O QUE É BIOLOGIA EVOLUTIVA?

Por Victor Rossetti

O que é evolução? Quando estou em sala de aula, peço para que os alunos me digam um sinônimo da palavra evolução. Geralmente dizem: transformação, melhoria, animais evoluídos, vidas melhoradas e tantos outros que passam longe da biologia básica.

Obviamente isso varia de idade para idade, mas ainda é persistente a ideia de que a evolução traz uma melhoria constante das formas de vida, ou que a complexidade é o foco do progresso evolutivo. Nada mais errado, mas como são alunos, cabe ao biólogo e ao professor desmistificar esses conceitos antiquados enraizados na sociedade graças a atuação da mídia com seu pobre conhecimento (e divulgação) científico e ao senso comum inflado pelos opositores da evolução.

Victor Rossetti com uma Catoblepia amphirhoe (Hübner, 1822)

Victor Rossetti com uma Catoblepia amphirhoe (Hübner, 1822)

Mudança! Sim, o melhor sinônimo de evolução é a mudança. A vida muda ao longo do tempo, estruturas biológicas surgem, outras desaparecem, os comportamentos mudam ligeiramente, a quantidade de cromossomos se altera, as propriedades metabólicas são naturalmente selecionadas e adequadas por mecanismos evolutivos de tal forma que somente aqueles com algum tipo de vantagem em relação aos concorrentes sobrevivem e passam tais características a geração seguinte. Ao longo de milhares ou milhões de anos grupos que faziam parte da mesma espécie deixam de compartilhar seu patrimônio genético por razões (mecanismos) meramente naturais e temos duas espécies novas surgindo.

Como sabemos disso? Bem, existem evidências claras que nos permite inferir que esse relacionamento histórico/compartilhado da vida ocorre. A história evolutiva (ou filogenetica) da vida pode ser evidenciada em homologias genéticas e estruturais, comportamentos, nas mudanças embriológicas, na ecologia evolutiva, na biologia molecular com sequencias de genes semelhantes em espécies irmãs, com um aumento gradual nessa diferença conforme grupos mais filogeneticamente distantes são comparados. E claro, os fósseis.

A evolução é o pilar da biologia. Ela explica a diversidade de formas de vida por mecanismos naturais, e explica as estruturas anatômicas projetadas para uma determinada função. O trabalho do biólogo evolucionário é desvendar o relacionamento histórico dessas formas de vida. E ele deve obedecer às regras da produção de conhecimento científico. Isso quer dizer que hipóteses são levantadas ao se analisar um fenômeno biológico, seja uma estrutura anatômica, uma rede metabólica ou um fóssil. Essas hipóteses são insistentemente testadas. Elas têm de ser passivas de teste e possíveis de serem refutadas, respeitando o falseamento Popperiano. Quando corroboradas e associadas a outras hipóteses pode constituir uma teoria, um paradigma vigente. A biologia evolutiva é o paradigma vigente que explica a diversidade de formas de vida. O paradigma não é uma verdade, é um modelo explicativo, e por mais que parece estranho, a evolução biológica não é uma verdade. Ela é um fato científico no sentido de que é corroborada por uma série de hipóteses insistentemente testadas e concatenadas, mas ela não é absoluta, ela pode cair por terra a partir do momento em que uma explicação melhor se apresentar. Para a biologia isso seria fantástico, como foi a mecânica quântica e a relativista para a física clássica newtoniana. A evolução é o paradigma vigente porque satisfaz as explicações do porque todos os felinos compartilham o mesmo comportamento de auto-limpeza, porque todos os mamíferos compartilham o gene Pax6 ou porque borboletas do gênero Heliconius tem a mesma preferência alimentar, os mesmos maquinários genéticos que determinam a cor e o formato de suas asas.

O trabalho do biólogo evolucionário é semelhante ao da polícia científica. Raramente vemos as coisas acontecendo em tempo real, isso porque em evolução, as coisas acontecem lentamente, em escala de tempo geológico. Mas isso não esta longe de nosso alcance. É a partir das evidências deixadas para trás que o policial ou o biólogo cria um perfil.

Um policial científico que encontra um corpo e a arma usada para matar pode traçar a sequencia na qual o crime foi cometido, suas etapas, traçar um perfil sobre as motivações e até um perfil psicológico do assassino. Na biologia evolutiva acontece da mesma forma. Pelos fósseis, genes compartilhados,mo nicho ecológico que os animais compartilham podemos ter uma ideia da dinâmica que levou espécies a se separarem, traçar um perfil evolutivo baseado nas evidências fósseis e anatômicas, comparar isso em uma matriz de dados e criar modelos estatísticos de verossimilhança para estabelecer parcimoniosamente qual é a arvore de relacionamentos que melhor explica o relacionamento histórico entre esses taxa.

Entender os conceitos de evolução é fácil, é divertido, fixa a nossa atenção para entender o porque de tamanha diversidade de vida e permite entender a nossa origem como espécie.

Difícil é debater com seus opositores, é chato na maioria das vezes, isso porque na maioria das vezes negam a teoria da evolução não com argumentos científicos, mas por um posicionamento absolutista meramente religioso. A ciência tem o seu modo de construir conhecimento, baseado no método empírico, no falseamento popperiano e na construção de modelos explicativos temporários. A religião também interpreta os fenômenos do mundo, mas com sua própria metodologia; a revelação divina, autoridade do livro sagrado e a tradição religiosa. Transpor esses limites metodológicos, epistemológicos e juntar tudo num “saco de gatos” pode trazer complicações para o melhor entendimento e divulgação de conhecimentos científicos criando uma falsa ciência em que Deus precisa ser provado cientificamente para que seja vivo. E cria um déficit religioso uma vez que a crença em Deus deixa de ser única e exclusivamente na fé e busca em uma metodologia mundana comprovação da Verdade. É uma tentativa de catequizar a ciência. A ciência não busca comprovar ou refutar Deus, o sobrenatural esta fora de sua competência de trabalho, afinal, se Deus fosse detectado pelo método científico, não seria sobrenatural, mas sim natural. Devemos ressaltar também que nem todo conhecimento religiosa é oposto a biologia evolutiva. Alguns grupos budistas aceitam claramente as explicações científicas para a origem do universo, da vida e sua diversidade. Recentemente o Papa Francisco fez um pronunciamento semelhante ao do Papa João Paulo II, de que a evolução e o Big Bang já estão tão bem fundamentados que não podemos nega-los. Claro, ele fez suas considerações religiosas, mas demonstra certa flexibilidade e coerência com uma evolução teísta. Há mais coerência em um papa do que na maioria dos segmentos evangélicos.

Não é possível justificar como um Deus tão onisciente precisaria ser provado cientificamente para ser visto. A crença é dada pela fé e não pela ciência.

Não estou propondo uma compartimentalização do conhecimento. Ao contrário, a ciência e a religião intercambiam informações constantemente, mas para discutir ciência e religião é preciso ter um conhecimentos básicos em comum, é preciso entender um mínimo possível, é preciso deixar de misturar e de transmigrar conceitos religiosos para dentro das teorias científicas como fazem os negacionistas religiosos da evolução. Não é preciso fé para ser biólogo evolucionista; a evolução não é mitologia; Deus não precisa da ciência para ser acreditado por seus seguidores; evolução biológica não é a mesma coisa que origem da vida.

Infelizmente, a maioria das pessoas que usa esses conceitos errados não são pessoas apenas ignorantes em ciência, mas sim pessoas de ma fé que querem minar conhecimentos fidedignos ao método para implantar uma visão radical religiosa. Eles não são só analfabetos científicos, são fundamentalistas religiosos.

E a melhor forma de combate a este tipo de manobra pseudocientífica é a produção de mais conhecimento científico e a popularização desse conhecimento, na educação, na transmissão e na busca da reflexão sobre até onde essas teorias se aplicam, o que elas nos dizem, o que elas não nos dizem. Educação é a base de tudo, não para salvar os fundamentalistas, mas para evitar que as futuras gerações caiam nas mãos desses grupos fanáticos com uma visão restrita e dogmática da criação. É possível seguir crendo em um Deus e aceitar que a evolução biológica explica muitos fenômenos. Como lidar com as contradições é algo bastante pessoal, mas vale a pena tentar.
A discussão, o debate, as reflexões, as trocas de informação, de artigos e o respeito a conclusão individual devem ser mantidos. Só assim teremos um entedimento mais plano e coerente do que é ciência e da biologia evolutiva.


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3 comentários sobre “O QUE É BIOLOGIA EVOLUTIVA?

  1. Evolução = mudança. Não são sinônimos. A evolução constitui uma mudança ou transformação relacionada a melhor adaptatividade ao ambiente. Nesta mudança há que se considerar as modificações relacionadas ao meio. De um ponto de vista absoluto uma evolução nem sempre é para melhor já que está condicionada as modificações do meio. A evolução é uma mudança relativizada. Por exemplo, se um planeta está em seu auge como abrigo para a vida biológica e à partir daí a curva é descendente, provavelmente muitos organismos irão mudar, porém tal mudança ao longo do tempo será voltada para o caminho da extinção. Provavelmente esse foi o caminho percorrido nas mutações biológicas em marte. Ou seja, nem sempre a mudança é evolutiva mas pode ser, ao contrário, involutiva.

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    • Tudo que voce acabou de falar é mudança!!! 😉
      Mudança e evolução são sinonimos sim, note que não disse que evolução seja sinonimo de progressividade, por isso nem sempre é para melhor!!!
      Mas é mudança, ainda que isso, lá na frente custe sua extinção por uma incapacidade de se adaptar a uma condiçao ecologica nova, ou sem qualquer chance de adaptaçao, como no caso dos dinos. Dodos tinham um comportamento docil, foram extintos por não temer predadores, nem por isso foram evolutivamente fixos.

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      • Mudança pura e simplesmente não é evolução. É necessário um adjetivo aqui. Mudança é muito amplo e pode abarcar alterações do desenvolvimento de um único organismo. Por exemplo, uma pessoa pode pintar o cabelo e isso é mudança, mas não é evolução. Um organismo pode ter seu membro decepado por um predador, é mudança, mas não é evolução.

        Melhor sinônimo para evolução é descendência com modificação. Um vez que exige que a mudança seja acompanhada de herança, o que restringe a mudança pra algo que está além da ontogênese de um indivíduo.

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