NA IDADE MÉDIA A TERRA ERA PLANA

Por Victor Rossetti 

Terra plana

Terra Plana segundo a Idade Média

A ideia de Terra plana foi bastante comum na Grécia antiga e persistiu até o período clássico (Idade do Bronze, Idade do Ferro do Oriente Médio e período helenístico).

Também foi comum na Índia (primeiros séculos d.c) e na China até pouco tempo, no século 17. Há descrições da mesma ideia em culturas indígenas americanas com uma cúpula do firmamento cobrindo a Terra nas sociedades pré-científicas.
O pensamento grego influenciou muito, e enormemente a forma de pensar do Ocidente em praticamente todas as áreas do conhecimento: política, ética, ciência, lógica, filosofia, arte e muito mais, incluindo aí a toda poderosa religião Cristã.

A ideia de Terra Plana na Idade Média ocorreu sim, ao contrário do que afirma textos criacionistas. Embora ela não tenha sido unanimidade, ela foi defendida por nomes importantes do cristianismo. Por exemplo, muitas das referências de Agostinho (354d.C – 430d.C) para o universo físico implicam na crença de uma Terra Plana, inclusive se referindo a parte inferior do universo. Em uma de suas falas, Agostinho defendia:

“And, indeed, it is not affirmed that this has been learned by historical knowledge, but by scientific conjecture, on the ground that the earth is suspended within the concavity of the sky, and that it has as much room on the one side of it as on the other: hence they say that the part that is beneath must also be inhabited. But they do not remark that, although IT BE SUPPOSED OR SCIENTIFICALLY DEMONSTRATED THAT THE WORLD IS OF A ROUND AND SPHERICAL FORM, yet it does not follow that the OTHER SIDE OF THE EARTH IS BARE OF WATER; nor even, though it be bare, does it immediately follow that it is peopled”

Diodoro de Tarso (394 d.c) defendia a ideia de que a Terra fosse plana com base nas escrituras sagradas. Diodoro foi um bispo cristão, reformador do monasticismo e teólogo. Um forte aliado da ortodoxia no Primeiro Concílio de Niceia. Ele teve um papel central no Primeiro Concílio de Constantinopla. Fundou um dos mais influentes centros do pensamento cristão da igreja antiga. Sua posição quanto a Terra Plana foi uma retórica a Fócio.

Alegar que a ideia de Terra Plana é uma criação exclusivamente feita por anti-religiosos ou biólogos evolucionistas para “queimar o filme” da igreja é falaciosa. Isso porque até hoje existe uma sociedade que defende esta ideia. A Flat Earth Society, ou Sociedade da Terra Plana é assumidamente criacionista e segue um posicionamento literal absoluto quanto o que esta escrito em Gêneses. A alegação deles é de que as fotos tiradas por satélite são manipuladas para disfarçar a Terra Plana. Sim, segundo eles o mundo conspira contra o criacionismo.

Você pode se aliar a turma da Terra em formato de pizza ou na versão do povo do Alaska. Os hebreus, usaram muitos textos sagrados, que hoje fazem parte da Bíblia, e metáforas que levaram e ainda levam estudiosos a crer que a Terra fosse plana, ou que ela tem 6 mil anos, ou que tudo foi criado em seis únicos dias.

terra plana

Uma das interpretações que leva as pessoas a acredita que a Terra é plana é a citação bíblica dos “quatro cantos da Terra”, embora também haja passagens que são usadas para provar o contrário.
Na idade média, alguns membros da Igreja católica publicaram trabalhos que defendiam a ideia de uma Terra plana. Um deles foi o monge Cosmas Indicopleustes, que trocou o comércio pelo hábito, escreveu no ano de 547 o livro chamado “Topografia Cristã” no qual expunha sua visão geográfica do mundo baseada em interpretações literais da Bíblia. Ele desdenhava a opinião de Ptolomeu e outros que acreditavam que a Terra era esférica. Cosmas buscava provar que os geografos pré-cristãos estavam errados ao afirmar que a Terra era esférica afirmando ao invés disso que ela fora modelada no tabernáculo, o templo descrito a Moisés por Deus durante o Êxodo do Egito. Apesar de na mesma época já existir diversas evidências e cálculos matemáticos demonstrando uma terra esférica. Ele defendia que a Terra era plana e coberta por uma cúpula, o firmamento citado na Bíblia.

O que não faz sentido é a interpretação literal de Gêneses que se da até os dias de hoje. A citação do firmamento cobrindo a Terra não é interpretada de forma literal, dada á bizarrice que seria acreditar nisso nos dias de hoje, mas a interpretação literal de 6 dias de criação e uma Terra de 6 mil anos é mantida, ainda que haja evidências tão fortes quanto uma Terra esférica.

venus

Isso nos faz pensar que a interpretação literal de Gêneses não segue um critério bem definido e é meramente seletiva por parte de pastores, e especialmente no criacionismo e defensores do Designer inteligente.

Aristóteles dizia que não é tradição que é nociva, mas sim o comodismo. Razão pela qual se justifica que a alegação de que a Terra é plana não é uma manobra conspiracionista de darwinistas ateístas, mas sim a exposição de um pensamento (ainda que não generalizado) que foi relativamente comum na idade média.

Não deve demorar muito tempo para dizer que o “Geocentrismo” foi uma criação darwinista, ou que a ideia da Cúpula de Cosmas, ou a Terra Jovem de Jame Ussher foi uma invenção ateísta e todo tipo de conspiracionismo que supostamente faz de vítima os cristãos da idade média.
A ideia de Terra Plana não era absoluta na Idade Média, mas muitos líderes religiosos importantes a defendiam, e com uma justificativa teológica, bíblica, literalista, declarada e claramente absurda!

Outro defensor da Terra Plana foi o padre Lactâncio (265-345.d.c) conselheiro do imperador cristão Constantino I. Seus argumentos eram igualmente baseados em interpretações literais de metáforas bíblicas. Theodoro de Mopsuestia (350-430) também era defensor da Terra Plana e estudou na escola de Diodoro. Era considerado um ortodoxo e muitas de suas citações bíblicas foram posteriormente consideradas heréticas.

Severiano, Bispo de Gabala (408d.C), escreveu que a Terra era Plana e o Sol não passa debaixo dela de noite, mas percorre pela parte de trás do norte. Ele pertencia à Escola de Antioquia de exegese e suas interpretações eram completamente literais e defendia a canonização dessas ideias.

Referências

* J. L. E. Dreyer, A History of Planetary Systems from Thales to Kepler. (1906); unabridged republication as A History of Astronomy from Thales to Kepler (New York: Dover Publications, 1953).
* Leo Ferrari, Cosmography, in Augustine through the Ages: An Encyclopedia, William B. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids MI, 1999, p.246
* Leo Ferrari, Augustine’s Cosmography, Augustinian Studies, 27:2 (1996), 129-177.
* O mito da Terra plana. por Widson Porto Reis , em 30/03/03
* Russell, Jeffrey B.. The Myth of the Flat Earth American Scientific Affiliation. Página visitada em 06/05/2011
* Dreyer, J.L.E.. A History of Planetary Systems (em inglês). [S.l.: s.n.], 1906. p. 211-2.
* O papel de Lactâncio é examinado em detalhes em Elizabeth DePalma Digeser. The Making of a Christian Empire: Lactantius and Rome (em inglês). [S.l.: s.n.], 2000.
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