera-se rapidamente e quando percebe já está com o vidro baixo e falando palavrões.

É possível mudar a personalidade depois de adulto?

Em longo prazo não!

Como disse antes a personalidade forma-se apenas até o final da adolescência, mas em curto prazo sim. A solução está em formas terapêuticas.

A personalidade já formada fez com que o individuo ao ser fechado por outro carro tomasse a atitude sem analisar, sem tomar consciência de que “explodiu” (podendo perceber analiticamente que sua atitude não foi respeitável e podendo ter até vergonha posteriormente).

A personalidade é desencadeada pelo inconsciente (95% do cérebro), não é preciso pensar para explodir, mas é preciso pensar para não explodir.

Para que curemos nosso amigo “estouradinho” precisaremos que ele tome consciência de que inconscientemente tem ataques de raiva.

Suponhamos que ele perceba que sua personalidade é dessa forma e que não gostaria de ser assim. Portanto passa a buscar meios de ajuda. Os fins terapêuticos podem ser encontrados em massagens, meditações, florais, homeopatia e, claramente, ORAÇÕES – nada mais do que PLACEBO (mas sabemos que placebo funciona).

Tais medidas visam externamente contribuir para que se tome consciência e que apoie a cura interna. Suponhamos que hoje ao adentrar ao veiculo decidiu ouvir uma musica tranquila, após colocar o cinto de segurança fez questão de falar consigo – “Vou ficar tranquilo hoje no transito, se me fecharem vou fingir que nada aconteceu e entenderei que talvez existam pessoas com pressa e que esta é inimiga da perfeição”. Dessa vez, ao ser fechado, trazia a consciência de sua personalidade, refletiu e controlou-se. Sentiu-se bem, superou um obstáculo. SUPEROU A SI MESMO!

Orar, acreditar no horóscopo positivo do dia, fazer acupuntura, ouvir o pastor ou deixar a vidente ler as mãos, o fez superar o que não gostava em si mesmo. Percebeu que quando fazia algo de ruim, precisava buscar algo de bom.

Sam Harris, ateu, filósofo e neurocientista, acabou de lançar nos EUA o livro WAKING UP (Despertando), defendendo que a espiritualidade é uma coisa e a religião outra. Harris entende como espiritualidade a descoberta de sentimentos e sensações cuja origem é a natureza da consciência por meio de introspecção.

Colocarei no final do texto suas dicas para obter espiritualidade, que nada mais é do que a compreensão de si mesmo e o autocontrole.

A personalidade formada pode ainda explicar a dificuldade em questionar as próprias crenças. Estas, fixadas cultural e tradicionalmente, corroboradas pelas experiências de épocas em que hormônios e processos químicos confundiam as conclusões.

Orar faz bem sim, mas isso não prova nada. Nossa mente é uma maquina e nosso cérebro insiste em buscar padrões. Buscamos explicações até para o que não existe explicação. O cérebro quer entender, se não entende, não admite. Faz questão de inventar.

Nunca confie em seu cérebro.

NUNCA!

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REFERÊNCIAS

SAM HARRIS – Dicas para desenvolver espiritualidade:

http://www.paulopes.com.br/2014/12/harris-sugere-a-ateus-exercicio-para-obter-espiritualidade.html?m=1#.VJIQyNLF-t9

Deborah Yurgelun-Todd, da Universidade de Harvard, nos EUA – estudo sobre dificuldade de adolescentes em reconhecer emoções alheias:

http://www.abead.com.br/clipping/exibClipping/?clipping=1781

 

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