Sobre a fé. Precisávamos? Precisamos?

Por: Lucas Belarmino

A explicação é cientifica: O cérebro foi programado através da evolução e seleção natural para acreditar!

Mas por quê?

Uma breve explicação da evolução nos remete ao fato de que acontece pela seleção natural, ou seja, adaptações no intuito de sobrevivência e reprodução.

Se sobreviver é o sentido da evolução, como a fé contribuiu para que sobrevivêssemos?

Hoje tento explicar.

Basearei a plausibilidade de meu texto em um experimento científico. Vamos lá?!

Quero agora que imagine- se sozinho dentro da floresta. É noite.  Você falhou em fazer fogo e tudo o que tem é a luz do sol que transpõe a lua e as estrelas. Tua família dorme nesse instante, mas você mantem-se em pé afiando uma pedra para a caça do dia seguinte. De repente ouve barulhos e percebe que atrás das arvores as folhas se mexem. É algo ou alguém se aproximando, ou apenas o vento? – você se pergunta. Supostamente você é levado a crer que algum predador pode estar a chegar e logicamente se preocupa não só com sua vida, mas pensa em toda sua família que esta a dormir. Sabendo que seu abrigo não é muito seguro, o fogo nesse momento te faz uma imensa falta para manter a segurança e afastar os predadores noturnos. Dessa forma, quais alternativas te restam?

1 – Você acredita que é realmente um predador se aproximando, sugere que possa não ser, mas ainda assim decide abandonar o local rapidamente, levando sua família;

2 – Fica aguardando. Mantem-se cético. Espera e analisa se realmente é um predador ou se é apenas o vento e uma criação ilusória do inconsciente, com medo de virar comida.

Se você escolheu a alternativa de número 1, certamente percebeu que esperar era um risco e confiou que deixar o local era o correto. Sua família supostamente acordou assustada e te acompanhou. Com certeza, para tirar sua família rapidamente do local, você não teve tempo de explicar que poderia não ser nada, na realidade, você teve que enfatizar a imagem do pior dos predadores no cérebro de sua mulher e filhos para convencê-los de correr. Levou-os a acreditar naquilo que não se via e inclusive fantasiar com o que, supomos, poderia ter sido apenas o vento.

Imagine ainda seu filho contando a um amigo de outro bando que seu pai enfrentou a fera e salvou-os. Seria como o conhecido “telefone sem fio”.

Se você optou pela alternativa de número 2, decidiu esperar e analisou que ficar, mesmo com os riscos, o levaria a verdade e não a ilusão. Teria tempo de perceber que era apenas o vento e uma criação do cérebro inconsciente que já temia e criava a imagem do padrão monstruoso, liberando em sua corrente sanguínea adrenalina e saciando todos os músculos com hormônios capazes de fortalecimento e explosão. Decidiu ainda que mesmo o ar enchendo seus pulmões e o coração ameaçando “pular para fora do peito”, enfrentaria o instinto e descobriria enfim se era verdade. Manteria- se consciente e controlaria o medo em busca da realidade, mesmo que valesse a sobrevivência.Nesse caso, estava a família dormindo, quando você percebeu já era tarde e o pior dos felinos com fome aproximava-se. Infelizmente não deu tempo, mas um de seus filhos sobreviveu. Mais tarde seu filho diria ter aprendido uma lição com seu pai.

Questionar é ruim e pode valer-me a vida – disse ele.

Segundo Michael Shermer (2012), podemos agora entender que as pessoas acreditam em coisas estranhas por causa da necessidade evolucionária de acreditar em coisas que não são estranhas.

Querido leitor, trouxe essa hipótese a fim de demonstrar que ter acreditado em algo, mesmo que não fosse sobrenatural, nos levou a melhores chances de sobrevivência (aumentando também as chances de reprodução).

A inocência de nossa infância demonstra ainda que somos abertos a acreditar no que nos é ensinado, com alto nível de credulidade e ingenuidade. Tornando-se difícil o questionamento do conhecimento adquirido durante a infância, quando adultos, pois essas  culturas se tornam crenças arraigadas junto a nossa personalidade.

Se você disser ao seu filho que ele não deve pular no buraco, pois vai se machucar. Claramente, depois que ele tiver o padrão da palavra machucar em seu cérebro, ele provavelmente não pulará. Confiando em você ele fará associação cognitiva do que conhece sobre machucados. O mesmo acontece sobre as crenças culturais, ele ouvirá de você -figura de autoridade- que papai Noel existe, assim como coelhinho da pascoa e papai do céu, e acreditará. Mais tarde, descuidadamente ouviu que papai Noel não existia e foi perguntar a sua mãe. A mãe achou que era hora de contar a verdade e reforçou que o filho já era crescidinho. O filho sentiu-se mal com tudo aquilo, o Mundo de fantasias fora destroçado, mas ainda trouxe consigo o orgulho de conhecer a verdade. Antes de dormir, a mãe disse que o amava e desejou que dormisse com papai do céu.

Como assim mãe? Papai do céu não existe. – sussurrou.

Claro que existe filho. Inclusive te observa a todo instante. – respondeu a mãe.

Quase falou que também ouvia os pensamentos da criança, mas achou que era cedo e que dizer aquilo poderia assusta-lo.

Gostaria de demonstrar agora, através de um experimento feito pelo psicólogo Jesse Bering e publicado no ano de 2011 no “Journal of Experimental Child Psychology”, que a fé no sobrenatural levou-nos a melhor convivência em grupo, contribuindo para a sobrevivência de nossos ancestrais.

O experimento de Jesse foi feito com crianças, porem mais tarde foi refeito com adultos religiosos e demonstrou os mesmos resultados.

O 1° grupo foi separado em salas. Deveriam participar de um jogo e foi lhes dito que receberia uma recompensa àquele que cometesse menor número de erros.

O 2° grupo foi separado em salas. Deveriam participar do mesmo jogo e também foram informados da recompensa.

O jogo aconteceria assim:

Cada indivíduo deveria com um anel atravessar uma linha curva, porem todas as vezes que o anel por descuido encostasse à linha seria emitido um barulho e em seguida o individuo deveria apertar o botão sinalizando que cometeu um erro, até que todo o trajeto fosse atravessado.

Sem saberem que estavam sendo gravados foi lhes apresentado o resultado.

No 1° grupo todos trapacearam. Apertaram o botão menos vezes do que realmente erraram.

No 2° grupo todos foram honestos. Apertaram o botão exatamente às vezes que erraram.

A diferença entre os grupos aconteceu devido a um ato antes da competição. Nas salas que separavam o 2° grupo possuíam alguns móveis. Um ator disse antes da competição que aqueles móveis seriam mostrados em um programa de televisão, pois eram considerados assombrados. Inclusive, nas salas havia um sofá, qual morreu uma mulher e que diziam que ela estava sentada nele até aquele momento.

A conclusão demonstrou que o 2° grupo foi honesto devido à informação de que na sala possuía algo sobrenatural. Quando os participantes foram questionados sobre a crença naquela história dos móveis, todos disseram que a informação foi irrelevante e que não deram importância. Não conscientemente.

A ideia de algo sobrenatural é forte o suficiente para interferir no comportamento humano inconsciente. O comportamento influenciado por uma presença sobrenatural faz as pessoas agirem de uma forma “mais MORAL”, e essa reação vem de nós mesmos e não de fato, de algo sobrenatural.

Segundo Bering, existe uma explicação evolutiva para isso.

Enquanto nossos ancestrais desenvolviam a linguagem, também significava que eles podiam “fofocar”, e através da fofoca, a reputação de outro individuo poderia ser danificada, o que acarretaria em exclusão social, influenciando na isolação deste, ainda colocando em risco a sobrevivência (menos chance de reprodução). Nossos ancestrais aprenderam o comportamento moral para manterem- se satisfeitos uns com os outros e assim aumentar as chances de sobreviver.

A maneira mais segura de se manterem satisfeitos e “na linha”, seria acreditar haver algum tipo de presença divina que poderia ainda pega-los quando estavam sozinhos.

Então criou- se um ser que tudo via e podia, para que moderasse as ações. Esse ser seria referencia da vontade humana de justiça. Cito em vários segmentos a vontade humana criando hipóteses, tais como justiça divina, karma, lei da atração, etc.

Claramente, hoje em dia aqueles que sabem usar dessa ideia de divindade se sobrepõe aos que tem fé. Manipulando-os e decidindo o que é vontade divina e o que é contra. Pois segundo Dawkins(2006) a resposta normalmente é alguma forma de doutrinação infantil. Se você é religioso, a imensa probabilidade é de que tenha a mesma religião de seus pais. Caso tenha nascido no Arkansas e ache que o cristianismo é a verdade e o islã é a mentira, sabendo muito bem que acharia o contrário se tivesse nascido no Afeganistão, então você é vítima da doutrinação infantil. Mutatis mutandis se você nasceu no Afeganistão.

Nosso bom comportamento diante da informação de que os móveis estavam amaldiçoados é apenas parte do funcionamento natural e inconsciente de nosso cérebro.

A fé foi característica evolutiva. O gene da fé ainda é controverso dentre cientistas.  Apresento apenas a minha visão de que a crença um dia foi essencial para a sobrevivência do homo sapiens e possivelmente de nossos ancestrais.

Na próxima quinta-feira trago a bordo uma explicação de como a formação da personalidade corrobora com a dificuldade de questionarmos aquilo em que acreditamos.

E para você? Sobre a fé. Precisávamos? Precisamos?

Acho que já passou da hora de evoluirmos.

 

sobrenatural


 

REFERÊNCIA:

Artigo: O experimento de Jesse Bering. Disponível em:  http://www.academia.edu/503195/_Princess_Alice_is_watching_you_Childrens_belief_in_an_invisible_person_inhibits_cheating

DAWKINS, Richard. Deus, um Delírio. Companhia das Letras. 2006. Disponível em: http://copyfight.me/Acervo/livros/DAWKINS.%20Richard%20-%20Deus,%20um%20Deli%CC%81rio.pdf

SHERMER , Michael. Cerebro e Crença. JSN Editora. 2012. Disponível em:

http://www.orelhadelivro.com.br/livros/650821/cerebro-e-crenca/


 

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6 comentários sobre “Sobre a fé. Precisávamos? Precisamos?

  1. Pingback: A formação da personalidade – Fé como terapia? | AASA: Ateus e Agnósticos-Sociedade Ateísta

  2. Oiee gente.

    Olha eu acho que hoje, a coisa é mais para dar um sentido a coisa toda, existem pessoas que precisam disso, a maioria, as vezes penso que nós somos os doentes. agora coloco outra questão: e eu? eu não sei o que é isso, crer no sobrenatural, não entendo como é sentir isso, seria o mesmo que ver um filme de terror e ficar com medo depois? Eu gostaria de experimentar para saber do que falo kkkk
    Parabéns Lucas !

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    • Obrigado por deixar sua opinião jocaesan. Tentamos mostrar que a religião não torna as pessoas boas. Moralidade, o senso de bom e ruim, é fazer o que é certo independente do que lhe foi dito. A religião ensina obediencia, ou seja, fazer o que lhe foi dito independente do que é certo. Um individuo que não tenha preconceito contra homossexuais, por exemplo. Passa a ter preconceito a partir de conhecer que sua doutrina ensina que aquilo é uma escolha e que o caminho é errado.

      Ainda podemos citar exemplos de prisões, quais possuem mais de 90% de presidiários que acreditam em Deus. É ignóbil a atitude religiosa de dizer que se a pessoa cometer algum pecado e se arrepender depois estará no reino do céu. Deus se preocupa mais com quem acredita nele em detrimento de quem comete bondade.

      Por esse ponto de vista, ira para o céu o assassino que matou , o homem que estuprou, etc, enquanto aquele que só praticou de bons atos para a sociedade estará no inferno.

      Obrigado mais uma vez por sua opinião. Acompanhe nosso BLOG. Todas as quintas textos novos em minha coluna.

      Abraços.

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