EVOLUTION VS GOD? – MAIS UMA FALHA FUNDAMENTALISTA – DEIXANDO RAY COMFORT DESCONFORTÁVEL.

Sem título

Introdução

O texto a seguir segue uma análise sobre o vídeo feito por Ray Comfort em que ele estabelece uma série de relações entre conceitos como; darwinismo, ateísmo, fé, evolução, cristianismo, moralidade e designer inteligente.

Aqui veremos que muitas das alegações de Ray Comfort parecem muito mais descontextualizadas com o que realmente ocorre dentro do ambiente acadêmico.

Desde já, deixo o espaço aberto para que Ray possa se manifestar após estas críticas.

– Autor

Raymond Marshall Comfort é cristão, nasceu em 1949 na Nova Zelandia. Comfort afirma que a principal razão da Igreja Cristã existir é a evangelização, e que muitos dos métodos de evangelização utilizados ao longo do século passado produziram falsas conversões ao cristianismo. Ele, muitas vezes usa os Dez Mandamentos para falar sobre o pecado, antes de apresentar o evangelho de Jesus. Comfort fala profissionalmente em igrejas e seminários de evangelismo, e prega em Huntington Beach, Califórnia. É co-apresentador do programa  “Creationism Examiner”

 

– Falsa relação entre Darwinismo e Ateismo

Comfort começa seu vídeo fazendo uma falsa correlação entre darwinismo e ateísmo. Existem muitos evolucionistas que acredita em deus, como Francis Collins. Embora muitas pessoas tenham uma percepção de Deus que não parece ser relacionada a teologia cristã, mas ainda assim vivem com essa interpretação que é sadia e deve ser respeitada. A ideia de que ateísmo e darwinismo estão diretamente relacionados é falsa. Ser ateu não esta necessariamente ligado a ser darwinista bem como nem todo darwinista é ateu. De fato, nem ao menos intelectualidade conduz ao ateísmo. Há pessoas em nosso circulo social que não acreditam em Deus e que não tem formação acadêmica, ou mesmo sequer trabalha na área da ciência. O ateísmo é um posicionamento que independe das afirmações científicas. A ciência só explica o universo e a diversidade de formas de vida sob uma perspectiva naturalista. Ela nunca matou Deus. Ser ateu é mais do que acreditar que o universo e a vida são resultados de processos naturais. Exige muito mais argumentos filosóficos e históricos do que científicos.

É como estabelecer a falsa correlação entre ateísmo e comunismo mesmo sabendo que há comunistas que são cristãos e ateus que não são comunistas. Portanto, Ray Comfort pauta-se numa perspectiva extremamente positivista, de que todo ateu é necessariamente comunista e darwinista.

– Darwinismo é um tipo de fé?

Postular que as espécies se modificam ao longo do tempo e que este é um processo natural não exige fé. Afirmar isto, é demonstrar a fragilidade de uma manobra covarde de pessoas que pretendem estabelecer igualdade na forma com que dois sistemas de construção concebem conhecimento. A ciência a partir de sua metodologia, limitada mas ainda sim coerente e lúdica. Religião se apresenta ligando-se a aspectos morais,  dogmas religiosos e como eles podem nos garantira vida eterna ao lado de um criador. Ciência explica a natureza física do céu (espaço, cosmo), a religião como se vai para o céu (paraíso). Ambos criam conhecimento interpretando o mundo de formas distintas segundo sua metodologia. Portanto, transportar definições de áreas distintas somente causa conflitos conceituais. É como acreditar que a ciência trabalha com dogmas e não com modelos explicativos passivo de mudanças. Ora, paradigma é um conceito extremamente distinto de dogma.

A fé é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação. Exatamente o oposto da proposta científica.  A expressão se relaciona semanticamente com os verbos creracreditarconfiare, apostar, embora estes três últimos não necessariamente exprimam o sentimento de fé, posto que podem embutir dúvida parcial como reconhecimento de um possível engano. A relação da fé com os outros verbos, consiste em nutrir um sentimento de afeição, ou até mesmo amor, por uma hipótese a qual se acredita, ou confia, ou aposta ser verdade. Portanto, se uma pessoa acreditaconfia ouaposta em algo, não significa necessariamente que ela tenha fé. Crer é diferente de acreditar. Crer remete a crença, e deriva da palavra creatore. No inglês acreditar vem de Believe e fé é Faith, conceitos diferentes.

Não existe crente em evolução, existe aposta de que o modelo vigente dentro da biologia evolutiva é valido porque explica muito bem tamanha diversidade de formas de vida existentes hoje na terra nos registros fósseis.

– Evidências da evolução

O fato de não podemos observar a escala de milhões de anos do tempo geológico não significa que ele não exista. Se assim fosse, não poderíamos acreditar na Teoria da gravidade, pois não a vemos fisicamente, não acreditaríamos em bactérias, átomos, moléculas, ar ou qualquer coisa que não podemos ver a olho nu, inclusive Deus. A ideia de que Deus existe é, e deve ser, respaldada pela fé, a crença absoluta de sua existência. A tentativa cristã de relacionar ciência com religião  (o chamado criacionismo) é uma quimera conceitual auto-destrutiva pois substitui a crença em Deus pela fé por uma necessidade absolutista de ver, para se provar que Deus existe e assim crer nele; e por outro lado descaracteriza o que se entende por metodologia científica uma vez que fere premissas de Popper e por não se poder testar Deus dentro de um tubo de ensaio no laboratório. A ciência, metodologicamente é cega para a existência de coisas que não podem ser falseadas, e Deus não pode ser falseavel. Portanto, a crença do Deus de Ray Comfort é meramente intuitiva.

O fato de não vermos o tempo geológico não descarta a evolução, isso é um falso argumento chamado ad ignorantium (apelo a ignorância) e se refere a justificar que se aceite uma determinada proposição visto que ela nunca pode ter sido provada a falsidade, no caso de Deus. Se a evolução for refutada não significa automaticamente que o criacionismo passa a ser vigente. Deus nem uma hipótese científica pode ser. Em outras palavras, para Comfort, o fato dele acreditar que não podemos ver todo o tempo geológico e as transformações básicas da vida já válida o criacionismo (argumento ad ignorantium). Dicotomia reducionista. Pensar assim não é fazer ciência, tão pouco filosofia. É um argumento superficial, baseado no senso-comum, a crença por eliminação.

Em analogia, o fato da polícia não pegar um assassino em flagrante não significa que não houve crime. Ora, as evidências da cena de um crime apontam para o crime, isto é lógico, bem como se apresenta na evolução biológica. Uma cena de crime onde se encontra uma arma, rastro de sangue no chão e entalhes no coro da vítima fornece claramente a evidências de que ali houve um crime. Com sorte, e se feita com competência, uma análise científica pode ainda descobrir a motivação, a causa da morte, as etapas da morte e talvez até traçar um perfil psicológico do autor.

A mesma coisa ocorre com a evolução. O fato de não conseguirmos ver a olho nu grupos inteiros de seres vivos surgirem no tempo geológico não descarta a evolução. Há evidências claras, escancaradas em nossa face de que este processo macroevolutivo ocorre. O DNA, comportamento, morfologia, anatomia, processos desenvolvimentais, fósseis, dinâmica de relações intra e inter-especies declaram isto cotidianamente na frente dos biólogos.

O estudo com as diversas espécies de peixe Stickleback mencionado o vídeo por Paul Zachary Myers da Universidade de Minnesota, ou mesmo estudo com peixes ciclídeos mostra que Ray Comfort aceita a ideia de que esses peixes agora compõem novas espécies, mesmo que ainda continuem a serem peixes.

O fato de continuarem sendo peixe não implica que a evolução não ocorra, afinal, ali houve origem de espécies. O Stickleback da espécie Gasterosteus microcephalus é uma espécie irmã de Gasterosteus wheatlandi mesmo que continuem sendo peixes. Uma barreira de espécie foi transcendida por processos naturais e em alguns milhões de anos esses novos peixes podem (ou não) dar origem a novos grupos.

Tentilhões de galápagos citados pelo grande antropólogo Craig Standford continuam sendo aves, mas mostram diferentes espécies ascendendo de um ancestral comum, portanto, as espécies evoluem, e se evoluem são potencialmente capazes de gerar grupos novos. A olho nu certamente não veremos isto acontecer, mas os fósseis são retratos naturais dessa mudança. Bem como as alterações em regiões específicas do DNA mostram também isto, processos desenvolvimentais etc e tal. Mesmo em períodos pós-catastróficos onde nichos ficam abertos a preenchimento rápido demora cerca de alguns milhões de anos. Após a extinção KT mamíferos e insetos passaram por processos de especiação e radiação que demorou alguns milhões de anos, embora a taxa de diversidade tenha aumentado drasticamente.

Nenhum entrevistado do vídeo fez qualquer menção ao saltacionismo que Ray Comfort gostaria de ouvir ao perguntar como poderíamos ter certeza do tempo geológico se não podemos ver. Afinal, dizer que um grupo de peixes como os Stickleback é capaz de dar origem a um novo grupo completo de novos seres vivos em um espaço de tempo diminuto consistiria em saltacionismo. A citação de Darwin no vídeo deixa isso claro, esses processos são graduais, e portanto podem demorar milhares ou milhões de anos para ocorrer. Sendo assim, não é de se esperar que saltos de grupos sejam vistos. Como disse Darwin e tantos outros antes dele; Natura non facit saltum.

Mas mesmo assim Ray Comfort atira em seu próprio pé. Ao aceitar que Sticklebackconstituem novas espécies já se considera que a evolução ocorre e que grupos podem surgir. Não vê-los a olho nu não significa que eles não ocorram, especialmente considerando as evidências fósseis que mostram transição entre diferentes grupos; baleias, morcegos, antas, tetrápodes, aves e borboletas.

O fato de não vermos borboletas emergindo como um grupo a partir de mariposas não significa que isso não tenha ocorrido. Existem evidências que apontam isso da mesma forma com que a analogia citada acima referente a polícia científica.

Eis um exemplo de como as evidencias apontam para a origem de grupos distintos. Biologicamente se acredita que o os Lepidoptera (mariposas e borboletas) seja um grupo irmão dos insetos da ordem Trichoptera. Isso porque fósseis mostram essa relação. Especialmente os fosseis da extinta família Necrotaulidae.

Existem diversas características que relacionam Lepidoptera e Trichoptera. O grupo das borboletas parece ser formado por um mosaico de sinapomorfias e apomorfias. Apomorfia é um conjunto de características derivadas de uma característica primitivas. Neste caso, as sinapomorfias vem do grupo Trichoptera, e podem ser chamadas de autapomorfias de ambos os grupos (Amphiesmenoptera).

 Segundo um estudo feito por pesquisadores do Museu de História Natural da Dinamarca publicado na Revista Zootaxa as características autapomorficas do grupo são:

Adult (Roman numerals are details in Fig.1): Prelabium fused with hypopharynx (I). Lower posterior corner of laterocervicale produced towards the prosternum (II). Pronotum with paired setose ‘warts’ (III). Prothoracic episterna with unique suture pattern (IV). Secondary furcal arms of pterothorax fused with posterior margins of corresponding epimera (V). Metathorax with setose, presumably proprioceptive, sclerite in wing base membrane behind/below subalare (VI). Pretarsus above claw with ‘pseudempodium’ (strong seta on socket) (VII). Wings with dense vestiture of setae (forerunners of the lepidopteran scales)(VIII). Fore wing anal veins looping up into double-Y formation (IX). One ventral (tentorial) neck muscle originating on fore coxa (X). Conical furcopleural muscle in mesothorax with broad end on pleural ridge (XI). Paired glands opening on sternum V (XII). Male segment IX with tergum and sternum fused into closed ring (XIII). Anterior margin of female segments VIII and IX with long rod-like apodemes accommodating insertions of protractor and retractor muscles of extensible oviscapt (XIV). Note: recent work shows that the interpretation of the female postabdomen in the lowest Amphiesmenoptera is more problematical than hitherto believed, and the apodemes in question may not all be homologous (Kristensen 2003); a particularly intriguing question is whether a three-apophysis-pair configuration (with both dorsal and ventral apophyses originating on VIII) could prove ancestral in Amphiesmenoptera, since three pairs are present in Agathiphaga as well as in the enigmatic recently described caddisfly Fansipangana (Mey 1996). Ventral diaphragm muscles inserting on the nerve cord (XV). Female sex heterogametic (XVI). Chromosome number unusually high (basic number 30–31), chromosomes holocentric and oogenesis achiasmatic (XVII). Spermatozoa with outer accessory filaments thickened, filled with proteinaceous and glycogen-like material (XVIII). Larva: stemmata each with one crystalline cone cell transformed into primary pigment cell, hence in transverse section the cone is seen to be only tripartite. Prelabium and hypopharynx fused into composite lobe with silk gland orifice on apex.

Além disto, estudos comparativos de DNA, metáfase I dos espermatócitos e espermatogênese estabelecem essa relação parental entre Lepidoptera e trichoptera sendo que o ancestral comum entre os dois grupos deve ter vivido no jurássico a cerca de 190 milhões de anos segundo datação por DNA e as estimativas a partir de fósseis.

Para que Ray entenda evolução é preciso que ele saiba que quando um pesquisador diz que grupos derivam um ancestral em comum eles estão afirmando isto baseado em evidências. Assim, apesar de não conseguir ver pessoalmente todo o tempo geológico, isto não é desculpa para que se descarte a evolução, e mesmo assim ela preenche todos os requisitos metodológicos da ciência pura; mensuração, evidências físicas, experimentação e falseamento Popperiano. Não há sequer um fóssil que quebre a sequencia dos grupos biológicos encontrados nas camadas estratigráficas geológicas. Jamais foi encontrado um fóssil de coelho no Cambriano.

Ainda sim, é possível estabelecer correlação entre dois outros grupos distintos, borboletas e mariposas cujo DNAmit, análises comparativas dos genes Wing-less, CO I e II bem como fósseis e grupos primitivos de borboleta (Hedylidae) mostram claramente essa relação histórica compartilhada entre esses dois grupos.

O fato de mariposa ser sempre mariposa, bactéria ser sempre bactéria ou peixe ser sempre peixe não significa que não possam evoluir, as evidências (e não a fé) apontam para a ideia de que grupos como estes podem dar origem a novos grupos em escalas de tempo grandes e a partir de mutações. Não há evidências biológicas, nem mesmo históricas que fomentem o fixismo ou essencialismo que tanto Ray Comfort parece idolatrar.

Um exemplo sociológico; mulheres na década de 30 não votavam. Felizmente, e corretamente hoje podem votar. Talvez nenhum de nós aqui tenha vivido na década de 30, mas sabemos por relatos e documentos históricos que naquele momento mulheres não poderiam votar. Não vivemos na idade media, mas sabemos que a Europa detinha um regramento moral, sociológico distinto do atual, com costumes, doutrinas e linhas de pensamento próprias. As sociedades da idade media tinham sistemas de gestão  político econômico bastante distinto do atual, nem por isso não existiram. O fato de não conseguirmos ver não significa que não há vidências que provem que o passado foi real, as cicatrizes mostram que o passado foi real e o presente é diferente do passado e do futuro. As coisas mudam.

Quando se é cético em relação as mudanças biológicas que ocorrem ao longo do tempo, esse ceticismo é estendido para outros processos que analogamente se transformam ao longo do tempo, a sociedade, as pessoas, os costumes etc e tal.

Ray Comfort se mostra extremamente impuro ao perguntar “Voce poderia me dar algo que eu possa ver, observar e testar no método científico para a mudança de novos grupos na evolução darwiniana?”

Obvio que não, a pergunta é tendenciosa porque pede um salto evolucionário, ou seja, a origem de um grupo a partir de outro em um período de tempo curto. Isso não tem relação alguma com fé cega. Nem mesmo a crença cega em Cristo se chama fé cega. Existe uma diferença básica entre fé e fideismo que Ray atropela sem qualquer tipo misericórdia.

– Designer inteligente

Designer inteligente é a capacidade de criarmos uma rosa a partir do nada? Existe uma diferença entre ser inteligente e dotado de poderes sobrenaturais.

O nada físico e o nada filosófico são coisas completamente distintas. O universo não vem do nada físico. Sob a perspectiva da física quântica, que e a responsável pela explicação da origem do universo, ele vem de uma oscilação do vácuo quântico. Mesmo o vácuo, ou aniquilação de matéria por anti-matéria emite luz, fotos, elétrons que são partículas elementares da matéria. O fato de o universo existir não implica em uma criação divina ou que tenha uma origem especial. Se há um ente divino que sempre existiu é perfeitamente aceitável que o universo tambem sempre ter existido. Assim, nem Deus nem o universo precisam de criadores e cientificamente é considerável a ideia de que o universo não tenha relação com aspectos divinos. Grande parte dessa argumentação cosmológica é defendida pelo criacionista William Lane Craig embora já tenha sido rejeitada pelos filósofos e cientistas. Beltrand Russell questionou com grande classe em seu livro (Porque não sou Cristão). Universo parece ser o efeito de um fenômeno quântico como explica Laurence Krauss abaixo:

– Vestígios evolutivos

Os vestígios evolutivos são características remanescentes que chegam até a fase adulta do organismo. São características homólogas que estavam completamente formadas em um ancestral comum.

Existem muitos exemplos de vestígios na natureza, eles incluem asas reduzidas em aves como o pinguim, olhos reduzidos de peixes e animais de hábitos cavernícolas. Há também ossos pélvicos de baleias, o osso da pelve e membros em cobras.

Geralmente, vestígios  são não-funcionais, mas em aves, que apresentam asas reduzidas como os avestruzes, emas, casuares e kiwis tais apêndices vestigiais adquirem papéis funcionais em equilíbrio e comunicação. Os pinguins e cormorões usam suas asas em uma função locomotora para a propulsão como submarinos. Os ossos pélvicos de baleias podem ser utilizados na comportamento reprodutivo e no caso dos avestruzes, as asas auxiliam no equilíbrio do corpo e no comportamento reprodutivo.

Assim, uma característica vestigial pode ter uma função distinta a da condição natural do ancestral evidenciando a evolução no nível vestigial e exaptativo. Esses eventos evolutivos como os rudimentos e vestígios podem surgir da acumulação de mutações neutras através da deriva genética. Pode permitir que as estruturas e comportamentos percam sua complexidade em associação com a seleção positiva para outras funções.

Um exemplo é a redução concomitante dos olhos e a valorização da linha nervosa lateral e seus gânglios que formam a linha lateral em peixes cegos de caverna como verificado em alguns membros do gênero Astyanax (Veja aqui).

Existem animais que carregam tanto características vestigiais quanto rudimentares. É o caso da serpente Python. Os brotos dos membros em embriões da Python reticulatus são rudimento, mas alguns elementos dos ossos dos membros posteriores chegam eventualmente a afetar adultos, caracterizando vestígios. Isso ocorre porque as cobras evoluíram a partir de um ancestral totalmente tetrápode e porque suas estruturas são homólogas a eles. Elas ainda permanecem presentes nos taxa intimamente relacionados, tais como lagartos, e mesmo de todos os outros tetrápodes.

As garras que compõem os vestígios das serpentes pitons podem ser estruturas neomórficas que desaparecem e em eventuais acidentes podem reaparecer com uma nova morfologia. É difícil precisar como de fato eram as garras dos ancestrais delas já que neste caso não há os fósseis que evidenciam isto. É comum ocorrer esses vestígios neomórficos em mamíferos.

Dentro do grupo dos lagartos squamata a redução de membros ocorreu cerca de 62 vezes em 53 linhagens distintas. Nos lagartos skinkid foi mostrado a redução de tamanho e a perda de elementos que formam os membros. Nos lagartos Skink da Austrália (Hemiergis peronii) ocorreu 31 vezes em 25 linhagens, alguns apresentando dígitos até a fase adulta, um vestígio de digito adicional no quinto dedo. Em borboletas alguns pesquisadores aceitam que borboletas possuem ocelos (diferente das manchas ocelares que ocorrem geralmente nas asas) na porção superior da cabeça, uma vez que só podem ser visto com exames histológicos. Não há vestígios externos e tão pouco funcionais desses ocelos, apenas parte do tecido na porção interna da cabeça.

– Moralidade.

Muitos outros criacionistas estabelecem uma ponte entre corrupção da moralidade e darwinismo. Como se o status de moral fosse exclusivo aos cristãos protestantes.

Ray desconhece realmente a obra e a vida de Darwin. Darwin condenou a escravidão quando passou no Brasil, jamais fomentaria qualquer tipo de atrocidade como as que ocorreram no regime comunista russo ou no Holocausto. De fato, não faz sentido usar o darwinismo para justificar comunismo ou nazismo considerando que são ideológicas claramente antagônicas.

Em um texto chamado Modernidade e Holocausto da filosofa Hannah Arendt ela mostra exatamente o oposto do que Ray Comfort diz em seu vídeo. Ao tentar estabelecer que conceitos morais são estabelecidos por lei ele mostra que não sabe exatamente a diferença entre legalidade e moralidade.

Moral não é estabelecida por determinação governamental. O nazismo deixou isso bem claro, e Arendt expressa isso com muita precisão em seu texto. No texto, ela aponta que embora o regime político nazista tenha estabelecido que seria imoral manter qualquer tipo de vinculo afetivo com Judeus. O povo alemão não conseguia suspender sua relação amistosa com os judeus, considerando que a maioria dos alemães eram vizinhos ou mesmo parentes de judeus. O povo alemão não conseguia suspender as relações emotivas, sociais que tinha com o povo judeu mesmo diante de um governo totalitário determinando o que é moral e o que é imoral. Moralidade não se estabelece por lei, simplesmente são costumes que naturalmente são adotados pela própria dinâmica da sociedade através de transformações no tecido social.  Exatamente como o exemplo citado acima sobre o direito ao voto das mulheres na década de 30 no Brasil, que era algo visto como absurdo.

A ciência explica fenômenos, não justifica atos de barbárie. Pensar no holocausto como fruto de uma manifestação darwinista é uma manobra meramente oportunista de fundamentalistas que reduzem ao absurdo o que realmente Darwin quis dizer com sobrevivencia dos mais aptos.

Da mesma forma com que usaram conceitos da biologia para justificar atos de barbárie no holocausto, usaram o nome de Deus e a igreja católica e protestante, as obras de Wagner e o conceito de super-homem do Nietzsche que nada mais é do que a superação da fraqueza humana, e se tornar um super-homem aquele que compreende sua finitude e determina seu próprio destino. Não há qualquer relação com conceito de superioridade racial, mas de forma descontextualizada e distorcida foi usado para justificar barbárie.

Se isto serve para justificar atrocidade em nome da ciência, ou da filosofia vale lembrar ninguém foi mais cruel do que o cristianismo com sua atuação obscura na idade media, na guerra de Taipin, fomentando ideologias racistas com a Ku Klux Klan. Pensando de forma reducionista como Ray costuma fazer no seu vídeo deveríamos repudiar o cristianismo que trás como símbolo uma pessoa crucificada e um Deus que matou toda a humanidade afogada. Nada mais cruel para uma religião que costuma dar lições de moral. Ray se torna um típico falso moralista, que julga a pessoas pelo que elas acreditam e não pelo que elas realmente são.

 Dizer que o darwinismo fundamenta comportamentos imorais é um equivoco triplo do darwinismo social. 1) é diluir a especificidade da natureza humana a uma natureza genérica, desconsiderando o fato de que somos natureza com atributos próprios que nos definem como espécie (cultura, trabalho, história e etc) 2) acaba forçando o ideológico discurso de orientação liberal de que é natural para a evolução a eliminação dos mais fracos, ou seja, que é eticamente válido a desigualdade socioeconomica e a miséria. Geralmente os criacionistas não sabem o que Darwin quis dizer com evolução por seleção natural como levam as suas alegações para um discurso anti-ético e descontextualizado. 3) ignora o contexto histórico em que Darwin formula os paradigmas dominantes naquele momento de expansão do capitalismo, cultura européia como a única válida e de afirmação das abordagens positivistas cartesianas. Distorcida “biologização” da política e politização da biologia no nazismo, num uso tendencioso da antropologia para justificar a existências de raças ou de desigualdades. Mesmo assim, durante o debate houve criacionistas afirmando que a Eugenia fomentou as ideias de Darwin quando na verdade a Eugenia foi um termo criado posteriormente as ideias de Darwin. Historicamente fica claro que houve uso descontextualizado da ciência para fomentar tais atrocidades.

– Dilema do cão e vizinho

Se ateus são prensados contra a parede por escolher salvar a opção A ou B e isso o torna imoral ou um falso evolucionista vale lembrar que o Deus de Ray Comfort matou a humanidade com um dilúvio. Um Grande exemplo moralidade!!! Guerras em nome do cristianismo foram estabelecidas. O que Ray faria se nesse dilema constituísse de um ateu e um cristão se afogando. Quem ele salvaria? Que conduta ele tomaria para decidir o que é moralmente correto fazer nessa fração de segundos que ele tem entre escolher quem morre e quem vive?

– Espirtualidade

Segundo Ray, o fato de estar vivo é porque você tem alma. Se usarmos a mesma técnica de questionamentos de Ray Comfort onde chegaríamos? Como provar que a alma existe? Considerando hipoteticamente que o criacionismo seja uma ciência, onde método científico se encaixa? Como provar isso fora do método científico? Onde a intuição pessoal do teísta se separar da crença em Deus de tal modo e criar confiabilidade nas suas premissas? Por fim, como é possível existir vida sem o aparato biológico?

O fato de estar vivo não informa se há alma na pessoa. Como definir isto cientificamente? Como usar o método cientifico para dizer que o fato de a pessoa estar viva esta especialmente ligado a alma? É possível viver sem um aparato biológico e unicamente pela alma? Que exemplos reais temos disto?

Recoloquemos a pergunta a Ray Comfort; existe algum ser que esteja vivo sem a necessidade de um aparato biológico e que seja possível ser provado?

-Voce é uma boa pessoa?

Conceito de bondade varia individualmente e socialmente. Na Amazônia é comum o grupo dos Yanomami rejeitar o primeiro rebento se ele for do sexo feminino, ou se a mãe tiver filhos gêmeo, um deve ser abandonado na mata, pois segundo sua traição um possui um espírito bom e outro um espírito mal. Se a criança nasce com má formação é abandonado na mata.

Ray Comfort, seria correto impor a regra do homem branco sobre o sistema cultural dos índios Yanonamis?

Eis uma questão que talvez Ray fosse propor uma catequização indigena, descaracterização da cultura alheia e impor sua falsa moralização cristã. Como podemos ter certeza que o sistema moral proposto por Ray realmente é correto? Quais critérios ele tem ou nós temos para julgar este modo de vida como correto?

O fato de estas escrito em um livro sagrado simplesmente não significa nada. Bagavad gita, Corão e Torah também são livros sagrados dotados de verdades absolutistas, conceitos de moralidade e recheados de barbárie.

O que é o paraíso? Como podemos definir a existência do paraíso? Como temos a garantia de que esse lugar existe segundo a concepção cristã? Ser uma boa pessoal moralmente falando é definido como? Qual é o conceito de bondade para Ray Comfort? É aquele definido pela bíblia?

Ninguém aceita absolutamente todos os aspectos morais definidos pela dinâmica de transformações da sociedade. Sempre haverá divergência entre o que é moralmente correto do ponto de vista individual com o que é moralmente aceito pela sociedade. Simplesmente é uma transformação que ocorre naturalmente. O fato de existirem mulheres exercendo papel de família, votando, ou tendo uma renda familiar maior que a dos homens pode ser moralmente incorreto para o religioso que segue a risca I Timóteo 2 versículo 11 e 12, da mesma forma que a igreja católica condena o uso de preservativo.

Nem Ray Comfort é moralmente correto ou pode se aceitar como moralmente perfeito. Talvez para ele ser moralmente perfeito é seguir fundamentalmente (em um radicalismo extremo) o que a bíblia lhe diz ser moralmente correto. Talvez para ele Deus agiu corretamente matando a humanidade no dilúvio, ou Moises fez certo em matar quem adorou o bezerro de ouro. Será que isso seria moralmente aceito numa sociedade cristã de hoje? Devemos matar o ímpio? Ou será que isso se tornaria mais uma frase que precisa ser interpretada metaforicamente em uma tentativa de mascarar atrocidades cometidas em nome de Deus?

Como Ray Comfort se sairia diante deste questionamento?

Definir uma boa pessoa é um conselho pessoal. Um cristão poderia me definir como uma boa pessoa mesmo eu não acreditando em Deus, porque vê os valores que tenho sãos semelhantes ao dele. Na sua visão, os aspectos educacionais e morais que fazem de mim, me torna uma pessoa possível de se conviver apesar das diferenças. Alguém poderia dizer que sou uma péssima pessoas pelo fato de não acreditar em Deus e dizer que sou moralmente corrompido, como sugere indiretamente o engodo de Ray Comfort. Eis ai o limite entre o que chamamos de tolerância e intolerância. O fato de Ray Comfort ser cristão, não o faz uma má pessoa, talvez fará se ele despertar esse fundamentalismo latente que vem se expressando com esse vídeo. Talvez o fato dele julgar as pessoas pelo que elas acreditam de aval para que as pessoas julguem sua forma de analisar os outros. Alguns certamente o avaliariam pela sua crença, como alguém que segue uma religião cujo símbolo é uma pessoa crucificada e um Deus intolerante a humanidade. Eu certamente não o julgo por este último. Se isto me faz uma pessoa boa, ou justa eu realmente não sei. Vai depender do meu circulo de amizades e como eles avaliam meu posicionamento e minhas atitudes.

Mentiras e o nome de Deus.

Falso moralista. Ray Comfort jamais mentiu? O simples ato de pergunta se falamos o nome de Deus em vão é estar falando o nome de Deus em vão. O problema é que isso não caracteriza blasfêmia.

Blasfemar é usar o nome de Deus para justificar coisas que não são dele. Como por exemplo “Hitchens morreu de câncer por um castigo de Deus”. Dizer o nome de Deus em vão é diferente de difamar o nome de Deus. Ray Comfort não sabe definir corretamente blasfêmia. Seria ele um péssimo cristão?

Ora, se pornografia e cobiçar a mulher do próximo é algo imoral (e realmente é) então os cristãos são imorais também. No Brasil existe um grupo de políticos evangélicos que atropela a laicidade da federação. Neste grupo existem pastores envolvidos em escândalos sexuais, corrupção, e pastores usando sua influência política para ganhar dinheiro ilicitamente e manobrar o povo segundo sua vontade. Cristão fazem sexo fora do casamento ou tem relações extraconjugais. Se vamos nivelar as pessoas pelo que tem de ruim como quer propor Ray Comfort então o cristianismo é tão corrompido quanto o ateísmo. O fato de eu não acreditar em Deus me permitira encontrar diversos desses cristãos falso moralistas no inferno.

– Os dez mandamentos

Realmente precisamos de 10 mandamentos para ser moralmente bem vistos aos olhos de Deus? Talvez aos olhos de Ray sim! De que maneira uma sociedade se transformaria respeitando uma doutrina teocrática? Algum cristão poderia me explicar como isto seria possível do ponto de vista sociológico? Não existe muita diferença entre a teocracia de um país muçulmano e de certos estados americanos. O fundamentalismo é o mesmo.

Se os dez mandamentos funcionam porque então temos de criar leis? Porque a sociedade é dinâmica. Será que Ray Comfort sabe diferenciar legalidade de moralidade e especificamente o que é moralmente correto diante do que diz a bíblia?

E como fazer com países muçulmanos? Devemos catequiza-los como os jesuítas fizeram com os índios do Brasil? Convertendo os outros não estaríamos ferindo seu livre arbítrio?

Grande parte deste discurso falso de Ray comfort exprime um desejo fundamentalista de tornar o mundo uma única nação, um mundo cristão, desrespeitando não somente os ateus, mas todas as religiões do mundo. Isso se chama imperialismo. Quase se faz em nome de deus Jesus eles chamam de cristianismo, quando fazemos por outras motivações eles chamam de nova ordem mundial. A crença de Ray não só doutrina as pessoas, ela domestica pessoas como animais.

Criação prova criador?

A primeira pergunta é; Tudo realmente foi criado?

Como podemos ter certeza disto? E o que permite provar que o mundo foi criado?

Se realmente foi, quem garante que foi pelo Deus cristão? Não é nossa fé ou contribuição histórica cristã que nos faz sentir isto? Foi realmente criado ou sempre existiu? Segundo a religião de Buda tudo sempre existiu.  Porque ele então não é o criador? Se Ray tivesse nascido no Iêmen certamente estaria apresentando um discurso de criação reverenciando Allah cinco vezes ao dia. O EUA é um pais cristão devido sua colonização. Se o império islâmico tivesse colonizado a Inglaterra possivelmente hoje Ray estaria defendendo uma mesquita qualquer. Essas questões parecem inúteis, mas jamais foram respondidas. Alias, foram covardemente abandonas por Thomas de Aquino que pressupôs que tudo foi criado segundo a concepção do Deus cristão.

Parte do texto onde Ray Comfort diz descaradamente que não esta falando sobre religião!

Parte do texto onde Ray Comfort diz descaradamente que não esta falando sobre religião!

O que se segue depois no vídeo de Ray é o velho discurso de conversão, jargões cristãos de que Jesus morreu na cruz para nos salvar e pressupostos da moral universal. Apenas note que o suposto vídeo que deveria ser uma crítica a teoria da evolução se torna um sermão religioso, um discurso que nem sequer pode ser chamado de teológico, mas antes de tudo, proselitista ultra-conservador.

No final, ainda segue com a audácia de falar sobre a bíblia e dizer que não esta falando sobre religião. Tenta projetar igualdade entre ciência e religião alegando que a evolução biológica necessidade de fé, quando na verdade o que vemos descrito acima é que nada tem a ver com fé. Pois fé, tem um sentido próprio, exclusivo a questões religiosas.

Logo abaixo, deixo uma participação de Ray Comfort em uma programa chamado The Atheism Experience para que você tire suas própria conclusões:

Referências bibliográficas

* MARK RIDLEY. EVOLUÇÃO. 3A. ED. PORTO ALEGRE: ARTMED EDITORA,2006
* ALAN C. LOVE. FUNCTIONAL HOMOLOGY AND HOMOLOGY OF FUNCTION: BIOLOGICAL CONCEPTS AND PHILOSOPHICAL CONSEQUENCES. BIOL PHILOS (2007) 22:691–708
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* NIKLAS WAHLBERG, JULIEN LENEVEU, ULLASA KODANDARAMAIAH, CARLOS PEÑA, SÖREN NYLIN, ANDRÉ V. L. FREITAS AND ANDREW V. Z. BROWER. NYMPHALID BUTTERFIES DIVERSIFY FOLLOWING NEAR DEMISE AT THE CRETACEOUS/TERTIARY BOUNDARY. PROC. R. SOC. B (2009) 276, 4295–4302
* NIELS P.KRISTENSEN, MALCOLM J. SCOBLE & OLE KARSHOLT. LEPIDOPTERA PHYLOGENY AND SYSTEMATICS: THE STATE OF INVENTORYING MOTH AND BUTTERFLY DIVERSITY. ZOOTAXA 1668: 699–747 (2007).
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