CASAMENTO HUMANISTA SECULAR E OUTRAS ‘COSITAS’ MAIS.

Por Sergio Viula*


casamento aasa coluna do viula

“Quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca-vergonha.” – Luis Fernando Veríssimo

Os números são referentes a 2013. Para cada mil casamentos, três são uniões civis entre pessoas gays. Dados mostram que o Brasil teve mais casamentos e menos divórcios. Para quem pensava que a família poderia estar em perigo (resta saber o que esse povo tem na cabeça além de titica de galinha), o profeta Luís Fernando Veríssimo demonstrou ser mais exato do que qualquer profeta bíblico ou vidente de plantão.

Essa foi a primeira vez que o IBGE divulgou dados sobre o casamento gay no Brasil, mas não podemos esquecer que no Censo de 2010, o instituto já havia identificado mais de 60 mil casais homoafetivos no Brasil. E nem havia a decisão do Supremo Tribunal Federal para equiparar as uniões civis (2011), muito menos a normatização do Conselho Nacional de Justiça (2013) para que os cartórios fizessem casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo usando os mesmos trâmites que são usados para casais de sexos diferentes. O que aconteceu foi que essas pessoas passaram a ter o direito de legitimar suas uniões ou casamentos nos padrões do registro civil.

O Estado que tem a maior Parada do Orgulho LGBT do Brasil também é o recordista em casamentos homoafetivos: São Paulo! O segundo é o Rio de Janeiro, mas bem longe.

O total de casamentos homoafetivos ou de parcerias civis realizados em 2013 foi de 3.701. Isso representa 0,35% do total de casamentos no país, mas esse número tende a subir. Com a popularização das informações, muitos casais que já estão juntos há algum tempo estão procurando o reconhecimento legal de suas uniões/casamentos.

Um dado muito interessante é que a maioria dessas uniões homoafetivas no país em 2013 foi entre mulheres: 52%.

O total de casamentos no ano de 2013, seja entre pessoas de sexos iguais ou de sexos diferentes, foi de 1,052 milhão. Isso significa que foi 1,1% maior do que em 2012.

Já número de divórcios diminuiu. Foram 16.679 separações a menos em 2013, uma queda de quase 5 % em relação ao ano anterior. Ou seja, mais gente se casando e menos gente se divorciando. Não só isso, mas tem mais gente casando pela segunda vez do que em anos anteriores. No ano passado, o recasamento representou 23% do total das uniões. Dez anos antes, significavam 13% (Com informações do G1, edição do dia 10/12/14).

Fundamentalistas reacionários dão tiro no próprio pé

Uma das mais sórdidas tentativas das igrejas evangélicas fundamentalistas e de algumas alas ultraconservadoras da igreja católica foi apelar à ideia de casamento como sacramento. E se é sacramento, cabe à igreja decidir a quem o concede. Isso não funcionou, porque estava claro que a luta era pelo direito civil e não pela teatralização religiosa das uniões.

Depois, eles tentaram usar o argumento de que as igrejas que não admitem realizar casamentos homoafetivos acabariam sendo obrigadas a fazê-lo. Outro blefe. Igreja nenhuma é obrigada a casar quem quer que seja. Vide a igreja católica que não faz casamento de divorciados com outra pessoa solteira, viúva ou divorciada, porque não reconhece o divórcio, para início de conversa, considerando o casamento indissolúvel. Apesar da legislação brasileira garantir o novo casamento, nenhum casal onde um dos cônjuges ou ambos sejam divorciados terá cerimônia de casamento feita numa paróquia qualquer. O mesmo princípio de autonomia eclesiástica vale igualmente para casamento, batismo ou cerimônia fúnebre. Quem não pode negar isso é o Estado e seu aparato. O blefe ficou tão patente que aqueles que tentaram usa-lo pagaram de pateta.

É muito interessante ver essas igrejas tentarem “vender seu peixe” desonestamente para, no final das contas, apenas perderem mais e mais ‘clientes’. E para quem não faz a menor questão de ter a mão ensebada de um padre ou de um pastor sobre suas cabeças, distribuindo supostas bênçãos e mais supostamente ainda chancelando seu amor, aí vai uma sugestão bastante interessante: Casamento humanista secular.

Mas o que acontece numa cerimônia como essa?

Cada cerimônia de casamento humanista (não-religioso) é única e é criada especialmente para cada casal em particular. Isso significa que não há script definido ou estrutura fixa. O celebrante é quem guiará os nubentes por diversas possibilidades, decidindo em conjunto como criar uma cerimônia que se encaixe nas circunstâncias de cada casal.

Apresento aqui um exemplo sugerido pela British Humanist Association (Associação Humanista Britânica), mas ninguém é obrigado a seguir esse modelo. Pode ser apenas um ponto de partida para pensar a cerimônia que vocês desejam como casal.

Exemplo de uma Cerimônia Humanista de Casamento

  • Chegada do casal (individualmente ou juntos)
  • Apresentações e boas-vindas
  • Palavras sobre amor e compromisso a partir de uma perspectiva não-religiosa
  • Leitura de um poema
  • A história do casal – como se conheceram, seus valores, e esperanças para o futuro
  • O que o casamento significa para o casal
  • Leitura de um poema ou entoação de uma canção
  • As promessas ou votos do casal
  • Ato simbólico significativo (por exemplo, entrelaçamento das mãos)
  • Troca de alianças
  • Pronunciamento dos noivos como casados
  • Palavras ou votos de felicidade
  • Encerramento e saída

Claro que é sempre bom lembrar que o que vale é o casamento no cartório. Todo o restante é apenas protocolo social e celebração do casamento já realizado. Agora, há casais que dispensam os papéis e se casam tão-somente nesses moldes ou em outros, ou seja, simbolicamente. Isso quer dizer que não serão oficialmente considerados casados para fins jurídicos. Entretanto, cada um deve ser livre para decidir como viver seu amor ou seus amores – casando oficialmente, casando simbolicamente ou não fazendo qualquer cerimônia matrimonial.

Por um lado, o direito de legitimar a união não é uma obrigação. Por outro, não pode ser negado a nenhum ser humano que esteja desimpedido de união anterior. Isso é um direito humano!

 

Declaração Universal dos Direitos Humanos

Artigo 12

Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.


Artigo 16

Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.

  • 1.     O casamento não será válido senão como o livre e pleno consentimento dos nubentes.
  • 2.     A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.

Ah, e sobre o divórcio, antes que eu me esqueça.

O casal que se divorcia amigavelmente e sem disputa por bens ou pela guarda de filhos pode procurar seu advogado e fazer efetuar o divórcio em cartório num único dia. Aliás, esse foi um dos avanços mais recentes nesse sentido no Brasil, porque o divórcio também é um direito fundamental do ser humano.

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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em: https://www.facebook.com/sergio.viula

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2 comentários sobre “CASAMENTO HUMANISTA SECULAR E OUTRAS ‘COSITAS’ MAIS.

  1. Moro fora do Brasil desde e oficializo casamentos na Florida desde 1998. Realmente, mais e mais casais decidem se casar fora de uma igreja, sinagoga, etc. e optam por uma cerimonia que seja personalizada, porem sem conotacao religiosa. Celebro muitos casamentos por ano e agora sou a primeira brasileira a ser nomeada oficializantes da Disney. Acredito na igualdade e no direito de pessoas que se amam casarem e das que preferem nao ter uma cerimonia religiosa, porem que celebrem o amor e a amizade.

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  2. Olá Sergio,

    li sua coluna sobre Casamento Humanista no AA-SA procurando por um celebrante de casamento humanista. Apesar de criados em família católica, eu e minha noiva aos poucos nos afastamos da religião e da crença religiosa e por isso buscamos um casamento não religioso.

    Como ex-pastor, filósofo, pela sua coluna e pela sua posição “ativista” pensamos se você faz esse tipo de cerimonia ou ao menos sabe nos indicar quem possa fazer. Somos do Rio como você, embora o casamento vá acontecer em Niterói.

    Agradeço se puder nos responder, te deixei esse recado no facebook tb.

    abraços

    Luis Paulo e Ciça

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