Explicando causas sobrenaturais: instinto e premonições.

Por Lucas Belarmino

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Todos os dias presenciamos eventos que são considerados extraordinários. Pessoas contam situações sobrenaturais, veem coisas e ouvem coisas. Premonição da morte de um ente querido. Sinais que levam a prever o que está para acontecer ou o que aconteceu a quilômetros de distancia. O livramento de um acidente que traria danos graves ou até a morte. Um parente que se despediu ou o sentir da presença de um espírito. Não sabemos explicar?

Claro que sabemos!

Bem vindos a mais uma quinta-feira em minha coluna!

Meu nome é Lucas, e hoje pergunto: Será que o fato de não podermos explicar plenamente um mistério por meio naturais, significa que ele exija uma explicação sobrenatural?


Cada vez mais a ciência tem se especializado nos eventos sobrenaturais, tornando-os meros eventos naturais.

Hoje trarei à tona a explicação para alguns mistérios do subconsciente.

Começo citando o livro “Cérebro e crença” do psicólogo americano Michael Shermer (2012):

“O cérebro … é uma máquina de gerar crenças. Elas vem em primeiro lugar; é só em seguida que elaboramos as explicações que as justificam”. (p.11) “E, formadas as crenças, o cérebro passa a procurar evidências que as confirmem, desprezando as que as desmintam”. (p.12)

Dias atrás minha namorada após voltar do salão de cabeleireiro contava-me sobre uma conversa dos funcionários.

Disse-me que o dono contou que há poucoperdeu o irmão em um acidente de carro e que naquele mesmo dia, após chegar a sua residência, notou que o gato estava estranho. Mais tarde, ao decidir ir para a cama, o gato que sempre acompanhava-o e deitava no colchão, dessa vez parou na porta do quarto e arrepiou-se todo.

O dono insistiu que o gato viesse,dessa vez chamando-o com um gesto e como resposta o gato arrepiado miou e aparentou extremo estresse. O gato pertencia ao falecido e dormia sempre no quarto dos irmãos.

O dono então sentiu a presença de um espírito no quarto. Pegou o colchão da cama e foi dormir na cozinha. Durante três noites o chão da cozinha foi seu local de descanso e somente no quarto dia, quando ajoelhou-se, pegou a bíblia e pôs se a “fazer uma oração forte”, como ele mesmo citou, conseguiu finalmente adentrar ao quarto e o gato dessa vez o acompanhou.

Querido(a) leitor(a), entenda aqui o seguinte:

Primeiramente, somos escravos de nossos medos. No cérebro, a amígdala, também responsável pela liberação da emoção ligada ao medo, torna-nosextremamente emocionais e deixamos a razão de lado. Portanto, criamos uma explicação para que sustente nossa crença e justifique nosso medo.

Não queremos ser ridicularizados ao expor que não conseguíamos dormir naquele quarto, então criamos uma explicação que leve o ouvinte (também crédulo) a colocar-se no lugar e criar uma empatia à atitude de pegar o colchão e dormir na cozinha.

E o gato? Poderia ter se arrepiado?

Claro.

Ele pode ter se arrepiado da mesma forma que arrepiava-se sempre, porém antes o arrepio não era notado. Pode ser até que não costumava se arrepiar e que tenha feito coincidentemente e exclusivamente daquela vez, mas o cérebro humano, especificamente o que chamamos depadronicidade e acionalização, liga o evento A (o gato arrepiou-se) ao evento B (meu irmão morreu), concluindo que A + B = existe um espírito no meu quarto (crença final).

Posteriormente ao resultado de A + B = motivo do meu medo, o individuo afirma sua crença em alguma divindade, nesse caso Deus, evidenciando subjetivamente sua existência através de que, após os eventos, só conseguiu eliminar o medo, mascarado com empatia dos ouvintes pela explicação anterior, com uma forte oração. Fortalecendo assim a crença de que a entidade a qual ele orou, existe, pois o acalmou e justificando que Deus não se explica, mas se sente.

Agora que demonstrei como criamos primeiro a crença para depois suportá-la com uma explicação plausível, quero demonstrar porque as pessoas acham que foram salvas de acidentes e situações de perigo por Deus.

A história, contada pelo psicólogo Gary Klein, aconteceu em Pittsburgh, nos Estados Unidos.

Frank, um oficial do corpo de bombeiros, liderava uma equipe que combatia um incêndio numa casa. O grupo estava na sala, com a mangueira voltada em direção à cozinha. De repente, Frank sentiu que havia algo de estranho ali. Mesmo sem saber o que era, ordenou que seus homens deixassem o local. Os homens relutaram em sair, não sentiam que precisavam ir embora e acostumados com eventos do tipo discutiram com Frank. O homem insistiu que saíssem e como chefe da equipe ordenou que fizessem imediatamente.

Minutos depois, o chão sobre o qual tinham estado, desabou. Por muito pouco, os bombeiros não se precipitaram nas chamas. Frank não sabia que havia um porão naquela casa e nem suspeitava que o foco do incêndio estivesse lá. Não soube explicar o porquê decidiu evacuar. Apenas sentiu.

Estudos recentes demonstraram que nosso cérebro é 95% inconsciente. Essa “maquina” é capaz de cálculos fora do nosso âmbito de compreensão. No caso do bombeiro Frank, seus 20 anos de experiência como bombeiro apagando incêndios, levou o cérebro a arquivar no inconsciente,inestimáveis dados que na hora do evento X (causal de acidente), o levou a fugir rapidamente.

Por exemplo, o cérebro poderia perceber que a fumaça aparentava ser sugada para dentro da residência ao invés de ser levada para fora, a cor era mais acinzentada se comparada a outros incêndios, o ambiente estava mais quente, etc. Inconscientemente o bombeiro foi avisado de que havia algo de incomum em comparativo aos incêndios que o cérebro já havia registrado.

Se Frank fosse um religioso e acreditasse em Jeová, atribuiria a salvação a tal, da mesma forma que se Frank fosse um assíduo frequentador do hinduísmo agradeceria Brahma ou Vishnu pela graça de sua vida.

A atribuição da salvação irá de encontro com a entidade que foi enraizada cultural e tradicionalmente ou a que atende o desejo dogmático de Frank. Nesse caso podendo atribuir o feito até a um extraterrestre, se fosse de comum o desejo da experiência ou sonhos de abdução.

“Construímos nossas crenças por várias e diferentes razões subjetivas, pessoais, emocionais e psicológicas, em contextos criados pela família, por amigos, colegas, pela cultura e a sociedade. Uma vez consolidadas essas crenças, nós as defendemos, justificamos com uma profusão de razões intelectuais, argumentos convincentes e explicações racionais. Primeiro surgem as crenças e depois as explicações”. (p.21) – Livro: Cérebro e Crença – Michael Shermer

Possivelmente você já tenha passado mais de uma vez por uma situação parecida. Talvez dirigindo, percebeu que teria que tomar uma atitude rapidamente, evitou um acidente qualquer, sentiu que precisava descer do ônibus ou até que ir naquela viagem já marcada não parecia ser uma boa.

Estamos falando aqui de intuição. Um mecanismo qualquer dentro da sua cabeça é acionado e lhe diz para escolher a alternativa A, desprezando todas as outras. Não há tempo para pesar na balança os prós e os contras. Você opta por A, sem vacilar. O motivo, você não sabe. Mas fica com uma certeza duradoura de que fez a melhor escolha. Isso se chama intuição – ou sexto sentido, como dizem alguns.

A intuição não substitui o raciocínio lógico, mas alia-se a ele na tomada de decisões. Quanto mais conhecimento você tem, mais certeira será a sua capacidade intuitiva.

Quem de nós não conhece alguém que tenha relatado uma premonição vinda em forma de sonho que o fez mudar de ideia sobre alguma atitude e mais tarde perceber que fez bem?

Quem de nós não ouviu Y dizer que recebeu um sinal, como por exemplo, uma porta batendo, levando-o a pensar na pessoa X, fazendo com que Y fosse atrás da pessoa e “coincidentemente”, X estava precisando de Y?

Quem de nós não ouviu X dizer que sentiu ou ouviu um adeus quando Y faleceu?

As histórias são incessantes. Indivíduos que tenham passado por esses tipos de acontecimentos buscam explicação. Não bastasse o ser humano criar a crença para fortalece-lá posteriormente com uma explicação “bem elaborada e enfatizada”, ele ainda tem que criar padrões. O cérebro tenta achar significado até no que não tem significado.

Para sobreviver precisamos sim desse instinto de intuição e premonição. Ao atravessarmos a rua e ouvirmos umabuzina, presumimos que temos que tomar uma atitude, seja olhar e perceber ou até mesmo correr atravessando rapidamente. Barulhos de escapamentos de moto estourando podem levar-nos abruptamente a jogarmo-nos ao chão se estivermos habituados a locais com alto índice de tiroteios.

Esses eventos são considerados premonição, mas será que nosso cérebro pode prever que nosso avião irá sofrer um acidente?

Claro que ele não tem competência para isso. Mas acha que tem. Então, num dia em que você estiver indo embarcar em um avião e sentir que não deve ir, lembre-se: seu cérebro ficou computando o risco de o avião cair e, desta vez, concluiu que sim, se você entrar na aeronave, acabou, irá morrer.

Só que tem uma coisa: se você não der ouvido a ele, embarcar e nada acontecer, a premonição errada vai para o “lixo” da mente junto com bilhões de outros erros de avaliação que seu cérebro faz o tempo todo.

Mas se você aceitou a premonição e optou por não viajar e o avião acabou caindo, a certeza de que a previsão estava certa será total. Até por isso as histórias de premonições nunca acabam. Todos os dias existem pessoas que desistem de embarcar e se coincidentemente um avião cair, acredite, você verá uma noticia de premonição nos meios de comunicação.

O mesmo se dá para as premonições da morte de uma pessoa querida. Vou dar um exemplo de um caso aonde já existe um problema de saúde. A preocupação já é, portanto natural. Por exemplo, o individuo que ligou o sinal A (a porta batendo) com o sinal B (meu pai está doente) e concluiu que alguma coisa aconteceu com o pai, poderia ter se enganado e descartado as ligações, não lembrando delas no dia seguinte, ou coincidentemente estar certo que o pai corria perigo, dando um “TILT” no cérebro e concluindo que o sinal A tem ligação com o sinal B. Criando um significado padrão de que o evento foi um aviso sobrenatural, atribuindo a deuses, espíritos, extraterrestres, dependendo novamente das crenças do individuo. Lembra que escrevi que o ser humano busca significado até no que não possui significado?

Dessa forma finalizo as explicações. Espero mais uma vez que tenha ficado claro. Quaisquer dúvidas, sugestões ou críticas fiquem a vontade a expor nos comentários. Caso tenha gostado compartilhe e ajude-nos com a virtude do ceticismo e do conhecimento.

Referências

http://hypescience.com/o-que-e-intuicao/

http://ahau.org/neurociencia/

http://www.mentedepoder.org/2012/12/o-poder-da-mente-subconsciente.html

Cérebro e crença – Michael Shermer 2012 – Editora JSN LTDA encontre aqui:

http://irreligiosos.ning.com/profiles/blogs/c-rebro-e-cren-a-michael-shermer

Casos reais de intuição

http://books.google.com.br/books?id=0sD-U6e1T7YC&pg=PA178&lpg=PA178&dq=intui%C3%A7%C3%A3o+bombeiro&source=bl&ots=KQ3X4G3Zp9&sig=zfVYWjIAZMkjsPJ54QqBBCTbcjY&hl=pt-BR&sa=X&ei=icZrVNnAL8WaNuiXgJAO&ved=0CC4Q6AEwAw#v=onepage&q=intui%C3%A7%C3%A3o%20bombeiro&f=false

O cérebro é 95% inconsciente, sustentado por:

  • Bennett, M. R., & Hacker, P. M. S. (2003). Fundamentos Filosóficos da Neurociência. Lisboa: Instituto Piaget.
  • Gay, P. (2012). Uma Vida para o Nosso Tempo. São Paulo: Companhia das Letras. (Citado na matéria resenhada.)
  • Santi, A., & Lisboa, S. (2013). O mundo secreto do INCONSCIENTE. Super Interessante, ed. 315. São Paulo: Editora Abril.
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2 comentários sobre “Explicando causas sobrenaturais: instinto e premonições.

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